Perdendo dinheiro todas as semanas, os suinicultores portugueses dizem que o negócio poderá desaparecer em seis meses.
A derrota da suinocultura portuguesa

Cada porca tem direito a três quilos de ração por dia. É a dieta rigorosamente calculada para garantir o peso ideal das fêmeas que, dentro de três meses, hão de dar à luz entre 10 e 17 leitões de uma vez só. O sistema é sofisticado. Para comer, cada porca dirige-se sozinha a um compartimento metálico. A máquina identifica cada animal ao reconhecer o chip colocado na orelha e disponibiliza a ração. Tudo é medido ao pormenor: se a porca comer os 3 kg a que tem direito de uma vez, a máquina só volta a dar comida em 24 horas. Mas pode fazer várias refeições por dia até atingir a dose prevista. Se não comer o que é suposto, o computador dará o alerta.
Estamos na exploração do Nucho das Faias, Pegões, concelho do Montijo, uma das regiões onde se criam mais porcos no país. A unidade de produção dos irmãos Sérgio e Pedro Marques tem “um tamanho médio”, mas as exigências tecnológicas são tão ou mais rigorosas do que as das grandes produções. “Temos 600 reprodutoras a cumprir as normas todas exigidas. É uma exploração de topo, do melhor que há na Europa. Em 2011, fizemos uma reestruturação grande na empresa, com fortes investimentos. Foram cerca de 450 mil euros. E depois, em 2012, tivemos de remodelar o tipo de piso das engordas e de todas as reprodutoras, o que nos custou perto de 100 mil euros”, conta Sérgio Marques, de 45 anos. Ele e o irmão Pedro, de 46, pegaram na empresa que o pai já tinha herdado do avô e modernizaram a produção. Nesta empresa trabalham sete pessoas, nas outras unidades, entre empregos diretos e indiretos, dão sustento a cerca de trinta.
Os irmãos nunca tiveram outra ocupação que não fosse criar suínos. O que fazem com gosto. Atravessaram várias crises, específicas do setor ou gerais da economia. Mas foi a partir do final do último verão que mergulharam, como todos os colegas, numa espiral de prejuízos. Há mais de quatro meses que o preço pago pelos animais no momento do abate é significativamente inferior ao custo de produção. Os empresários do setor se dizem sem capacidade de cobrir os prejuízos e, pior, sem esperança de que o cenário se altere.
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“O nosso sentimento é de profunda tristeza. Esta empresa é uma, mas vão acabar todas. Se continuar assim, não é possível continuar a produção em Portugal. Vamos acabar a comer a carne dos espanhóis, sem que alguém se importe com isso”, diz Pedro Marques.
Sílvia Mocho, de 27 anos, é uma das duas engenheiras zootécnicas da empresa. Começou a trabalhar no segundo ano do curso e está nesta unidade desde 2012. “O nosso trabalho depende da produção, tenho colegas que estão perdendo os empregos. As regras têm mudado, há cada vez maiores exigências, mas o produto final não é pago no seu justo valor.”
O caso dos irmão Marques é só um exemplo entre centenas. “A suinocultura, que inclui desde os criadores aos que fazem rações, dá empregos diretos a cerca de 200 mil pessoas. Nos próximos seis meses, metade das empresas vão desaparecer”, avisa David Neves, vice-presidente da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS).
A crise começou em 2014, quando a Rússia impôs um embargo à importação de carne suína dos países da União Europeia. Perdeu-se assim um mercado que significava 25% da exportação, o que afundou um mercado largamente excedentário (a Europa produz 150% daquilo que consome de carne suína). Em Portugal, a produção nacional cobre apenas dois terços do consumo, mas a crise das exportações europeias fez o preço cair, tendência que se agravou a partir do final do verão de 2015. O custo de produção de carne suína anda pelos 1,45 euros por quilo. Os produtores recebem neste momento um valor de aproximadamente 1,08 euros. Os prejuízos acumulam-se e serão poucos os que poderão resistir por muito mais tempo. “Nós não lutamos para deixar de perder dinheiro. Percebemos que no mercado funciona a lei da oferta e da procura e lidamos bem com isso. Mas não aceitamos que os nossos colegas espanhóis, que têm custos semelhantes, vendam a 1,26 euros por quilo, que é o preço que as grandes superfícies comerciais portuguesas pagam, para depois esmagarem de tal maneira os preços aos produtores portugueses que não conseguimos sobreviver”, diz David Neves.
João Correia, produtor de Torres Vedras, porta-voz do gabinete de crise da suinicultura nacional, movimento criado pelos produtores, tem organizado diversas ações de protesto e sensibilização, desde a oferta de carne de porco à porta dos supermercados a ações de bloqueio a centros de distribuição. “Claramente, o protagonista principal deste jogo é a grande distribuição. Eles usam a carne suína como chamariz para os hipermercados, que semana após semana têm promoções com preços baixos. O que eles estão fazem é canibalismo comercial.” O movimento prevê mais protestos, mas não planeja ações como a deixar os animais na rua, que aconteceu em Lisboa em 1998. “Queremos continuar a ter a razão do nosso lado. Tenho apelado à calma, mas o desespero é cada vez maior e não sei se poderemos travar alguma iniciativa mais exaltada”, diz João Correia.
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