Entenda como a safra recorde de soja e a geopolítica impactaram o mercado de farelo e óleo de soja no Brasil em 2025
Farelo e óleo de soja: safra recorde, geopolítica e biocombustíveis moldam o mercado no Anuário Avicultura Industrial de 2025

O mercado brasileiro de farelo e óleo de soja atravessou 2025 em um ambiente considerado atípico, marcado pela combinação entre safra recorde e mudanças nos fluxos globais de comércio provocadas pela geopolítica. A produção nacional foi estimada em 171,8 milhões de toneladas, volume significativamente superior às 152,3 milhões registradas em 2024.
Mesmo com o expressivo aumento da oferta, o mercado interno não enfrentou uma pressão baixista intensa. Um dos fatores decisivos foi a deterioração da relação comercial entre os Estados Unidos e a China, que levou o país asiático a priorizar fornecedores sul-americanos. Nesse cenário, o Brasil e a Argentina ampliaram sua participação nas compras chinesas, sustentando os preços da soja e de seus derivados ao longo do ano.
Outro elemento relevante foi o aumento do processamento doméstico. O esmagamento brasileiro deve encerrar 2025 próximo de 58,5 milhões de toneladas, crescimento de aproximadamente 7% em relação às 54,6 milhões registradas no ciclo anterior. A maior produção de derivados pressionou principalmente o mercado de farelo durante boa parte do ano e limitou a valorização do óleo de soja em um ambiente de demanda mais moderada.
Leia também no Agrimídia:
- •Consumo de ovos, mercado de grãos e influenza aviária marcam o primeiro dia do Congresso APA 2026
- •Exportações brasileiras de ovos crescem mais de 16% em fevereiro e superam 2,9 mil toneladas
- •Auditoria da União Europeia identifica falhas sanitárias e de rastreabilidade em frigoríficos chineses de carne de aves
- •Produção de ração animal na França cresce 1,1% em 2025 e avicultura mantém liderança no consumo
Regulamentação europeia impactou preços do farelo
No caso do farelo de soja, um dos principais fatores de volatilidade foi o debate em torno da Regulamentação Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, conhecida como EUDR – Regulation on Deforestation-free Products.
A possibilidade de endurecimento das regras de rastreabilidade pela União Europeia a partir de 2026 provocou uma corrida antecipada de compras. Esse movimento elevou rapidamente os contratos negociados na Chicago Board of Trade (CBOT), que saíram de níveis inferiores a US$ 300 por tonelada — os menores em mais de uma década — para patamares acima de US$ 330 em poucas semanas.
O reflexo foi imediato no Brasil, fortalecendo a paridade de exportação e elevando as cotações internas entre outubro e o início de dezembro. Contudo, o impulso perdeu força após a sinalização de que a regulamentação europeia deverá ser adiada para dezembro de 2026, reduzindo a urgência das compras antecipadas.
Mesmo assim, a firmeza do mercado doméstico foi reforçada pela combinação entre demanda externa ativa e menor disponibilidade sazonal durante a entressafra. Os preços médios do farelo nas principais praças brasileiras iniciaram o ano próximos de R$ 1.968 por tonelada, recuaram para cerca de R$ 1.538 em setembro e voltaram a se aproximar de R$ 1.700 na primeira semana de dezembro.
Biodiesel influenciou a volatilidade do óleo de soja
O mercado de óleo de soja também apresentou forte volatilidade ao longo de 2025, porém influenciado principalmente pelo setor de biocombustíveis.
A indefinição em torno do cronograma da mistura obrigatória de biodiesel no Brasil manteve o mercado enfraquecido no primeiro semestre. O adiamento do B15 gerou incertezas e reduziu o ritmo de compras por parte das usinas.
O cenário mudou apenas em 25 de junho, quando foi confirmada a adoção da mistura obrigatória de 15% de biodiesel no diesel (B15) a partir de agosto. O anúncio impulsionou rapidamente os preços internos, que passaram de uma média de R$ 6.064 por tonelada em junho para cerca de R$ 7.050 em outubro.
No entanto, no último bimestre do ano o movimento perdeu força. O setor de biodiesel reduziu o ritmo de aquisições, enquanto a oferta doméstica permaneceu elevada devido ao maior esmagamento. Com isso, os preços voltaram a recuar, aproximando-se de R$ 6.580 por tonelada em dezembro.
Mercado internacional também limitou a valorização do óleo
No ambiente externo, o óleo de soja enfrentou dificuldades adicionais para sustentar altas. Entre os principais fatores estiveram a volatilidade das políticas de biocombustíveis nos Estados Unidos, a queda dos preços do petróleo e a recuperação da oferta global.
O mercado permaneceu sensível às discussões sobre o Renewable Fuel Standard (RFS), programa que define as metas de mistura de biocombustíveis no país norte-americano. Alterações nas metas ou concessões de isenções a refinarias de menor porte influenciaram diretamente as expectativas do mercado e contribuíram para a instabilidade das cotações em Chicago.
Safra maior pode pressionar preços em 2026
Para 2026, os fundamentos do mercado indicam um cenário potencialmente mais pressionado para o complexo soja. As projeções iniciais apontam para uma produção brasileira próxima de 178,7 milhões de toneladas, o que representaria um novo recorde.
Caso confirmado, o aumento da oferta tende a pressionar os preços domésticos de soja, farelo e óleo principalmente a partir da entrada da nova safra, quando a disponibilidade física se amplia significativamente.
Além disso, o ambiente geopolítico pode se mostrar menos favorável do que em 2025. A China já retomou compras de soja norte-americana, ainda que em ritmo moderado, demonstrando a intenção de cumprir o compromisso de adquirir cerca de 25 milhões de toneladas dos Estados Unidos ao longo do ano.
Esse movimento tende a reduzir a participação brasileira nas importações chinesas e pode elevar os estoques de passagem no Brasil para aproximadamente 12,8 milhões de toneladas, mesmo com exportações projetadas acima de 107 milhões.
Política de biocombustíveis seguirá como fator-chave
Outro elemento decisivo para 2026 será a evolução da política de biocombustíveis no Brasil. Embora o B15 esteja consolidado, a expectativa é que o avanço para o B16 não ocorra no primeiro semestre.
Sinalizações recentes do Ministério de Minas e Energia indicam entraves técnicos e também cautela diante do ambiente político e eleitoral, que tende a reduzir a probabilidade de medidas com impacto inflacionário.
Sem expansão significativa da mistura obrigatória, a demanda adicional por óleo de soja pode permanecer limitada no curto prazo, reforçando um cenário de estabilidade ou leves recuos nas cotações.
Descompasso entre demanda de farelo e óleo desafia o setor
No caso do farelo de soja, o desafio estrutural permanece ligado ao ritmo de crescimento da demanda global. Enquanto o consumo de óleo é impulsionado por políticas energéticas e pela expansão do biodiesel, o farelo depende fundamentalmente do crescimento da produção pecuária.
Esse descompasso entre os dois derivados, somado à tendência de aumento da oferta global, indica que o farelo poderá enfrentar pressão adicional ao longo de 2026.
Diante desse cenário, a ampliação e consolidação de novos mercados externos será fundamental para evitar quedas mais intensas nas cotações e garantir equilíbrio ao complexo soja.
Mercado inicia 2026 com tendência de maior acomodação
Em síntese, o mercado do complexo soja entra em 2026 marcado por safra recorde, menor tensão geopolítica, demanda chinesa potencialmente mais diversificada e manutenção do B15 no Brasil.
Apesar da possibilidade de volatilidade pontual — principalmente no mercado de óleo — o quadro atual indica uma tendência predominante de maior acomodação de preços para soja, farelo e óleo diante de um cenário de oferta ampla.
Atualizando dados.
















