Há uma perda de fôlego no mercado venezuelano que caiu de oitavo a 12º na lista de principais importadores.
Problemas no comércio Venezuela-Brasil
Os críticos das relações entre Brasil e Venezuela raramente levam em conta a importância assumida pelo mercado venezuelano durante o governo Hugo Chávez, que tem garantido repetidos superávits de comércio e freguesia certa aos exportadores brasileiros.
Só neste ano, os brasileiros já venderam à Venezuela uma quantia superior a US$ 1,3 bilhão a mais do que o Brasil comprou daquele país. Mas um olhar mais atento às estatísticas mostra alguns problemas nesse superávit, que tem servido de argumento ao governo brasileiro para defender a política em relação à administração Chávez.
Há uma perda de fôlego no mercado venezuelano, que, no primeiro semestre, caiu de oitavo a 12º na lista de principais importadores de mercadorias do Brasil. E, pior, a política de controle de câmbio e de substituição de importações venezuelana tem barrado cada vez mais produtos brasileiros de maior valor agregado, em favor de produtos de primeira necessidade, especialmente alimentos, necessários para combater as pressões inflacionárias e o desabastecimento provocados na Venezuela pelo conflito entre Estado e investidores privados.
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Entre os dez principais produtos importados pelos venezuelanos ao Brasil, sete são alimentos, em forma primária ou semi-industrializada, que correspondem a mais de 40% do total das compras feitas pelo país vizinho a fornecedores brasileiros. Computados os 20 principais produtos da pauta de exportações brasileira à Venezuela, esse tipo de produto de baixo valor agregado ocupa mais da metade dos itens, e 46% do total das vendas ao país andino. São produtos como bovinos vivos (há restrições à compra de carne fresca), açúcar em bruto, xarope para bebidas, café cru, milho, ovos, óleo de soja.
A Venezuela, com ligação rodoviária direta à Zona Franca de Manaus, já foi um dos principais mercados para os telefones celulares produzidos no Brasil. No primeiro semestre deste ano, ainda importou quase US$ 18 bilhões de fornecedores brasileiros, mas esse valor equivale a uma queda de impressionantes 80% em relação aos mais de US$ 90 bilhões importados no mesmo período do ano passado.
Os celulares são o exemplo mais notável da perda de qualidade, em termos de valor agregado, na demanda venezuelana por produtos brasileiros – consequência direta do esforço do governo Chávez para produzir em solo venezuelano, em muitos casos em empresas estatais, os manufaturados antes importados de países como a Colômbia e, mais recentemente, do Brasil.
No primeiro semestre, em relação ao mesmo período de 2009, as exportações, para lá, de óleo de soja refinado caíram 85%, enquanto subiram 60% as vendas de óleo de soja em bruto. As vendas de açúcar em bruto explodiram 670%, as de carnes bovinas desossadas e congeladas, 40%. Depois de crescer de maneira constante, após um salto de mais de 130% em 2004, as exportações de manufaturados à Venezuela caíram quase 9% em 2008, pouco menos de 33% em 2009 e 20% no primeiro semestre de 2010, em relação ao mesmo período do ano passado.
É uma queda desigual e ainda há setores capazes de mostrar, isoladamente, bons negócios com a Venezuela. Na lista de 50 principais produtos de exportação ao país de Hugo Chávez, alguns dos melhores índices de crescimento são para produtos sofisticados, bens de capital como elevadores e monta-cargas (360% no primeiro semestre) e outras máquinas e aparelhos para avicultura (mais de 590%), ou partes e peças automotivas, como eixos de transmissão (85%). A venda de absorventes cresceu mais de 400%, para quase US$ 3,5 milhões, mas a de barbeadores não elétricos caiu mais de 40%.
Mais que um padrão de mercado, as oscilações no comércio com a Venezuela seguem o humor dos administradores estatais do comércio, ao sabor das dificuldades nas contas externas venezuelanas e da crise de desabastecimento local. Não é um modelo de comércio que estimule investimentos de longo prazo dos exportadores, nem o padrão que o Brasil desejaria ter com seus principais mercados, nem com a vizinhança sul-americana.





















