Estimativa de fontes do setor de energia é de que conta de março foi similar à de fevereiro, de R$ 4 bi.
Custo das térmicas já beira R$ 10 bilhões

O acionamento intensivo das usinas térmicas durante todo o mês de março gerou uma conta adicional de aproximadamente R$ 4 bilhões às distribuidoras de energia. O rombo financeiro, calculado por uma fonte ligada às distribuidoras, ficou próximo do custo verificado em fevereiro, por conta da operação ininterrupta de todo o parque térmico do país e do preço recorde cobrado por essas usinas para vender energia no mercado de curto prazo. Em fevereiro, o custo extra das térmicas ficou em cerca de R$ 4,2 bilhões. Em janeiro, quando o preço da energia do mercado livre ainda não havia batido no teto, o estrago foi de R$ 1,8 bilhão. Feitas as contas, conclui-se que o setor elétrico caminha para encerrar o primeiro trimestre de 2014 com um buraco de até R$ 10 bilhões, uma conta salgada, sobre a qual ainda não se sabe, em detalhes, como será quitada.
Durante todo o mês de março, o preço do megawatt-hora calculado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) manteve-se no valor máximo, de R$ 822,83, mesmo custo verificado em fevereiro. A situação atual é bem diferente da ocorrida no mesmo período do ano passado. Em fevereiro e março de 2013, o preço da energia no mercado de curto prazo foi de R$ 50,67 e R$ 127,97, respectivamente.
O país arca, neste momento, com duas grandes despesas. A primeira refere-se ao acionamento em si das térmicas, por conta dos baixos níveis dos reservatórios do Sudeste, região que concentra a maior parcela de geração de energia. A segunda despesa deve-se à chamada “exposição involuntária” das distribuidoras. No ano passado, elas tentaram comprar energia em um leilão que previa a oferta de geração já neste ano (A-1). As geradoras, no entanto, já imaginando que os preços do mercado livre estariam mais atrativos, simplesmente não compareceram e o governo só conseguiu contratar 40% do que queria. A situação se agravou ainda mais por conta de muitos projetos de geração que não saíram do papel. A combinação desses fatos é o que tem obrigado as distribuidoras a comprar, todo mês, entre 3,2 mil e 3,5 mil megawatts no mercado de curto prazo para honrar seus compromissos. Como elas não foram responsáveis por essa situação, cabe ao governo arranjar uma solução.
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No ano passado, foram injetados quase R$ 14 bilhões nas distribuidoras por meio do Tesouro, dos quais R$ 9,9 bilhões deverão ser repassados à tarifa da conta de luz e outros R$ 3,7 bilhões seriam a fundo perdido. Neste ano, a Fazenda já anunciou mais R$ 13 bilhões para suprir gastos do setor. Outros R$ 8 bilhões têm previsão de entrar na conta, por meio de empréstimos financeiros a serem contratados por meio da CCEE. Ontem, o governo publicou o decreto que estabelece a criação da “Conta-ACR”, que será administrada pela câmara.
Segundo Ricardo Savoia, diretor de regulação e gestão em energia da Thymos Energia Consultoria, se todos os aportes já feitos e anunciados pelo governo fossem repassados para a tarifa, a conta de luz teria de subir entre 28% e 30%. “Veja que a própria Cemig, por exemplo, já pediu um reajuste de 29,74% em sua tarifa”, comenta Savoia.
Apesar das complicações, o analista vice-presidente da Moody’s para a área de infraestrutura, José Soares, chama a atenção para os 5 mil megawatts médios de energia que serão devolvidos para a União a partir de 2015, por conta dos contratos de concessão que vencerão. Segundo o analista, esse movimento trará um alívio anual de R$ 3,5 bilhões a R$ 4 bilhões. Deste total, 1 mil MW entram na carteira das distribuidoras em janeiro e outros 4 mil MW em julho do ano que vem. Essa energia será repassada para as 63 empresas de distribuição do país por cerca de R$ 30 o MWh, valor bem mais barato do preço médio atual contratado pelas distribuidoras, que pagam em torno de R$ 110 pelo megawatt-hora.
Para Mariana Amim, assessora jurídica da Anace, uma das entidades do setor que representa consumidores livres da indústria e do comércio de grande porte, o momento é de apreensão. “É com muita tristeza que vemos tudo o que está acontecendo no setor, um planejamento que não deu certo. As decisões levaram a uma redução do custo de energia, mas isso era falso. A conta está chegando.”





















