Mais de 8 mil manifestantes e cerca de 500 tratores ocupam a capital europeia em meio ao debate sobre a PAC, o orçamento pós-2027 e o comércio agrícola internacional
Bruxelas volta a ser palco de protestos contra o Acordo Mercosul–União Europeia

Bruxelas, capital da Bélgica e sede da União Europeia, volta ao centro das atenções do agronegócio global. Nesta quinta-feira (18), a cidade é novamente palco de manifestações contra o Acordo Mercosul–União Europeia, reunindo mais de 8 mil pessoas e ao menos 500 tratores nas ruas do chamado Quarteirão Norte.
Mobilização agrícola pressiona o centro político europeu
O protesto terá início no fim da manhã, com um cortejo que percorre o pequeno anel viário de Bruxelas, passando pela Rue de la Loi, no quarteirão europeu, seguindo pela Rue de Trêves até a Place du Luxembourg. No local, nas proximidades do Parlamento Europeu, representantes de organizações agrícolas devem se pronunciar a partir das 14h. Aproximadamente 40 entidades agrícolas europeias participam da mobilização, incluindo delegações da Valônia, como a Fédération Wallonne de l’Agriculture (FWA) e a Fédération des Jeunes Agriculteurs (FJA).
Segundo Jogi Humberto Oshiai, CBO da Melo Advogados, M4 Capital e diretor da Oshiai Consultoria e Assessoria Ltda, que acompanha o movimento diretamente de Bruxelas, a presença massiva de tratores reforça uma tradição histórica de protestos agrícolas na capital europeia e evidencia o grau de insatisfação do setor diante das decisões estruturais em discussão na União Europeia.
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Tratores simbolizam resistência do setor rural
Desde as grandes reformas da Política Agrícola Comum (PAC) nos anos 1990, passando pela Agenda 2000, pelas mudanças de 2013 e pelo atual quadro financeiro 2021–2027, agricultores europeus recorrem às ruas sempre que decisões estratégicas entram em pauta. Cortes orçamentários, aumento das exigências regulatórias e abertura comercial considerada desequilibrada estão entre as principais preocupações do setor.
PAC e orçamento pós-2027 elevam a tensão
A manifestação ocorre no mesmo dia em que os chefes de Estado e de governo da União Europeia se reúnem em cúpula para discutir o próximo quadro financeiro plurianual. De acordo com Jogi Humberto Oshiai, os agricultores temem uma redução significativa dos recursos da PAC após 2027, em um cenário já pressionado por aumento dos custos de produção, volatilidade dos preços agrícolas, impactos das mudanças climáticas e exigências crescentes relacionadas ao Pacto Verde Europeu.
Acordo Mercosul–UE amplia resistência no campo
Outro ponto central da mobilização é a forte oposição ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Conforme destaca Oshiai, para muitos produtores europeus o tratado representa uma ameaça direta, ao expor o setor à concorrência de países com padrões ambientais e sociais percebidos como menos rigorosos, o que amplia a pressão sobre a renda e a sustentabilidade da produção agrícola local.
Impactos políticos e reflexos para o agro brasileiro
No curto prazo, a mobilização tende a ter efeito político simbólico, porém relevante. A pressão pode reforçar a cautela de diversos Estados-Membros nas negociações orçamentárias e levar a Comissão Europeia a discutir mecanismos de compensação, transição ou salvaguardas comerciais. No caso do Mercosul, a contestação agrícola pode fortalecer a defesa de cláusulas ambientais mais rígidas ou até o adiamento da ratificação do acordo.
Para o agro brasileiro, o tema exige atenção redobrada. “Em um momento em que o Brasil enfrenta desafios internos relevantes, não é possível ficar de braços cruzados diante de um debate que impacta diretamente competitividade, acesso a mercados e o futuro das exportações”, avalia Jogi Humberto Oshiai, diretamente de Bruxelas.


















