Em artigo escrito por professor da FGV/EAESP comenta-se as previsões e o viés da memória de curto prazo. Acompanhe.
Brasil 2030
A credito ser muito interessante analisar as previsões sobre o Brasil, em particular as feitas aqui mesmo. Acho que padecemos do que os estudiosos chamam de viés da memória de curto prazo. Tendemos a projetar o futuro apenas com base no passado mais recente, esquecendo de tudo mais que possa influenciar nossa previsão.
Vejamos como exemplo as previsões mais recentes sobre o desempenho da economia brasileira para os próximos 20 anos. Todos falam em crescimento do PIB entre 4,5% e 5%. Isso significa que o PIB vai crescer 150% nesse período. Mas será que temos algum fundamento para crescer nessa velocidade? A resposta é simples: nas condições atuais, não.
Em primeiro lugar, temos a questão já tão debatida da infraestrutura. Nossos portos e aeroportos centrais operam acima da capacidade. E transporte ferroviário? As ferrovias foram desmanteladas, numa clara política de favorecimento do transporte rodoviário. Só que esquecemos de manter as estradas existentes e construir novas.
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Mas há mais empecilhos para o crescimento. Desde o início dos anos 80, quando foi criado o Ministério da Desburocratização, que lutamos contra esse entrave ao desenvolvimento. Mas ele é muito poderoso. Olhando os 40 maiores países do mundo, somos o mais burocrático, com mais de 100 dias necessários para abrir um negócio. O impacto disso sobre o empreendedorismo é brutal, e são os empreendedores que sustentam o crescimento de qualquer economia.
E a educação? Em campanhas eleitorais, ela é tema recorrente. Mas muito pouco de efetivo se faz. Ocupamos uma vergonhosa 88 ª posição no ranking da Unesco de qualidade da educação. Entre os maiores países do mundo, veremos que somos os lanterninhas. O interessante é que no ranking que mostra o percentual da população que tem nível superior estamos acima da Índia e da China. Mas na formação de profissionais que vão conduzir a inovação ficamos muito atrás.
A China forma 300 mil engenheiros por ano, a Índia, 200 mil . Nós, menos de 30 mil. Claro, podemos argumentar que a população deles é muito maior. Mas como justificar que a Coreia, com uma população que é um quarto da brasileira, forme três vezes mais engenheiros? Dos formados em cursos superiores no Brasil, apenas 5% são engenheiros. Na Coreia, são 25%. Parece que descobrimos um dos segredos deles.
E a corrupção? Ela é um entrave aos negócios. E aqui também temos uma posição muito desfavorável. Segundo a Transparência Internacional, dos 42 maiores países, somos o mais corrupto. Triste, mas verdadeiro. É verdade que China e Índia não são virgens vestais, mas estão sete e oito posições acima do Brasil.
Temos também uma elevada carga tributária. Mas o problema maior não está na carga em si, mas em três outros aspectos. O primeiro é que o sistema é complicado, gerando custos imensos para as empresas. O segundo, em parte consequência do primeiro, é o número imenso de empreendimentos informais no país. E se alguém não está pagando impostos, outro está pagando em dobro. E o terceiro é o pagamento em dobro. A população paga os impostos, mas tem que pagar novamente pelos serviços que em outros países são propiciados pelos tributos, como educação e saúde.
Essa carga tributária também traz outros problemas. Um deles é o custo elevado dos produtos no Brasil. É só comparar o que um estrangeiro paga por um automóvel com o que pagamos. E isso acaba não só onerando empresas e pessoas, mas, e principalmente, as exportações.
Falando nelas, uma rápida olhada nos números recentes mostra duas tendências: uma redução nas exportações e uma mudança na sua composição com um grande crescimento das commodities. As previsões dos países centrais sobre o BRIC falam em Brasil e Rússia fornecendo commodities para Índia e China, que serão os grande produtores de manufaturados. Claro, commodities não geram nem empregos nem valor agregado.
Podemos agora lembrar do crescimento dos últimos meses, baseado na expansão do crédito. Mas será ele o único pilar a sustentar essas projeções de 20 anos de crescimento? Não.
Esse artigo poderia acabar com as recomendações de praxe sobre a necessidade de investimentos em educação e planejamento de longo prazo. Mas não vai. Ele é simplesmente um alerta sobre um viés constante nas previsões e que nos leva a esquecer todas as outras variáveis envolvidas. O viés da memória de curto prazo.
William Eid Júnior é professor da FGV/EAESP e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV
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