Fonte CEPEA
Milho - Indicador Campinas (SP)R$ 71,37 / kg
Soja - Indicador PRR$ 123,41 / kg
Soja - Indicador Porto de Paranaguá (PR)R$ 130,61 / kg
Suíno Carcaça - Regional Grande São Paulo (SP)R$ 10,13 / kg
Suíno - Estadual SPR$ 6,97 / kg
Suíno - Estadual MGR$ 6,75 / kg
Suíno - Estadual PRR$ 6,63 / kg
Suíno - Estadual SCR$ 6,65 / kg
Suíno - Estadual RSR$ 6,85 / kg
Ovo Branco - Regional Grande São Paulo (SP)R$ 183,01 / cx
Ovo Branco - Regional BrancoR$ 201,42 / cx
Ovo Vermelho - Regional Grande São Paulo (SP)R$ 207,88 / cx
Ovo Vermelho - Regional VermelhoR$ 223,39 / cx
Ovo Branco - Regional Bastos (SP)R$ 174,02 / cx
Ovo Vermelho - Regional Bastos (SP)R$ 202,23 / cx
Frango - Indicador SPR$ 6,81 / kg
Frango - Indicador SPR$ 6,87 / kg
Trigo Atacado - Regional PRR$ 1.251,47 / t
Trigo Atacado - Regional RSR$ 1.107,94 / t
Ovo Vermelho - Regional VermelhoR$ 227,54 / cx
Ovo Branco - Regional Santa Maria do Jetibá (ES)R$ 196,95 / cx
Ovo Branco - Regional Recife (PE)R$ 182,23 / cx
Ovo Vermelho - Regional Recife (PE)R$ 198,59 / cx

Prepare-se, a demanda será menor

Em entrevista exclusiva, o diretor Geral do Icone, Andre Nassar, aponta que o mundo deve demandar menos carnes a partir do próximo ano e ajustes na produção serão necessários. A especulação vai perder influência na formação dos preços das commodities agrícolas e pode haver menos pressão protecionista em relação aos produtos agrícolas.

Compartilhar essa notícia

Redação (15/12/2008) – André Meloni Nassar é o diretor Geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone). O Icone é responsável por acompanhar negociações internacionais de interesses dos setores agropecuários que o compõe, além de montar cenários e avaliar mercados importantes para carnes, grãos, etanol e outros. No dia 26 de novembro, ele recebeu a reportagem da Suinocultura Industrial na sede do Icone em São Paulo, capital, para a entrevista que você lê abaixo. Nassar não “fugiu” das perguntas e aponta um cenário bem preciso do que podemos esperar para o próximo ano e os demais.

 

Suinocultura Industrial – Quais os possíveis desdobramentos que essa crise do sistema financeiro, que já não é mais só do sistema financeiro, pode trazer para o agronegócio brasileiro?

André Meloni Nassar – Poderemos ter algum impacto negativo no comércio internacional de carnes. Com os países crescendo menos, isto os levará a importar menos. Lembrando que recessão nos Estados Unidos não muda muito o desempenho exportador do agribusiness brasileiro. Eu não enxergo a demanda americana nos afetando porque basicamente os americanos só compram café do Brasil. Mas uma recessão e crescimento menor, por exemplo, da China ou de um país como a Rússia, até da própria Europa, deverá ter um impacto na demanda de carnes. Onde não está muito claro para mim é a demanda de carnes para o Oriente Médio. Talvez nestes países as coisas continuem no ritmo que conhecemos. Agora, sem dúvida, acho que deve ocorrer uma redução no ritmo de crescimento nas exportações das três carnes [bovina, suína e aves] em 2009.

 

SI – Os preços serão afetados?

Nassar – Vai afetar muito mais em grãos do que em carnes. Os preços já caíram. Em soja, milho e algodão o mercado já está em situação complicada. Quando se mexe no comércio de têxteis reduz a demanda por algodão. Comida sofre um pouco menos, mas algodão sofreu na pele este problema da crise. Nós não somos grandes exportadores de milho, exportamos mais soja. Deve-se ter uma redução da receita de exportação por causa dos preços menores, mas acho que não terá muito impacto na demanda.

 

SI – E como tudo isto vai refletir internamente?

Nassar – Reflete de várias formas. Se você trabalhava com uma expectativa de produção “x”, tudo mundo agora deveria, sobretudo suínos e frangos, trabalhar com a expectativa de reduzir aquele crescimento de produção que se estava fazendo. Eu daria uma segurada no freio. No milho isto não tem tanto problema porque no fundo o Brasil produz todo o milho que precisa. E até tem tido excedente ultimamente. Os impactos no sentido de demanda e preço vêm de fora para dentro.

 

SI – Em suínos e aves haveria outros impactos além da menor demanda?

Nassar – Primeiro se interrompe a estratégia de internacionalização das empresas. Elas vinham fazendo investimentos em manufatura ou centros de distribuição na Europa, na Rússia. Isto deve dar uma segurada por causa da menor demanda. Há uma tendência a menores investimentos internos. Os planos de investimentos das empresas devem ser revistos e reduzidos para se adequarem ao novo cenário de demanda. Se você me perguntar: Quanto irá cair a demanda? Eu não sei. Estamos em discussão com a Abef [Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frango] para ver se montamos um cenário aceitável da demanda por carne de frango na Rússia, nos países do Oriente Médio, no Japão, Hong Kong e na Europa. Nestes cinco mercados podemos esperar redução do PIB e da demanda por importações. Impacta aí. Se esperávamos crescer em carnes, não vamos. Ou por questões do boi, devido a pouca oferta de animais, ou até por crescer demais em frango ou suíno; porque daí se joga o preço lá pra baixo e não vale a pena. Mas a tendência é das empresas se adequarem a esta nova condição de mercado.

 

SI – A suinocultura brasileira fecha o ano com exportações estáveis e receita extraordinária. Qual o cenário para o comércio internacional de carne suína em 2009?

Nassar – Depende do que acontecer com a Rússia. O que acontecer com a sua economia, sem dúvida, vai impactar nas exportações de suínos; e há um risco claro de menor demanda. Também temos que observar o que a Rússia fará com suas quotas, pois ela quer mexer nisso. Outra coisa é a conversa com o mercado japonês e coreano. Se você consegue abrir um mercado desse tipo, muda totalmente o cenário. Mas vamos admitir que nada aconteça com Japão e Coréia em 2009, e, vamos admitir que a Rússia vai manter o seu atual comportamento. O impacto maior então vai ser em preço. Certamente a receita de exportação deverá ser reduzida em dólar. A receita das empresas em real poderá ser boa por causa da desvalorização da moeda brasileira, mas a receita em dólar tem chances de cair.

 

SI – A visita do presidente russo ao Brasil é uma boa oportunidade para negociar?

Nassar – Vai ser uma oportunidade muito importante. As conversas entre Brasil e Rússia na questão carne estão boas. Os russos estão com um litígio grande com os americanos e europeus. É a oportunidade para o Brasil nivelar esta questão das quotas a um patamar de seu interesse. A Rússia vai implementar um novo sistema de quotas a partir de 2010. O atual foi de 2006 e vai até 2009. É um regime que não favorece o Brasil. Não temos quotas, estamos alocados no tal dos “outros”, cujo volume é menor em relação ao que vendemos para os russos. Este é o momento de prepararmos terreno na busca de uma nova sistemática de importação pela Rússia, que seja mais favorável ao Brasil a partir de 2010.

 

SI – Os preços das commodities agrícolas passaram a sofrem influência dos valores das commodities energéticas. Com a nova realidade de preços, como ficou esta relação?

Nassar – Esta relação continua existindo. O petróleo começou a subir em 2003. Grãos a subir sobretudo no final de 2006. Demorou um pouco para os grãos colarem. Vamos pensar o seguinte. O petróleo está entre US$ 55 e US$ 60. A soja está mais ou menos em US$ 9 [bushel] e o milho a uns US$ 3,80 – US$ 3,40. Pra mim, soja e milho nestes valores condizem com a situação dos fundamentos de mercado de oferta e demanda. Os preços estão refletindo corretamente a questão. Eles se ajustaram. Estavam muitos altos por causa do petróleo e por causa do efeito dos fundos [de investimentos]. Os fundos caíram e corrigiram petróleo, grãos, minérios.

 

SI – O preço dos grãos continua a sofrer influência do petróleo?

Nassar – Talvez um preço de petróleo a US$ 55/60 também reflita a condição de fundamento do mercado. Aquela idéia de quanto custa para você produzir petróleo no modelo mais caro do mundo. Petróleo a US$ 55/60 está refletindo isto. Então, eles estão andando mais ou menos juntos. O que aconteceu é que energia estava inflacionando o preço das commodities agrícolas. A soja a US$ 12 estava além de onde o mercado dizia que ela deveria estar. Esta relação fez o preço inflacionar, mas agora voltou ao patamar que reflete as condições de mercado. No caso agrícola, a oferta e demanda. No caso do petróleo, o tal custo marginal do produtor mais caro.

 

SI – A bioenergia também afetou o mercado de grãos?

Nassar – Esta condição de milho a US$ 4 e soja a US$ 9 tem a ver com questão de bioenergia também. Se não tivesse ocorrido este crescimento de demanda por etanol nos Estados Unidos e de biodiesel na Europa, é muito provável que os preços estariam mais baixos. Eles sequer teriam chegado aonde chegaram e as condições de mercado seriam mais baixas. Provavelmente a oferta de milho e soja estaria mais desbalanceada em relação à demanda. Tinha este lado ruim do biocombustível porque ele fez casar o preço do petróleo e jogou o preço dos alimentos lá pra cima. Agora a coisa está relativamente equilibrada. E com esta redução ficou claro que quem afetava demais os preços eram os fundos, principalmente a especulação. Tem um estudo da GV [Fundação Getúlio Vargas] que comprova que a subida e queda de preços, fora dos patamares de fundamento do mercado, foram causadas pelos fundos.

 

SI – Esta relação com os biocombustíveis. Você acha que foi negativa?

Nassar – Hoje eu acho benéfica esta relação. Ela está ajudando a não fazer com que os preços caíam ainda mais. Nós já tivemos preços de milho bem mais baixos. Agora, a menos que europeus e americanos mudem a sua legislação e reduzam suas demandas por biocombustíveis, haverá sempre um adicional de demanda que está sendo importantes para dar um nível de sustentação dos preços.

 

SI – A acentuada queda do petróleo vai influenciar a produção americana de etanol de milho?

Nassar – Creio que terá influência na importação deles. Eles compram do Brasil, mas com o preço do etanol indo lá pra baixo começa a ficar complicado para exportarmos pagando tarifa. Essa a primeira coisa. A outra é que eles aplicam uma política de metas de consumo de etanol, que é parecida com a que temos com o álcool. Independente do preço, o governo brasileiro trabalha com a mistura de 20% a 25% de álcool na gasolina. O mercado americano está mais ou menos assim, eles não tem um percentual de mistura, mas uma meta de volume que deve ser misturado. Esta meta acaba garantindo o consumo, mesmo que o etanol esteja caro.

 

SI – E os subsídios?

Nassar – Isto deve mudar. Havia uma discussão muito grande nos Estados Unidos para a redução dos subsídios ao etanol. Só que agora o preço do petróleo caiu e da gasolina americana também. Antes o preço da gasolina era maior do que o do etanol, então valia a pena misturar porque você tinha uma gasolina mais barata. Agora inverteu, o etanol está mais caro, só que o consumo do etanol está garantido por causa da obrigatoriedade de misturar na gasolina. O que acontece. Eles têm ma isenção de imposto para a mistura. Antes se falava em eliminar este crédito de imposto, pois subsidiava demais o milho. Agora esta discussão vai acabar. O preço da gasolina diminuiu e puxou o do etanol. O crédito de imposto passou a ser importante para garantir o preço para o produtor de milho.

 

SI – Então, não vai alterar nada.

Nassar – O mercado de gasolina americano deve crescer muito menos do que as projeções diziam. Se projetavam crescimentos absurdos. Apontavam que em 10 anos os Estados Unidos estariam consumindo 550 bilhões de litros de gasolina. No Brasil deve dar uns 35 bilhões de litros… Não sei. Mas se fosse 50 bilhões o consumo do Brasil, ainda assim seria 10 vezes menor do que nos Estados Unidos. É um mercado absurdo e a população deles não é 10 vezes maior que a nossa. O que deve acontecer é o consumo americano parar de crescer e no futuro até decrescer, se forem implantadas políticas de redução de consumo, as quais talvez o Obama [Barak Obama, presidente eleito dos Estados Unidos] faça.

 

SI – No Brasil, o que mais o preocupa em relação a produção de grãos?

Nassar – Em grãos estou mais ou menos preocupado com a sustentabilidade financeira e econômica dos produtores daqui pra frente. A capacidade de investimentos deles está muito baixa. Eles estão muito endividados. Tudo depende se haverá algum impacto na demanda ou não. Porque se a demanda de grãos continuar boa – soja por exemplo – eu não sei se o Brasil consegue acompanhar este crescimento de demanda que estimamos anteriormente.

 

SI – Mas o custo de produção de grãos reduziu.

Nassar – Do ponto de vista dos custos, se olharmos a próxima safra brasileira, ele vai estar um pouco melhor. Agora, se o produtor não tiver capacidade para investir, não adianta custos mais baixos. O frete e o valor dos containers estava muito alto. Com uma segurada no comércio internacional de commodities, como o minério de ferro, pode ser que o agronegócio tenha uma redução nos custos, sobretudo nas exportações a granel ou mesmo em containers. Isso vai ser importante para dar sustentação ao comércio daqui pra frente.

 

SI – E o crédito?

Nassar – A questão do crédito ficou muito séria e temos de olhar no curto e no longo prazo. No curto prazo é o que estamos vendo. Empresas com dificuldades em fazer adiantamento de câmbio, crédito para embarque… Tudo isto atrapalha a exportação. Mas vamos olhar com perspectiva 2009. O maior problema do setor agrícola é grãos carregar um endividamento muito grande. O desempenho da safra não vai ser tão bom nesse ano. Tem gente que comprou insumo muito caro. Os preços caíram em dólar, mas vão ser parcialmente compensados por um aumento do preço em real, mas você teve custos altos. Essa safra carrega algo que vai se espalhar um pouco no ano que vem porque os produtores não estão conseguindo pagar seus financiamentos anteriores. Então vamos ter um problema grave que é como equacionar o endividamento do setor. Não sei se este problema pode gerar um problema mais grave para suínos e aves. Eu não vejo desta forma. Mas olhando o agronegócio brasileiro como um todo, está mais do que na hora de se encontrar uma solução para esta questão do endividamento.

 

SI – Alguns especialistas tem defendido a implementação da PGPM [Política de Garantia de Preços Mínimos]. O que você acha disto?

Nassar – Não gosto muito da PGPM como alternativa. Estou totalmente de acordo com a necessidade de se desenvolver algum mecanismo de política que garanta a renda para o produtor. Por quê? Pelas sucessivas crises de endividamento e de renegociação de dívidas que temos assistido. Também pela absoluta necessidade do governo ter tido de operar com mecanismos tipo PEP [Prêmio de Escoamento do Produto] e Prop [Prêmio de Risco para Aquisição de Produto Agrícola Oriundo de Contrato Privado de Opção de Venda] na hora em que o preço cai muito. Tirando o algodão que é um produto cuja ajuda nesses programas é muito pesada, nos outros ela é pequena. Milho sempre foi assim: 3-4 milhões de toneladas em uma produção de 50 milhões de toneladas. O impacto é pequeno. A PGPM fazia sentido quando o governo fazia estoque. Tinha o preço mínimo, quando o preço de mercado chegava abaixo dos preços, o governo era obrigado a comprar aquele produto. Hoje o governo não vai fazer isto. Acho que ninguém no Brasil vai propor uma política deste tipo. Eu acho que a PGPM em si não resolve muito o problema, a menos que você case a PGPM com o PEP, o Prop e o Pepro [Prêmio Equalizador Pago ao Produtor]. Você usa este preço sugerido como referência para fazer valer esses programas. A diferença é que por lei o governo é obrigado a honrar o preço mínimo. Se amanhã um produto fica permanentemente com o preço baixo, o governo é obrigado a intervir no mercado para fazer subir. Eu prefiro partir para outro mecanismo.

 

SI – Qual seria?

Nassar – Eu prefiro a idéia do seguro de renda. Como funciona. Você tem um preço mínimo definido. O produtor contrata o seguro, paga por aquilo e se o preço ficar abaixo, ele tem assegurado a garantia do preço maior. Em anos de preços mais altos, com o arrecado dos produtores, você forma um fundo. Nos anos de preços mais baixos, os recursos deste fundo são utilizados. Você não vai super-subsidiando a produção. Forma-se um caixa e na hora que precisa usa. O produtor ainda tem a opção de não contratar o seguro. Ele avalia e se acha que o preço não vai ficar abaixo do mínimo, não contrata. Outra coisa também muito importante, quando se gera um caixa para produção não é dinheiro do tesouro que se está gastando. Eu prefiro um mecanismo deste tipo.

 

SI – Nesta opção, se compartilha a responsabilidade.

Nassar – Compartilha a responsabilidade, mas depende do preço mínimo. Se pegar o preço do milho e jogar em R$ 50 o saco, provavelmente se estará distorcendo o mercado. Tem que exigir um acompanhamento. A Conab tem que medir os custos nas regiões, aprimorando a sistemática que já utiliza. O problema do seguro de renda é que se terá que mudar totalmente a política agrícola brasileira. Para criar esse programa teria que reformar a PGPM, mexendo com leis e entrando em uma esfera institucional muito lenta. Agora, eu acho o seguro de renda muito melhor, até porque ele vai servir de garantia para financiamentos e ajudar a alavancar todas estas coisas que se tem na BMF [Bolsa de Mercadoria e Futuro]. Todos os novos instrumentos financeiros.

 

SI – Em quê ajudaria no financiamento?

Nassar – Qual é um dos problemas desses instrumentos financeiros? Como o risco da agricultura é muito grande, para algum fundo colocar dinheiro em um instrumento deste tipo, comprar esses papéis, ele tem que ter um baita retorno. Se há o seguro de renda, se reduz o risco associado à agricultura. É o que os americanos têm. Eles têm um sistema de preço mínimo pra grãos. O governo não compra a produção, ele paga a diferença. Dá um cheque. Este é um outro modelo que Brasil poderia seguir, mas o governo não pode se dar ao luxo de seguir este modelo porque sairia horrores de dinheiro, o tesouro nem teria. Como o americano tem o negócio do preço mínimo, ele vai pegar um financiamento no banco e o banco atribui baixo risco para ele. O banco sabe que a renda do produtor esta garantida no mínimo por aquele preço garantido pelo Estado. Isto faz muita diferença para se trazer liquidez e financiamentos para o setor. Esta é uma questão central. Então, eu gosto mais da idéia do seguro de renda, que é o que o pessoal da área agrícola do Banco do Brasil tem defendido.

 

SI – Este modelo não tem a ver com a PGPM?

Nassar – Este modelo tem a ver com a PGPM, mas não usa o preço mínimo para comprar o produto, nem para fazer Prepo, Prope. O preço mínimo é utilizado para o produtor contratar um seguro que garanta no mínimo aquele preço, o qual garante a sua renda. Interessa, mas ele paga um pouco por isto. Hoje, no seguro agrícola rural, o governo subsidia 50% do prêmio. Se teria que encontrar um mecanismo deste tipo.

 

SI – O Brasil defende o fim dos subsídios. Programas como este ou o próprio PGPM não poderiam ser visto como uma forma de subsidiar a produção?

Nassar – O tipo de política que temos é aquela que menos distorce. Inclusive a renegociação de dívidas porque o que se está fazendo é pegar um débito que o produtor tinha lá atrás e o estimular a pagar antes, aí se tem um rebate na sua taxa de juros e se paga menos. Tudo isso são políticas que distorcem muito pouco porque pouco afetam a tomada de decisão na hora de produzir. Uma política como a PGPM ou qualquer variante dela, como o seguro de renda, são políticas que dependendo de como o Brasil fizer, aumenta nossa exposição internacional na questão dos subsídios. Sempre teremos que fazer isto dentro dos compromissos assumidos na Organização Mundial do Comércio [OMC]. Não podemos ir além deles.

 

SI – O que você acha dos subsídios?

Nassar – Eu sempre achei que não se podia subsidiar a agricultura, mas sabemos que não funciona assim. O setor agrícola está vivendo uma série de experiências e se precisa minimamente de políticas para o setor agrícola. Só que nós devemos ajudar o setor agrícola até o limite de nossos compromissos na OMC. Tem que ser muito bem pensado uma política deste tipo. Por exemplo, não se poderia dar de ajuda a nenhum dos produtos, um equivalente de subsidiação que fosse maior do que 10% do valor da produção daquilo, caso contrário começa a criar problemas na OMC. Mas tudo o que estou te falando, ainda assim, dá um nível de subsidiação bem baixo. Não estamos como os americanos. Os americanos têm um programa de seguro de renda onde gastam cerca de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões, ou seja, gastam isso para uma agricultora de US$ 200 bilhões. É 2% da agricultura deles. É mais ou menos isso que estamos falando no Brasil também. De um programa que vai representar na massa da agricultura algo que não é tão grande, mas vai ter um impacto muito importante entre os produtos. Agora, tem que ser bem pensado.

 

SI – A especulação em torno das commodities agrícolas deve continuam e influenciarem na formação de preços?

Nassar – Deve voltar a ser como era antes, mas ela continua importante porque vai definir as oscilações, a questão da variabilidade de preço… Mas o fundamento vai falar mais forte agora. Por quê? Porque não tem mais toda aquela quantidade de dinheiro disponível para você aplicar, para fazer especulação. Não havendo isto, os mercados futuros passam a responder muito mais a realidade do mercado. Também, a participação dos produtores e consumidores na formação dos preços passa a ser maior em relação a dos especuladores.

 

SI – Voltou ao normal?

Nassar – Neste sentido, sim. Nós já sabemos o que é uma situação de mercado demandando e a oferta com dificuldade para crescer. Sempre que temos um cenário deste, as coisas se invertem e você passa a ter uma super-oferta e aí o preço cai lá pra baixo. A super-oferta não vai acontecer até porque esta crise também trouxe impactos na oferta, mas temos que ver se a demanda vai continuar a crescer como cresceu de 2000 pra cá. Por exemplo, pega o frango. Ele saiu de 600 mil toneladas para 2 milhões e pouco. Em frango, duplicamos as exportações em menos de 10 anos. Nesse cenário de crise mundial não podemos imaginar que vamos fazer isto de novo. Vai continuar a crescer, mas a curva tende a se estabilizar. Toda esta expansão que assistimos, investimentos em frigoríficos, esta coisa toda, vai dar uma segurada. Não é agora que se irá sentir, será ao longo dos anos. Vimos oito anos só de crescimento, provavelmente ver agora anos de estagnação.

 

SI – Do PIB total da agricultura e silvicultura, 30% vem das exportações, assim como de 40% a 50% das cadeias produtivas operam hoje no mercado internacional. Com países entrando em recessão, pode haver um rearranjo no mercado interno ou até um excesso de produtos?

Nassar – Excesso aqui dentro eu não consigo ver. O nosso preço da soja é formado lá fora e sempre vende. No milho poderia ter um risco de excesso se houvesse uma super-produção, caso os produtores estivessem acreditando que o Brasil seria capaz de continuar exportando 10 milhões de toneladas ou mais. Mas ninguém pensou deste jeito. Não esperamos uma super-produção de milho. Não temos uma tendência de excesso de oferta.

 

SI – Há algum setor que tenha este risco?

Nassar – Onde se tem algum risco de ter sobra de produto talvez seja no etanol, por conta da redução das vendas de carros flex fuel. O setor trabalha muito olhando a demanda futura. No etanol se pode ter um cenário onde se o mercado internacional não responder bem, haveria uma probabilidade de formação de estoque de etanol e jogaria o preço lá para baixo, dando uma segurada na produção. Não diria que as usinas quebrariam, até mesmo porque elas passam por dificuldades por conta da falta de crédito. A falta de crédito já contém o ímpeto de querer produzir muito. Carnes. No boi dificilmente terá excedente. O setor está em uma fase difícil de se recuperar por causa desta história de abate. Não deve sobrar nada no mercado interno. Eu acho que frango e suíno têm que administrar a produção.No frango o alojamento estava só crescendo. É inteligente agora dar uma segurada no alojamento para que não tenhamos sobra de produto porque o mercado internacional está demorando a responder. E reduzir muito os preços para exportar não seria muito inteligente.

 

SI – Pode haver um rearranjo no mercado interno?

Nassar – Deve haver um rearranjo interno, mas em setores que tiveram muito investimento e não tem mais capacidade de investir porque está faltando dinheiro. O setor sucroalcooleiro é tipicamente um desses. Deve ter um rearranjo de gente comprando gente. Grãos, não sei. Na soja já é super-concentrado. Cooperativas…

 

SI – As cooperativas tem participado com exportações de carnes e grãos. Em caso de menor demanda, pode ser que algumas de menor porte não consigam colocar seu produto fora e possivelmente o colocarão no mercado interno.

Nassar – Ou venderão mais barato para o mercado internacional, comprometendo um pouco o fluxo de caixa. Eu acho que comprometimento do fluxo de caixa vai ter, mas não sei. Eu não acompanho a saúde financeira das empresas, vai depender de quem estiver com o fluxo de caixa melhor. Mas nesse sentido, aumentar o endividamento deve acontecer. Agora, quebradeira geral não deve acontecer. No setor onde se têm mais empresas operando deve acontecer alguma consolidação, onde tem mais cooperativa é mais difícil por essa dificuldade maior de empresas comprarem cooperativas. Tem que ver o que vai acontecer com o mercado interno também, porque em carnes o mercado interno faz diferença. Como é que o mercado interno vai responder? Também tem a questão dos preços. Mas o setor produtivo vai se ajustar em termos de oferta. Eu acho que ele vai fazer a lição de casa na questão da oferta.

 

SI – Um relatório da OMC divulgado em novembro – e até tema de um artigo do ex-ministro Rubens Ricupero na Folha de S.Paulo – confirmou que o comércio mundial começou a enfraquecer antes mesmo do auge da crise. Por que esse decréscimo começou antes e também, você acredita que países como China e Índia têm condições para substituir o papel de economias desenvolvidas na demanda por importações?

Nassar – Não acho que a China vai conseguir. O Banco Mundial já está dizendo que a China vai crescer 7,5% em 2009…

 

SI – O FMI prevê 9%.

Nassar – Tem gente jogando os números mais pra baixo. Isto vai ter um impacto de demanda importante. O que temos que observar é que produtos agrícolas e outros produtos não são a mesma coisa. Estes números da OMC são do comércio internacional em geral. Definitivamente, o comércio – com as economias crescendo menos – vai ter que ser reduzido. Agora, eu me preocupo mais é com a balança de pagamentos do Brasil. Reduzindo exportação, o superávit cai; dependendo do que vai acontecer com as importações também. No Brasil, o balanço de pagamentos é muito importante porque afeta a avaliação do País, a atração de investimento estrangeiro, o risco país, dólar etc. Vamos entrar em um período de redução do comércio internacional. Isto está claro. Agora, os produtos agrícolas são os que vão sofrer menos na comparação com os demais. O impacto de diminuição da demanda será menor nos produtos agrícolas do que em produtos como minérios, outras commodities ou no industrializados.

 

SI – Mas o que explicaria a redução do comércio em um momento em que a economia mundial ainda estava aquecida?

Nassar – A crise foi ficando clara a partir de julho desse ano. Os países já começaram a comprar menos porque sabiam que não valeria a pena formar estoques. Ou seja, em julho de 2008 já se começava a ter os primeiros sinais da dificuldade de crédito. Isso é uma coisa. A segunda é que os países tinham estocado muito e os importadores começaram a reduzir suas taxas de importação já olhando este cenário de crise. Outra coisa importante, é que o Ricupero em seu artigo fez as contas com base em receita e os preços começaram a cair a partir de julho. Então na medida em que os preços caem, se reduz o valor comercializado. E ele captou este aspecto, que tem a ver mais com queda de preço.

 

SI – A crise vai ter reflexos na liberação do comércio internacional, com aumento de protecionismo, por exemplo?

Nassar – Já vínhamos com uma tendência dos países – principalmente na questão dos produtos agropecuários – em aumentar o protecionismo por causa do aumento do preço dos alimentos. Os países começaram a dizer que precisavam produzir por conta própria porque se deixassem para o mercado os preços iriam às alturas. O problema agora é o seguinte. Com a crise mundial e os menores preços, se reduz um pouco essa pressão por protecionismo. Isto não quer dizer que eles vão querer abrir definitivamente o seu setor agrícola. Países como China e Índia querem proteger seus produtores e a melhor forma de se fazer isto é manter o mercado fechado ou aberto, até o nível que lhe interessa.

 

SI – E no caso dos produtos industriais?

Nassar – Aí estamos falando de uma coisa diferente. A medida em que desemprego fica importante, importação passa a ser o inimigo número 1. Há uma tendência dos países que começam a sentir que o desemprego está apertando a olhar a importação como parte responsável disto. Se não dá para fazer a economia crescer como antes, vamos atacar os pontos que conseguimos controlar. Por exemplo, os americanos devem manter o discurso liberalizante, mas vão ter esta preocupação em torno do desemprego e do impacto das importações nele.

 

SI – Alguns especialistas dizem que o pior da crise mundial já passou e outros afirmam que o pior está por vir. Você se arriscaria em alguma destas duas posições?

Nassar – Vou falar com foco no agronegócio. O pior da crise seria se este problema de liquidez de crédito perdurasse por muito tempo. Poderíamos ter um cenário de agravamento desta crise observando demanda americana, um eventual impacto mais pesado na Europa e a falta permanente de capital. Este seria o pior dos mundos. Nunca mais voltássemos a ter crédito, as taxas de juros subindo muito, o custo disparando. Mas isto não deve acontecer. Vamos ter países em desenvolvimento crescendo e temos China, Índia e Brasil. O dinheiro não tem como sumir, ele tem que voltar para as questões produtivas, principalmente.

 

SI – E no Brasil?

Nassar – Para o agronegócio brasileiro temos planos de crédito e de demanda. Vai demorar um tempo ao longo de 2009… Eu acho que vamos sentir na carne um pouco desta crise, mas não sei se ela vai se agravar tremendamente. Difícil a Bovespa cair mais do que já caiu. Do ponto de vista do mercado financeiro, nós já se chegou aonde tinha que se chegar. Vamos ver o que acontece com a demanda, isso é importante. Demanda não está clara ainda.

Mais lidas
Cotação
Fonte CEPEA
  • Milho - Indicador
    Campinas (SP)
    R$ 71,37
    kg
  • Soja - Indicador
    PR
    R$ 123,41
    kg
  • Soja - Indicador
    Porto de Paranaguá (PR)
    R$ 130,61
    kg
  • Suíno Carcaça - Regional
    Grande São Paulo (SP)
    R$ 10,13
    kg
  • Suíno - Estadual
    SP
    R$ 6,97
    kg
  • Suíno - Estadual
    MG
    R$ 6,75
    kg
  • Suíno - Estadual
    PR
    R$ 6,63
    kg
  • Suíno - Estadual
    SC
    R$ 6,65
    kg
  • Suíno - Estadual
    RS
    R$ 6,85
    kg
  • Ovo Branco - Regional
    Grande São Paulo (SP)
    R$ 183,01
    cx
  • Ovo Branco - Regional
    Branco
    R$ 201,42
    cx
  • Ovo Vermelho - Regional
    Grande São Paulo (SP)
    R$ 207,88
    cx
  • Ovo Vermelho - Regional
    Vermelho
    R$ 223,39
    cx
  • Ovo Branco - Regional
    Bastos (SP)
    R$ 174,02
    cx
  • Ovo Vermelho - Regional
    Bastos (SP)
    R$ 202,23
    cx
  • Frango - Indicador
    SP
    R$ 6,81
    kg
  • Frango - Indicador
    SP
    R$ 6,87
    kg
  • Trigo Atacado - Regional
    PR
    R$ 1.251,47
    t
  • Trigo Atacado - Regional
    RS
    R$ 1.107,94
    t
  • Ovo Vermelho - Regional
    Vermelho
    R$ 227,54
    cx
  • Ovo Branco - Regional
    Santa Maria do Jetibá (ES)
    R$ 196,95
    cx
  • Ovo Branco - Regional
    Recife (PE)
    R$ 182,23
    cx
  • Ovo Vermelho - Regional
    Recife (PE)
    R$ 198,59
    cx

Relacionados

SUINOCULTURA 328
Anuário AI – Edição 1342
Anuário SI – Edição 327
SI – Edição 326
AI – 1341