Geradora, controlada pela alemã E.ON e Eike Batista, tem R$ 2 bi em dívidas que vencem até o fim do ano e corre risco de pedir recuperação judicial.
Eneva busca acordo com bancos

Quase um ano após a entrada da gigante alemã de energia E.ON em seu capital, a Eneva, ex-MPX, volta a conviver com problemas dos tempos em que tinha o empresário Eike Batista como principal acionista. Com aproximadamente R$ 2 bilhões em dívidas com vencimento até o fim do ano, a empresa conversa com credores e sócios na tentativa de equacionar o passivo.
A expectativa é que o acordo, caso saia, traga uma solução de longo prazo para companhia, que envolveria tanto a reestruturação da dívida como a injeção de recursos novos, conforme apurou o Valor. Procurada, a Eneva não comentou o assunto.
A maior parte das dívidas da companhia vencia no ano passado, mas os bancos aceitaram rolar o compromisso, com juros mais salgados, por mais um ano. Com a presença da E.ON e o início da operação das usinas térmicas da Eneva, que são movidas a gás e carvão, as instituições julgavam ter se livrado do chamado “risco X”. Mas o atraso na entrada em operação dos projetos, que venderam energia em leilões, voltou a pressionar a companhia.
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Tanto a companhia quanto bancos credores já consultaram especialistas para traçar qual seria o cenário para o negócio no caso de uma recuperação judicial, segundo fontes. Mas essa seria uma medida drástica, já que parte dos ativos foi incluída em garantias de empréstimos do BNDES. A solução para a dívida da companhia também passa pelo banco estatal, praticamente única fonte de recursos de longo prazo no país. Procurado, o BNDES não se pronunciou nem informou o valor dos empréstimos com a elétrica.
Os bancos credores não demonstram restrições em estender o vencimento da dívida enquanto os recursos de longo prazo não saem, desde que os recursos sejam efetivamente empregados nos projetos da companhia, segundo uma fonte com conhecimento do assunto. O principal receio é que a empresa se veja obrigada a comprometer ainda mais o caixa na compra de energia no mercado livre para compensar o atraso na entrada em operação das térmicas, conforme as regras do setor elétrico. Desta forma, de nada adiantaria a renegociação.
A Eneva discute com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) um “excludente de responsabilidade”, medida que livra a empresa das penalidades pelo atraso e da necessidade de comprar energia no mercado de curto prazo para honrar seus compromissos contratuais. A empresa alega que houve atraso na assinatura do contrato de concessão.
Em meados de abril, o diretor-geral da Aneel, Romeu Rufino, pediu vistas sobre o processo. Até o momento da decisão de Rufino, os demais integrantes da diretoria sinalizaram com a possibilidade de acatar o pleito da geradora. Ainda não há uma previsão oficial de quando a Aneel retomará a discussão sobre o assunto.
Outra alternativa imediata seria um novo aporte de capital dos acionistas. O principal problema é que, com o preço das ações da Eneva depreciado, a E.ON pode se tornar controladora da empresa caso precise capitalizá-la, o que a obrigaria a consolidar os resultados, incluindo as dívidas, em seu balanço. A Eneva estuda ainda a venda de ativos, mas o processo não tem data definida para acontecer e esbarra na urgência da companhia.
Com base nas cotações do fechamento de terça-feira na bolsa (R$ 1,27), as ações da Eneva sofreram uma desvalorização de 87% em relação ao valor que a E.ON pagou por parte das ações de Eike, que permanece com 24% da companhia. Com rumores de que a companhia fechará um acordo para o passivo, os papéis da empresa fecharam ontem em forte alta de 17,3%.
A Eneva possui hoje 2,4 mil megawatts (MW) de capacidade instalada em operação. A energia é produzida principalmente por um complexo termelétrico a gás natural no Parnaíba, interior do Maranhão, uma térmica a carvão em São Luís (MA) e outro complexo, também a carvão, em Pecém (CE).
A empresa tinha previsão de colocar em operação no início deste ano a térmica a gás Parnaíba II, que acrescentaria 450 MW médios ao sistema. Pelo cronograma oficial do empreendimento, as duas primeiras turbinas estavam previstas para iniciar a operação em fevereiro, fornecendo 400 MW médios, o que não ocorreu. A terceira unidade geradora está prevista para entrar em operação em junho.
No fim de março, na teleconferência sobre os resultados do ano passado, quando a companhia amargou prejuízo de R$ 942,4 milhões, o novo diretor-presidente da Eneva, Fabio Bicudo, afirmou que esperava obter em abril a solução para a térmica Parnaíba II e a conclusão do plano de reestruturação da empresa. Os dois objetivos, porém, não foram alcançados no prazo previsto.





















