Presidente da APCS e do Consórcio Suíno Paulista defende compras coletivas, planejamento e escala como resposta prática ao custo de produção
Fala Agro
Comprar melhor também é defender margem, por Valdomiro Ferreira Junior
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O custo de produção não começa no cocho. Começa quando o produtor define o que comprar, em que volume, em qual momento e sob quais condições. É por isso que a eficiência também se constrói fora da porteira.
Nos últimos artigos, tratei de dois pontos que caminham juntos: preço só ganha sentido quando é comparado ao custo, e uma referência de mercado melhora a qualidade da negociação.
Mas existe um terceiro ponto que precisa entrar nessa conversa.
O produtor não defende a margem apenas quando vende. Também defende a margem quando compra.
Na suinocultura, é natural que a primeira leitura de eficiência esteja dentro da granja: conversão alimentar, sanidade, mortalidade, manejo, energia, produtividade da equipe e uso correto das instalações.
Tudo isso é indispensável. Mas não encerra a conta.
Uma parte decisiva do resultado é definida antes de o insumo chegar à propriedade: no planejamento da necessidade, na especificação, no volume, no prazo, na entrega, na forma de pagamento e no impacto sobre o caixa.
A alimentação mostra o tamanho da decisão
Em junho de 2026, a Embrapa calculou em R$6,21 por quilo vivo o custo de produção de suínos no sistema de referência de Santa Catarina. A ração respondeu por 72,6% desse total. Fonte: Embrapa Suínos e Aves.
Esse percentual não deve ser aplicado automaticamente a toda granja paulista. Estrutura, escala, desempenho zootécnico, logística e condições comerciais mudam de uma propriedade para outra. Mas o dado mostra, com clareza, onde está uma das maiores exposições econômicas da atividade.
Quando quase três quartos do custo de um sistema de referência estão ligados à alimentação, a qualidade da compra deixa de ser um assunto administrativo. Passa a ser uma decisão estratégica.
E o momento reforça essa necessidade.
Na parcial de julho, o Cepea apontou que o poder de compra do suinocultor paulista recuou diante do milho e do farelo de soja.
Com a venda de um quilo de suíno vivo, o produtor conseguiu adquirir 4,92 quilos de milho ou 3,13 quilos de farelo. A relação com o milho era a mais baixa desde janeiro de 2023; com o farelo, desde janeiro de 2024. Fonte: Cepea/Esalq-USP.
Em 17 de agosto, o próprio Cepea voltou a registrar alta do milho no mercado interno, mesmo diante da expectativa de safra recorde. No mesmo dia, também apontou avanço do complexo soja, sustentado pela disputa entre demanda interna e externa e pelo câmbio.
Esses dados não dizem que existe um momento perfeito para comprar. Dizem algo mais útil: em mercados voláteis, improvisar custa caro.
Comprar melhor não é apenas pagar menos
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O menor preço unitário nem sempre representa a melhor compra.
Uma condição pode parecer vantajosa e, ainda assim, pressionar a operação quando exige um volume acima da necessidade, concentra desembolsos, aumenta o estoque, cria risco de perda, não garante o padrão esperado ou transfere para a granja uma logística que não foi corretamente calculada.
Comprar bem exige comparar condições equivalentes.
Produto, especificação, qualidade, volume, prazo, entrega, pagamento, confiabilidade do fornecedor e custo financeiro precisam estar na mesma análise. Sem isso, a comparação fica incompleta.
Por isso, uma boa compra começa antes da cotação. Começa com planejamento.
O produtor precisa conhecer sua necessidade, seu consumo, seu espaço de armazenagem, seu fluxo de caixa e sua margem de segurança. Só então o preço passa a ser lido dentro da realidade da granja.
Onde a compra coletiva gera valor
A compra coletiva não elimina a volatilidade e não garante a melhor condição em todas as rodadas.
Seu valor está em organizar o que, isoladamente, tende a ficar disperso.
Quando produtores reúnem demandas compatíveis, conseguem formar uma base mais consistente para consultar fornecedores, comparar propostas e planejar entregas. A escala amplia a conversa. A organização melhora a decisão.
Mas escala sem organização é apenas volume.
Se cada participante informa sua necessidade de forma incompleta, muda o pedido no meio do processo ou não planeja o próprio caixa, o grupo apenas transfere desorganização individual para uma negociação maior.
Uma compra coletiva séria exige critérios comuns, prazos, especificações, governança e compromisso com o processo.
O papel prático do Consórcio Suíno Paulista
É essa lógica que orienta o Consórcio Suíno Paulista, o CSP.
Ao longo da minha atuação à frente da APCS e do Consórcio, acompanho produtores independentes que precisam preservar autonomia sem carregar sozinhos toda a assimetria de informação e negociação.
No CSP, as demandas são organizadas em processos coletivos para diferentes necessidades da granja, como farelo de soja, aminoácidos, premixes, medicamentos e itens operacionais.
Os produtores continuam responsáveis por conhecer sua necessidade e decidir pela propriedade. O Consórcio ajuda a estruturar escala, comparação e processo. O portal da APCS/CSP registra publicamente essas tomadas de preço.
Essa distinção é importante:
- O CSP não substitui a gestão da granja, não controla o mercado e não promete eliminar risco. Ele cria uma infraestrutura de compra para que o produtor compare condições com mais método e enfrente parte relevante do custo com menos isolamento.
O ganho mais duradouro não está apenas em uma negociação pontual. Está na disciplina de planejar, especificar, comparar e decidir com critérios que podem ser repetidos ao longo dos ciclos.
Resiliência também se constrói na compra
Quem acompanha a suinocultura há muitos anos sabe que o mercado muda de direção. Há ciclos de maior oferta, pressão sobre o preço do animal, valorização de grãos, restrição de crédito e recuperação de demanda.
Nenhuma estrutura elimina essas oscilações.
Resiliência econômica não é suportar pressão indefinidamente. É reduzir exposições evitáveis para preservar caixa, padrão sanitário, capacidade de investimento e continuidade da produção.
Por isso, eficiência dentro e fora da porteira não são estratégias concorrentes.
A granja precisa converter melhor, controlar perdas e produzir com qualidade. O produtor também precisa comprar com planejamento, vender com referência e participar de estruturas coletivas capazes de organizar informação e negociação.
Margem não é defendida por uma única grande decisão. Ela é construída em uma sequência de decisões bem feitas.
E muitas delas acontecem antes de o caminhão chegar à granja.
Na sua operação, o que mais dificulta uma boa compra hoje: planejamento, escala, prazo, logística ou fluxo de caixa?
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