Fonte CEPEA
Milho - Indicador Campinas (SP)R$ 70,63 / kg
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Soja - Indicador Porto de Paranaguá (PR)R$ 130,02 / kg
Suíno Carcaça - Regional Grande São Paulo (SP)R$ 10,08 / kg
Suíno - Estadual SPR$ 6,94 / kg
Suíno - Estadual MGR$ 6,76 / kg
Suíno - Estadual PRR$ 6,70 / kg
Suíno - Estadual SCR$ 6,63 / kg
Suíno - Estadual RSR$ 6,78 / kg
Ovo Branco - Regional Grande São Paulo (SP)R$ 178,01 / cx
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Ovo Vermelho - Regional Grande São Paulo (SP)R$ 200,90 / cx
Ovo Vermelho - Regional VermelhoR$ 210,75 / cx
Ovo Branco - Regional Bastos (SP)R$ 168,76 / cx
Ovo Vermelho - Regional Bastos (SP)R$ 194,93 / cx
Frango - Indicador SPR$ 7,05 / kg
Frango - Indicador SPR$ 7,09 / kg
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Trigo Atacado - Regional RSR$ 1.091,60 / t
Ovo Vermelho - Regional VermelhoR$ 204,60 / cx
Ovo Branco - Regional Santa Maria do Jetibá (ES)R$ 178,26 / cx
Ovo Branco - Regional Recife (PE)R$ 170,25 / cx
Ovo Vermelho - Regional Recife (PE)R$ 173,48 / cx
Entrevista

Crise passada a limpo: Leia a entrevista com o embaixador Rubens Ricupero

O embaixador Rubens Ricupero explica as características e as dimensões da crise nos países europeus e nos Estados Unidos. Uma crise que deve perdurar por alguns anos ainda. Fala sobre os impactos dela na economia brasileira e das questões que o País tem para resolver, como câmbio e taxa de juros.

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Por Humberto Luis Marques e Rodolfo Antunes, de São Paulo (SP)

A atual crise vivida na Europa deve se prolongar por mais alguns anos, impactando ainda outros mercados e países. Ela é uma continuidade do estouro da bolha imobiliária ocorrida nos Estados Unidos em 2007. Do tipo chamado de “grandes contrações”, ela gera períodos curtos de melhoria seguidos por novos reveses econômicos. A última crise deste tipo aconteceu no final da década de 1920. Ela culminou com a quebra da Bolsa de Nova York e os seus efeitos negativos se prolongaram por toda a década seguinte. Para o embaixador Rubens Ricupero, o mundo tem hoje um fator positivo em relação à crise daqueles anos: o crescimento chinês. “Naquela época não havia a alternativa da China, que hoje existe. A crise de 30 atingiu todo o mundo desenvolvido. Entre os que não eram desenvolvidos, não existia um crescimento importante como o dos chineses atualmente. É uma diferença para melhor”, afirma. Diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Ricupero traça um histórico e paralelo entre os dois momentos de crise, fala ainda sobre os impactos dela na economia brasileira e discute questões como câmbio e a taxa de juros, problemas que o País precisa resolver. Confira esta conversa na íntegra.

Avicultura Industrial – Quais pontos fundamentais podem explicar esta nova crise?
Rubens Ricupero – O fundamental é compreender que esta não é uma crise como as outras, as quais os economistas chamam de ciclo normal dos negócios. A que vivemos hoje pertence a uma categoria mais rara e perigosa, que vem sendo chamada de grandes contrações. A última deste tipo começou em 1929 e durou toda a década de 1930. A diferença existente entre as crises de ciclo dos negócios e as grandes contrações é que esta última em geral soma várias crises ao mesmo tempo. E quase sempre tem início com o estouro de uma bolha de investimento, responsável por valorizar demais um determinado ativo. Imóveis, ações, commodities ou todos juntos. Além de terem como origem o estouro de uma bolha – como foi o caso da grande crise da Bolsa de Nova York em 1929 -, elas estão acopladas a uma grande crise financeira e bancária, atingindo diretamente o sistema de crédito. Em geral, há processos prévios de endividamento muito grandes. Um endividamento do sistema financeiro que trabalha com um alto índice de alavancagem. Quer um exemplo? Teve um banco americano que quebrou agora por causa da crise europeia. Para cada dólar que eles tinham de capital, emprestavam de 35 a 40.

AI – Mas o que temos visto são governos praticamente quebrando.
Ricupero – É que especificamente neste caso, o endividamento se propagou para os governos. Eles tentaram salvar os bancos, que eram grandes demais para quebrar. Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa se criaram programas que aumentaram desmensuradamente os déficits e as dívidas governamentais. Portanto, houve uma espécie de transferência das dívidas dos bancos para os governos. Alguns que estavam com uma situação relativamente boa, caso de Espanha e Irlanda, de repente se viram extraordinariamente endividados. É o caso dos Estados Unidos, que agravou um déficit que já existia; causado principalmente pelas guerras do Iraque, Afeganistão, etc. Mas que se expandiu enormemente. E no caso desta crise hoje, além de bancos e governos, se tem o endividamento particular das famílias. E no caso americano, ele também é muito elevado. Estes três tipos de endividamento levam muito tempo para voltarem ao normal. É por isto que estas crises são prolongadas. Só um detalhe, esta descrição que estou fazendo não é minha. É da obra mais importante existente sobre estas crises, escrita pelo ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional, Kenneth Rogoff, em conjunto com Carmen Reinhart. É um livro fundamental. Em inglês se chama This time is different. Foi traduzido literalmente para o português: Desta vez é diferente.

AI – E é diferente desta vez?
Ricupero – Não. Eles fizeram um estudo sobre 800 anos de crises, desde as da idade média até as financeiras de hoje em dia. Sempre antes das crises, pessoas e governos dizem: desta vez é diferente. Não vai haver crise. E elas acabam acontecendo. Ocorre que sempre há um período de euforia, de crescimento. Parece que a economia já não é mais vulnerável; e é aí que começa. Neste estudo eles apontam que a de grandes contrações é a crise menos frequente. É a mais rara, tanto que a última foi há 80 anos, mas é a mais perniciosa. É a que dura mais tempo. Muita gente pensa que a quebra da Bolsa de Nova York se deu uniformemente. Não foi. A queda de 1929 provocou um primeiro impacto. Depois houve uma pequena recuperação para em seguida a crise se tornar muito grave em 1932. Curiosamente, o contágio na Europa se deu com a quebra de um grande banco vienense, e que acabou contaminando bancos alemães começando uma grave crise.

AI – E pode se dizer que é parecida com a atual?
Ricupero – Muito parecida. Também nos anos 30 havia momentos de recuperação, quando todos achavam que a crise tinha acabado. Só que ela voltava. Segundo os autores deste livro, que afirmam estarmos vivendo uma grande contração, a duração média destas crises é sete ou de oito anos. As mais otimistas. Ninguém sabe exatamente quanto tempo vai durar, mas ela já passou por várias fases. A crise de hoje, na verdade, não começa com a queda do Lehman Brothers em 2008, mas sim em agosto de 2007 com o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos. O momento em que os imóveis, depois de anos e anos de constante crescimento, passaram a não aumentar mais e a cair. A crise das hipotecas, das chamadas subprime. Ela atingiu as instituições bancárias e financeiras emissoras ou detentoras destas hipotecas. A crise então se propagou para os bancos europeus, os quais tinham comprado estas hipotecas, e se tornou mais aguda justamente naqueles países onde estão presentes as mesmas causas do ocorrido nos Estados Unidos. Inclusive uma bolha imobiliária, que é o caso tanto da Espanha quanto da Irlanda. Depois teve a queda do Lehman Brothers e a etapa mais recente, que é a da Europa. Quando a crise deixa de ser dos bancos e passa a ser dos governos.

AI – Não há luz no fim do túnel?
Ricupero – Não vemos a luz no fim do túnel porque a crise europeia esta em pleno desenvolvimento. Agora, há duas diferenças em relação aos anos 30. Naquela época não havia a alternativa da China, que hoje existe. A crise de 30 atingiu todo o mundo desenvolvido. Entre os que não eram desenvolvidos, não existia um crescimento importante como o dos chineses atualmente. É uma diferença para melhor. E uma segunda diferença para melhor, no caso do Brasil e da América Latina em geral, é que nós entramos na atual crise com uma situação de endividamento externo muito melhor. Temos hoje uma expansão muito sólida. Nos anos 30 o Brasil entrou na crise com uma dívida externa gravíssima. Logo depois da Revolução de 32, o País teve que fazer várias moratórias parciais e em novembro de 37 suspendeu totalmente os pagamentos. Hoje, a situação é diferente. Agora, esta crise mundial, não tenha dúvidas, sobretudo nos três grandes centros de economia avançada: Estados Unidos, Europa e Japão, ela será de longa duração.

AI – Esta desaceleração da economia mundial já aconteceria naturalmente ou ela é um resultado direto da crise?
Ricupero – É resultado direto da crise. Desde 2008 a economia destes países está praticamente parada; e em alguns anos até caiu. Em 2008, 2009… Está caindo até em relação a quedas anteriores.

AI – Medidas de austeridade fiscal estão sendo implementadas na Europa, o que envolve cortes de benefícios sociais, de investimentos e até maior arrecadação de impostos. São estas as soluções?
Ricupero – É um destes dilemas que o mundo enfrenta hoje. Porque a economia nestes países, sobretudo nos mais afetados – Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e agora Itália – precisa crescer para reduzir o endividamento. Como se mede um endividamento? É o total da dívida comparado ao tamanho da economia. Então, tem que mexer nos dois lados. Reduzir a dívida e aumentar o tamanho da economia. Acontece que para reduzir a dívida – que é cortando os investimentos do governo – normalmente em vez de crescer, a economia se contrai. O ideal no caso da Grécia e destes países todos, seria uma situação em que pudessem receber uma garantia financeira para que de fato voltassem a crescer. Só que não existe um mecanismo deste tipo hoje em dia, instalado para desempenhar este papel. Como precisam consolidar o déficit e a dívida em médio prazo, eles têm que reduzir. E são obrigados a começar a cortar despesas. O ideal é que este processo – que em economia se chama desalavancagem da dívida – seja a longo e médio prazo. Em um primeiro momento ela provoca estes efeitos de retração, e não está muito claro hoje se estas economias conseguirão voltar a crescer.

AI – Por que o senhor fala isto?
Ricupero – A Grécia tem obtido resultados muito negativos. A Inglaterra, que cortou muito também, não está crescendo e aumentou o desemprego. A Itália há muito tempo está praticamente estagnada. Estamos em um momento em que nem todas as medidas necessárias foram tomadas. Algumas foram, mas não todas. Hoje, o principal fator de turbulência dos mercados mundiais é a crescente especulação sobre os juros da dívida da Itália e Espanha; dívidas muito maiores do que a grega. A Grécia tem uma dívida de mais ou menos US$ 400 milhões. A dívida da Itália é de US$ 1,900 trilhão. É cinco vezes maior do que a da Grécia. No caso grego ainda é possível cogitar um socorro do Fundo Monetário Internacional, dos europeus… No caso da Itália, não. Ninguém tem tamanho suficiente para socorrê-los porque o país é uma das grandes economias mundiais.

AI – O que vai acontecer, então?
Ricupero – Os governos têm títulos de longo prazo, de dez anos. Os títulos de empréstimo do governo alemão pagam juros de 1,77%. Os da França o dobro disto. Os da Espanha estão pagando 6% e os títulos italianos 7%. Agora, a dívida da Itália não aumentou. Nos últimos 20 anos ela está no mesmo patamar. Não ocorreu nenhum fato novo no país, a não ser a deterioração das expectativas políticas e a falta de crescimento. O caso da dívida italiana é diferente da irlandesa, que teve de se expandir devido aos bancos. A Itália não teve problemas bancários, mas estava com uma dívida alta: 120% do PIB. Ela é maior do que o PIB, mas não aumenta há 20 anos. Agora, também não cresce a economia. Como houve a crise política, há toda esta especulação. Como se poderia resolver isto? Há uma fórmula, mas até agora os países não a adotaram.

AI – Qual seria esta fórmula?
Ricupero – O Banco Central Europeu declarar que não considera razoável que se pague pelos títulos de dez anos da Itália e/ou Espanha uma diferença em relação ao que se paga pelos da Alemanha, maior do que 200 pontos em termos de juros. E afirmar: qualquer coisa acima disto, eu compro; e se ninguém quiser eu compro por 200. O Banco Central Europeu poderia bancar ainda dizendo que se for preciso emitir, ele passa a emitir mais moeda. Por exemplo, a Itália necessita agora em novembro de 30 bilhões de euros; em dezembro mais uns vinte e poucos bilhões. Caso o mercado queira emprestar sete bilhões, o Banco Central diz que não aceita e afirma que quem irá emprestar aos italianos, só que com 200 pontos, é ele.

AI – E por que não fazem isto?
Ricupero – Porque a Alemanha, que tem uma memória da inflação dos anos 20, acredita que para fazer isto, o Banco Central Europeu irá inflacionar a Europa. Isto porque ele precisa estar disposto a apertar o botão da máquina de imprimir dinheiro o quanto for, para quebrar todos os especuladores. E os alemães não querem porque têm medo. Mesmo dentro do Banco Central Europeu eles começaram a comprar os títulos da dívida e depois reduziram suas compras. O que estou falando é para mostrar o seguinte: a estratégia é muito vacilante. Não há uma estratégia que seja decisiva. É por isto é que fica esta história de um dia parece melhor, outro pior. Enquanto não houver esta decisão, vamos continuar deste jeito. E é difícil prever quando porque depende basicamente da Alemanha. Os alemães evidentemente vão ter de bancar o custo e eles não acham muita graça em bancar o custo dos outros.

AI – Além disto, não tem que haver uma reforma estrutural?
Ricupero – A reforma estrutural mais necessária é muito difícil porque tem a ver com a própria natureza da moeda comum. O euro é o primeiro caso na história de uma moeda de vários países, sem ter unidade política. A moeda é sempre um sinal de unidade política, tanto que os ingleses até o século 18 chamavam a sua moeda de sovereign. Soberana. Acontece que no caso do euro foi feita uma unificação da moeda, portanto a taxa de juros passa a ser a mesma para todos. Você sabe que a União Europeia tem 27 países, mas a área do euro só tem 17. Nem todos entraram. Alguns não entraram porque não têm condições. Outros não confiam muito no euro, caso da Inglaterra e Suécia. Os que entraram não têm mais autonomia monetária. Os Bancos Centrais da Itália ou França não podem mais fixar a taxa de juros nem de câmbio porque dependem do Banco Central Europeu. Agora, se tem a política monetária e a política fiscal. A fiscal é o orçamento. Quanto se gasta, se deve e se arrecada. Isto não é unificado. Cada país europeu tem o seu orçamento e impostos; tem seu sistema de aposentadoria.

AI – Mas como isto impacta na moeda?
Ricupero – A rigor, para se ter a mesma moeda tudo tinha que ser igual, como se fosse um Brasil. No Brasil, não se pode se aposentar no Piauí com uma idade diferente da de São Paulo. Na Europa pode. Então, eles precisariam unificar de uma forma tal, que os orçamentos pudessem ser votados em cada país, mas sabendo que o que conta realmente é o do governo central. Isto significaria que gregos, italianos, espanhóis e portugueses precisariam viver com a mesma disciplina de holandeses, alemães e dinamarqueses. O que é difícil porque os povos são muito diferentes. Enquanto os do norte são mais austeros e têm uma cultura do trabalho, os do sul são mais parecidos conosco, têm a cultura do prazer sem uma disciplina muito rígida. Esta é a dificuldade, mas eles vão ter que chegar a isto. Provavelmente depois que seja ultrapassada esta fase mais difícil. Eles vão adotar isto e alguns irão aceitar outros não. Agora, como irão fazer eu não sei. Não é fácil.

AI – O senhor acredita que isto pode culminar com uma ruptura da União Europeia?
Ricupero – Não. É uma evolução, embora possa ser que em determinado momento ocorra um certo enfraquecimento. Mas não acredito em ruptura no sentido de voltar a estaca zero, de como eram em 1950. Eles criaram a União Europeia para superar o período de guerras mundiais, que começaram sempre por causa da França, Alemanha, etc. Eles não querem voltar a isto. Agora, é um desafio muito grande e é preciso ver como eles irão responder. E é por isto que a incerteza mundial vai continuar. Porque este é apenas um problema. Todos estão falando da Europa, mas ninguém se dá conta que vai bater a porta um outro problema, que são os Estados Unidos. Você se lembra quando as agências de crédito rebaixaram a nota da dívida americana? Eles fizeram um acordo, um primeiro corte de quase um trilhão de dólares. E decidiram que uma supercomissão do Congresso teria de se reunir para produzir cortes adicionais de um trilhão e meio de dólares. E tudo indica que eles não vão conseguir uma conciliação porque os republicanos querem uma coisa e os democratas outra. Não vai demorar muito e a crise vai passar da Europa para os Estados Unidos.

AI – E no Brasil, quais os impactos que esta crise vai trazer para a economia brasileira?
Ricupero – Já está trazendo. Em 2008, quando houve a queda do Lehman Brothers, o Brasil sofreu um grande impacto. Foi dito que foi uma marolinha, mas não é verdade. A queda da indústria foi brutal no final de 2008 e começo de 2009. Não apareceu muito porque como nossa estatística coloca o ano todo, e não os trimestres, isto acabou diluído. Em 2009 começou a haver uma recuperação no final, mas a queda da produção industrial no Brasil foi muito grande. A mais gigantesca entre os países emergentes. Depois nós nos recuperamos no final de 2009, começo de 2010. Só que começou a haver um primeiro efeito, que foi a pressão inflacionária. Já tínhamos fatores brasileiros, mas passou a existir um efeito externo, que vinha das commodities, que se valorizaram muito de 2010 até este ano.

AI – O Brasil tem hoje a China como o principal destino de suas exportações. O País está preparado para uma eventual redução no crescimento da economia chinesa?
Ricupero – Caso possamos compensar a China com outros mercados, não vejo problema. Mas, se não houver uma compensação é claro que isto pode nos afetar. Se bem que aí é preciso fazer uma distinção muito cuidadosa. Quando se fala sobre o efeito que a China tem sobre nós, se costuma adotar um discurso como se todas as commodities compradas pelos chineses fossem ter o mesmo comportamento. E isto não é verdade. As commodities variam muito. Um caso interessante é o do café. É a commodity mais tradicional do Brasil. No entanto, o café não se beneficiou deste movimento recente. O preço do café melhorou, mas por outras razões. Houve queda de produção por problemas climáticos e o Brasil aumentou muito o seu consumo. Mas, todos sabem, chineses e indianos não bebem café. É uma commodity que não pode ser colocada no mesmo plano da carne de frango ou da soja, porque o comportamento é diferente. Em anos normais – sem queda de produção – o café só aumenta de maneira vegetativa. É muito pouco. Estou dizendo isto porque as pessoas acham que se a China desacelerar, todas as commodities vão desacelerar no mesmo nível.

AI – Mas, como seria este processo?
Ricupero – É perfeitamente possível imaginar que certos metais, como o minério de ferro, caiam mais porque parte do que os chineses compram é para a elaboração de produtos que serão vendidos para a Europa e Estados Unidos. Se a China tiver menos mercado, vai comprar menos minério de ferro. Só que uma boa parte é ela quem precisa. A China está em pleno processo de urbanização. O Brasil tem hoje 86% de sua população vivendo em cidades. A China só tem 50% e a Índia 33%. Eles terão décadas e décadas de crescimento das cidades pela vinda dos camponeses para viver nelas. O que acontece quando centenas e milhares de camponeses se mudam para áreas urbanas? As cidades precisam criar infraestrutura. Elas vão precisar de cimento, ferro, aço, cobre para eletrificação e comida. Antes, eles mesmos produziam a sua comida no campo, agora não mais. Vão se tornar operários urbanos. Veja, a China tem um lado da economia que é o seu comércio exterior e o outro que é mercado interno. É perfeitamente possível que os chineses façam como em 2008. Quando perceberam que os mercados americano e europeu estavam fraquejando, eles fortaleceram o seu mercado interno.

AI – Mas, isto não seria difícil de fazer?
Ricupero – Não teriam muitos problemas porque eles têm muita capacidade de investimento. Os chineses investem 45-50% de tudo o que produzem. O Brasil investe 17%. A China pode perfeitamente utilizar o mercado interno e continuar a crescer. Não com esta rapidez porque uma parte disto se relaciona ao seu comércio exterior. Eu sou da opinião de que commodities como carne de frango, de suíno, bovina, todo o complexo soja, algodão, açúcar, etc. vai ter uma demanda que se manterá forte devido a um fenômeno: a passagem da população mundial de sete bilhões de pessoas para nove bilhões em 2050. Crescimento que vai se dar basicamente na Ásia e na África. Na América, não.

AI – Por que não no continente americano?
Ricupero – Na América o único país que continuará a ter a sua população em crescimento são os Estados Unidos. Todo mundo pensa que o Brasil é um país que está crescendo, mas não está. A sua população cresce apenas vegetativamente. Para uma população crescer é preciso que o número de filhos por mulher seja acima de 2,1-2,2. Porque acima disto significa que cada casal vai deixar atrás de si quando morrer um outro casal. Como tem sempre mortes, acidentes o índice tem que ser sempre acima de dois. Hoje, a taxa de fecundidade no Brasil está em 1,8. E já foi de 6,2. Ela está abaixo do nível de reposição. Em São Paulo e em cidades do interior ela está em 1,5. Isto significa que se algo não mudar, a partir de um pico que atingiremos em algumas décadas, a população brasileira começará a cair ao invés de crescer. Ao contrário da África e Ásia, que vão crescer muito. Só para se ter uma ideia, 21% do crescimento da população mundial virá só da Índia. Em uma semana a Índia cresce em população mais do que a Europa Ocidental em um ano. Índia, China, Paquistão, Bangladesh, Indonésia, Nigéria, Congo, Etiópia. São estes os países que irão crescer muito. O que significa maior demanda por alimentos e por infraestrutura nas cidades. Então, podemos ter certeza que haverá demanda. É possível que haja alguma queda nos preços das commodities, porque hoje parte de seus valores são resultado da especulação dos fundos financeiros. Pode existir um ajuste, mas o fundamental é que a demanda por alimentos vai continuar crescendo.

AI – A decisão do Brasil de se voltar comercialmente para os países africanos e asiáticos foi uma decisão acertada, então?
Ricupero – Foi correta. Isto não significa abandonar os outros. Agora mesmo estamos aumentando as exportações para os Estados Unidos. A nossa política de comércio tem que ser em todas as direções possíveis. Não há porque escolher um mercado em detrimento de outro. É verdade que temos alguns segmentos cujo potencial é muito grande, mas que o Brasil quase não aparece. Nosso País tem um potencial imenso na área de florestas, mas curiosamente não aparece em nenhuma estatística entre os dez primeiros exportadores de produtos florestais, a não ser em celulose. No entanto, é o detentor da maior floresta tropical do mundo; poderia ter florestas plantadas, tem uma floresta de eucalipto enorme. O Brasil tem um potencial gigantesco nesta área, mas que nem arranhamos ainda. Falta percepção, política, investimento e mecanismo de estímulo. Há muita terra degradada que poderiam ser reflorestadas, mas é necessário dinheiro.

AI – Li um artigo no qual o senhor afirma que o Brasil deveria proteger um pouco mais o seu mercado interno, inclusive promovendo o que chama de “desglobalização temporária”. Como se daria isto?
Ricupero – Isto já está acontecendo e continuará a acontecer. A Argentina já deu início a este processo há algum tempo. É uma proteção seletiva. Não se pode produzir tudo. Não se pode imaginar o Brasil com aquela ideia do passado de ele ser uma espécie de autarquia. Alguns setores serão mais importantes do que outros. Isto vai depender de dois fatores: a própria capacidade de o setor mostrar vitalidade e merecer ajuda e do desejo do País em escolher algumas áreas estratégicas. Por exemplo, para a exploração do pré-sal a Petrobras quer desenvolver – nem que parcialmente – a capacidade de produzir plataformas, escavadeiras, robôs e todas aquelas técnicas de exploração. O Brasil tem condições de fazer porque tem o petróleo. Em outras áreas não há como fazer isto. O País até hoje não conseguiu produzir seus próprios chips em eletrônica. Possivelmente já perdemos esta oportunidade. Em produtos farmacêuticos também. O Brasil poderia ter feito isto alguns anos atrás, mas não desenvolveu sua capacidade de produzir moléculas próprias. Esta proteção já está havendo em várias áreas. Se não fosse a Petrobras, ninguém aqui iria produzir plataformas que custam duas vezes mais do que na Coreia do Sul.

AI – Nesta linha, o senhor também tem comentado que o atual câmbio anula as tarifas negociadas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio. Além disto, ele atuaria como um subsídio indireto e de estímulo às importações, sobretudo chinesas. Por que ocorre isto e qual o seu impacto no médio e longo prazo para a econômica brasileira?
Ricupero – Esta é a justificativa principal do que você me perguntou antes. Por que eu falo em desglobalização seletiva? Porque o problema do câmbio cria uma desvantagem estrutural que leva o País a ter de procurar outros mecanismos para correção. Atualmente as pessoas ficaram mais aliviadas porque o câmbio brasileiro já não parece estar caindo abaixo de R$ 1,50, como parecia algum tempo atrás. Só que se criou outro problema, que é a volatilidade excessiva. O câmbio aqui enlouqueceu. Tem horas em que parece que ele está caindo abaixo de R$ 1,60 e em outro momento que chegará a R$ 1,80. Não há possibilidade de se ter uma indústria dirigida ao comércio exterior com tal incerteza. Este é um problema não resolvido. Um dos dois ou três desafios maiores que este governo tem.

AI – Quais seriam os outros?
Ricupero – Um é este. Não ter uma política cambial definitiva. O governo está fazendo várias coisas, mas os resultados são parciais. Não são condizentes com o discurso de que há um arsenal pronto para equacionar o problema do câmbio. Esta é uma questão séria e que vai afetar toda a economia. Mesmo em setores nos quais o Brasil possui vantagem comparativa, como o caso da soja e do frango, quando o câmbio fica adverso, eles também perdem. Os custos sobem e o câmbio não reflete isto. Ao contrário, ele pune o produtor. Quando há uma vantagem comparativa muito grande, ela absorve um pouco esta diferença. Até hoje o setor de commodities tem absorvido um pouco deste dano gerado pelo câmbio porque ele se beneficiou da valorização de preços internacionais devido à China. É o caso do minério de ferro que teve reajustes enormes. O câmbio não afeta aqui porque ao mesmo tempo em que perde, ele ganha com o preço melhor. No momento em que não houver mais este aumento de preço, o câmbio vai começar a pressionar. Outro problema sério na economia brasileira é o investimento muito baixo, que neste ano parece estar caindo novamente. É por isto que eu acho que a economia brasileira vai ter um problema complicado nestes próximos meses porque a pressão inflacionária irá crescer.

AI – E no setor industrial. A questão do câmbio não o leva a uma diminuição?
Ricupero – A indústria estando desfavorecida pelo câmbio está se transformando em uma importadora de produtos chineses, na sua própria área. A indústria não está crescendo. Quando se tem um déficit comercial ou déficit em outras correntes, a economia sofre um efeito de redução de crescimento. Este crescimento, tanto de emprego quanto da produção, está ocorrendo na China e não aqui. Nós estamos importando e vivendo uma situação muito paradoxal. Está acontecendo aquilo que previ há muito tempo nos meus artigos. Um modelo de crescimento que depende exclusivamente do consumo se esgota rapidamente. E o modelo brasileiro está chegando a este ponto. O consumo aqui está forte. A demanda continua porque o mercado de trabalho ainda é um mercado de pleno emprego. Quase todo mundo está empregado, os aumentos salariais têm sido acima da inflação. No próximo ano o salário mínimo será reajustado em 14%. Tudo isto explica o fato de a demanda seguir forte. Só que esta demanda não está estimulando a produção interna, sobretudo da indústria. É um sinal claro de que não está havendo investimento. Estamos tendo o pior de dois mundos, que é aumento da inflação com baixo crescimento da produção. E eu não estou vendo soluções por parte do governo, neste momento. Agora resolveram afrouxar o crédito, mas isto não é problema porque o consumo já está aquecido. O que eles têm que ver é a questão da produção. Não estou dizendo que será uma catástrofe, mas não é um futuro muito tranquilo. Uma economia que só investe 17% não pode aspirar crescer 5%, como o Mantega [Guido Mantega, ministro da Fazenda] diz. Ela vai crescer pouco.

AI – Falando de pouco crescimento. A recessão europeia não vai atingir os países emergentes?
Ricupero – Não no mesmo nível deles. No Brasil já há uma desaceleração na economia e creio que na Ásia também. Uma parte disto é real; outra é psicológica. Os empresários veem que a situação está grave e começam a produzir e investir menos. É algo que já está acontecendo, mas não no mesmo nível deles. Até porque não temos os mesmos problemas que eles. Não temos bolha imobiliária, ainda. Não temos estouro de banco ou endividamento excessivo do País.

AI – Pode haver um esfriamento no preço das commodities devido a esta recessão?
Ricupero – Ninguém tem os números para mostrar o quanto do valor de cada commodity vem da demanda, o quanto da especulação, do aumento dos insumos, da desvalorização do dólar. Ninguém tem esta conta. Eu acredito que para cada commodity existem vários fatores que pesam. Os de desaceleração vão reduzir a valorização delas. Portanto, haverá um esfriamento, mas não um colapso. Colapso só se todos os fatores desaparecessem. Não vejo isto em relação ao principal, que é o consumo. Demanda é o fator mais real, mas podem existir outros. A questão do dólar, dos fundos financeiros, do menor crescimento dos países. Ninguém pode saber exatamente como isto vai se manifestar, até porque há variáveis que são imprevisíveis. No caso de algumas commodities, como o milho e soja, há uma forte dependência do fator climático. Nos últimos anos se tem uma frequência cada vez maior de fenômenos climáticos anormais. Se de repente ocorre um fenômeno climático que afete a produção de grãos, por consequência impacta na produção de frango, que os tem como base alimentar. Então, pode haver valorização. Do mesmo modo ao contrário, um excesso de produção pode derrubar os preços dos grãos, reduzindo os custos da produção de carne. São variáveis impossíveis de se prever. Não temos ainda esta sofisticação em previsões a este ponto.

AI – O senhor acredita, como dizem alguns economistas, que antes de melhorar irá piorar bastante a situação econômica?
Ricupero – Isto é simplificar um pouco. Em alguns países industrializados se terá um período ainda muito difícil porque os problemas ainda estão se desenvolvendo e faltam remédios eficazes. Isto não quer dizer que o restante do mundo será atingido como eles o foram. Aqui no Brasil seremos afetados em certa medida, mas temos problemas que são nossos. A baixa taxa de investimento brasileira nada tem a ver com este problema no mundo. O câmbio complicado também não é resultado desta crise. Se recuarmos uma década, veremos que estes problemas já estavam presentes. Eles são nossos e se o Brasil não souber resolvê-los – e enfrentarmos um momento mais difícil de crescimento – não poderemos responsabilizar a crise. Ela é um fator adicional. Em partes, o governo até a está usando para resolver algumas coisas. É óbvio que uma das explicações do baixo investimento é o custo do capital. A taxa de juros que está lá em cima. O governo está aproveitando o fato de não haver pressão inflacionária de fora para reduzir a taxa de juros. Isto é uma coisa boa, só que não basta apenas. Vai precisar de outras coisas. Por exemplo, não se está diminuindo os impostos, que também é um problema. Não está melhorando as estradas. Ele teria que tocar nos juros, no câmbio, no custo tributário, no custo Brasil, no custo da enorme burocracia. Não estão fazendo certas reformas que poderiam tornar o mercado de trabalho mais flexível, reduzir esta carga toda de corporativismo pela qual se tem de pagar impostos para sindicatos. Não estão fazendo isto. Por quê? Porque não convêm pelo apoio político que o governo tem. Só que isto nada tem a ver com a crise externa. É um problema nosso.

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  • Suíno - Estadual
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    R$ 6,70
    kg
  • Suíno - Estadual
    SC
    R$ 6,63
    kg
  • Suíno - Estadual
    RS
    R$ 6,78
    kg
  • Ovo Branco - Regional
    Grande São Paulo (SP)
    R$ 178,01
    cx
  • Ovo Branco - Regional
    Branco
    R$ 188,16
    cx
  • Ovo Vermelho - Regional
    Grande São Paulo (SP)
    R$ 200,90
    cx
  • Ovo Vermelho - Regional
    Vermelho
    R$ 210,75
    cx
  • Ovo Branco - Regional
    Bastos (SP)
    R$ 168,76
    cx
  • Ovo Vermelho - Regional
    Bastos (SP)
    R$ 194,93
    cx
  • Frango - Indicador
    SP
    R$ 7,05
    kg
  • Frango - Indicador
    SP
    R$ 7,09
    kg
  • Trigo Atacado - Regional
    PR
    R$ 1.209,02
    t
  • Trigo Atacado - Regional
    RS
    R$ 1.091,60
    t
  • Ovo Vermelho - Regional
    Vermelho
    R$ 204,60
    cx
  • Ovo Branco - Regional
    Santa Maria do Jetibá (ES)
    R$ 178,26
    cx
  • Ovo Branco - Regional
    Recife (PE)
    R$ 170,25
    cx
  • Ovo Vermelho - Regional
    Recife (PE)
    R$ 173,48
    cx

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