Operação prevê sinergias de R$800 milhões, mas já teve três adiamentos da assembleia e enfrenta críticas de acionistas e concorrentes; Previ anunciou saída total do capital
BRF e Marfrig: impasse trava fusão de R$150 bilhões

A fusão entre BRF e Marfrig, anunciada em maio, promete criar uma gigante do setor de proteínas com faturamento anual projetado entre R$150 bilhões e R$153 bilhões. A operação prevê sinergias estimadas em aproximadamente R$800 milhões ao ano e estabelece uma relação de troca de 0,8521 ação da Marfrig por cada ação da BRF.
Essa união faz parte da estratégia da Marfrig para ampliar sua presença global e atuar em toda a cadeia de valor das proteínas, enquanto a BRF busca consolidar governança e eficiência operacional.
Benefícios esperados
Para a Marfrig, a fusão deve gerar ganhos importantes de eficiência e redução de custos, além de aumentar a competitividade internacional da nova empresa. A BRF, por sua vez, reforça que o processo está sendo conduzido com foco em boas práticas de governança corporativa e que a companhia tem se empenhado em esclarecer dúvidas do mercado e dos acionistas.
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Resistência dos acionistas minoritários
Apesar dos benefícios apontados, fundos de pensão e investidores minoritários têm manifestado preocupações, principalmente em relação à transparência das informações divulgadas. Eles pedem explicações mais detalhadas sobre a metodologia usada para definir a relação de troca entre as ações e cobram garantias de que os interesses de todos os acionistas sejam respeitados.
Em informações recentes, a Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil e um dos principais acionistas da BRF, anunciou que zerou integralmente sua participação na companhia. A decisão foi interpretada no mercado como um sinal de perda de confiança na condução da fusão. Analistas apontaram que a saída da Previ representa um alerta adicional para os minoritários e fortalece o coro por maior transparência. Após a notícia, as ações da BRF chegaram a cair quase 7%, intensificando a volatilidade.
Questionamentos regulatórios e concorrenciais
A Minerva Foods, concorrente direta, apresentou questionamentos ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), alertando que a concentração resultante da fusão pode restringir a livre concorrência e afetar a cadeia produtiva de carnes bovina e de aves no Brasil.
Embora o Cade tenha divulgado parecer preliminar favorável, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já suspendeu três vezes a assembleia de acionistas. Na decisão também recente, a autarquia justificou que surgiram novos pedidos de esclarecimento por parte de minoritários e determinou que documentos adicionais sejam apresentados antes do processo avançar.
Impacto no mercado e próximos passos
O acúmulo de incertezas, somado aos adiamentos da assembleia e à saída da Previ, trouxe forte pressão sobre o valor de mercado das empresas. Segundo a CVM, a reunião só poderá ser convocada novamente 21 dias após a entrega de todas as informações exigidas.
No mercado financeiro, cresce a percepção de que, sem maior transparência e consenso entre os acionistas, a fusão pode acabar judicializada, atrasando ainda mais a concretização da operação.
Histórico e panorama do setor
As fusões e aquisições protagonizadas por Marfrig e BRF transformaram o setor de proteínas no Brasil. A busca por escala global e eficiência operacional tem impulsionado movimentos semelhantes no mercado internacional, em meio ao avanço da demanda global por alimentos proteicos.
A eventual consolidação das duas gigantes teria impacto relevante na cadeia produtiva e nos mercados doméstico e externo.
O que esperar daqui para frente
Analistas de mercado e especialistas em governança avaliam que a fusão tem potencial estratégico, mas seu sucesso depende da capacidade das empresas de fornecer informações completas e demonstrar isenção na condução do processo, mitigando conflitos de interesse que preocupam investidores e órgãos reguladores. Com três adiamentos da assembleia e a decisão recente da Previ de sair completamente do capital da BRF, cresce a pressão para que as companhias apresentem esclarecimentos mais detalhados e transparentes ao mercado. Enquanto isso, investidores acompanham com cautela cada novo desdobramento que pode definir o futuro de uma operação estimada em mais de R$150 bilhões e considerada estratégica para a consolidação do setor de proteínas no Brasil e no exterior.





















