“O Brasil hoje é interessante quando se olha para o mercado interno. Na exportação, os investimentos vão para a China, Índia e Turquia”, afirma presidente da AGCO.
Brasil perde terreno em máquinas agrícolas

O Brasil não é mais competitivo para exportar máquinas agrícolas e está fora do radar das fabricantes como plataforma internacional. A afirmação é do CEO global da montadora americana AGCO, Martin Richenhagen. Segundo ele, o câmbio valorizado e a elevação “exagerada” dos salários nos últimos anos comprometeram a capacidade do país de brigar por outros mercados.
“O Brasil hoje é interessante quando se olha para o mercado interno. Mas, quando se pensa em exportação, os investimentos vão para a China, Índia e Turquia, que têm uma posição de custo muito mais competitiva”, afirma Richenhagen. No início da década, lembra o executivo, a Massey Ferguson, principal marca da AGCO no Brasil, exportava mais da metade dos tratores produzidos no país, com picos de quase 70%. Em 2011, esse índice está em 30%.
De olho no potencial do mercado interno, mas também das exportações – sobretudo para o continente americano -, as grandes fabricantes do setor desativaram linhas em países desenvolvidos e investiram em fábricas no Brasil. A própria AGCO, em 2003, transferiu parte de sua produção realizada em Coventry, na Inglaterra, para Canoas, no Rio Grande do Sul.
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Com isso, as vendas totais do setor para fora saltaram de 5 mil unidades, no ano 2000, para mais de 30 mil em meados da década. Em 2011, porém, o Brasil deverá exportar pouco mais de 19 mil máquinas, repetindo o desempenho do ano passado, prevê a Anfavea, a associação que representa os fabricantes de veículos automotores.
Richenhagen voltou a dizer que suas apostas estão voltadas para a Ásia, país onde a AGCO tem feito investimentos importantes. Nos últimos meses, a companhia acertou a compra de 80% da chinesa Dafeng Machinery, que produz anualmente cerca de 8,5 mil colheitadeiras – mais do que toda a produção brasileira – e anunciou um aporte de US$ 300 milhões em uma nova fábrica de tratores.
“A China é o país onde mais vamos crescer daqui para frente”, diz Richenhagen. “Além de ser um grande mercado para pequenos tratores, de centenas de milhares de unidades, é um mercado em desenvolvimento para uma agricultura mais profissional, com tratores e colheitadeiras maiores e mais modernas”, justifica.
Para o executivo, a China representa uma grande ameaça às ambições brasileiras de fabricar equipamentos em grande escala para a África, “um mercado com grande potencial no médio prazo”. “Mesmo nos países vizinhos, os produtos brasileiros estão cada vez menos competitivos”, ressalta.
Richenhagen pondera que o Brasil é estratégico e que a empresa vai manter os investimentos no país, onde detém mais da metade das vendas de tratores por meio das marcas Massey e Valtra. Até meados de 2012, a companhia deve investir cerca de R$ 100 milhões na modernização de suas fábricas no país.
Além disso, a companhia está investindo em uma nova colheitadeira de cana-de-açúcar, com lançamento previsto para o fim de 2012, com o objetivo de elevar sua fatia – hoje, inferior a 20% – no mercado de colheitadeiras. A companhia não divulga seus números por país, mas a América do Sul representa 22% de suas vendas globais, que somaram US$ 4,2 bilhões no primeiro semestre.
Milton Rego, vice-presidente da Anfavea, diz que, apesar do mercado interno atraente, a indústria de máquinas não pode prescindir das exportações. “Para se ter dinamismo nessa indústria, é preciso um mercado interno relevante e uma exportação competitiva. Tanto que mantemos os embarques mesmo com margens muito apertadas e, às vezes, até negativas”, afirma. Segundo ele, o Brasil hoje é menos competitivo que os Estados Unidos. “Menos de 10 anos atrás, éramos competitivos em toda a América Latina. Hoje, só no Mercosul, por causa de todos os incentivos do bloco”.
Rego afirma ainda que as fábricas no Brasil estão operando com capacidade ociosa após a queda das vendas domésticas neste ano. Até agosto, as vendas do setor registraram uma retração superior a 9%, reflexo da perda de fôlego do programa Mais Alimentos. “Para o ano que vem podemos ter uma nova redução nas vendas, dependendo do cenário”, alerta.
O risco maior, avalia, é o país começar a importar máquinas asiáticas nos próximos anos. “Isso não acontece hoje porque os equipamentos usados nesses países ainda são muito diferentes dos nossos, mas a China, em particular, tem capital, mão de obra e logística para nos bater”.





















