Opinião do Dr. Edir Nepomuceno da Silva, professor da Unicamp, sobre o preparo da avicultura brasileira para a chegada da gripe das aves.
O dia “D” para a influenza aviária no Brasil
Redação AI 20/10/2005 – Em se tratando de influenza aviária (gripe das aves) alguns dizem que a questão é quando e não se ela vai ou não chegar ao Brasil. Assim, a Defesa Sanitária Animal coloca-se de prontidão, plano de contingência é estabelecido e todos aguardam o aparecimento de um quadro devastador da doença, com mortalidade elevada e sintomatologia típica. Engano. O inimigo (vírus) pode entrar sorrateiramente, sem muito alarde, disfarçado até sob o manto de qualquer outra doença respiratória que atinge as aves rotineiramente, com sintomas leves. Aí é que reside o perigo, pois ela pode passar despercebida.
Em muitos países, os primeiros surtos apareceram desta maneira, numa forma de baixa letalidade. Com o tempo (que pode chegar a um ano), o vírus se multiplicou, espalhou-se e, pior, mutou para a forma mais virulenta e mais difícil de ser controlada. É preciso ter esta situação em mente e trabalhar com toda a estrutura de vigilância e diagnóstico avícola disponível no país. Refiro-me, aqui, à ampliação da rede oficial, credenciando laboratórios privados, inclusive os das empresas produtoras, universidades e institutos de pesquisa para o alerta inicial. Chamo isto de “rede de radares”. Para este caso, o governo produziria ou importaria antígenos e os distribuiria inativados aos laboratórios mencionados. Estes submeteriam o soro sanguíneo de lotes de aves com sintomas respiratórios e sem diagnóstico preciso, a testes de HI (preferível) para os sorotipos mais prevalentes, ou AGP, para detecção de grupo.
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Estes testes não apresentam riscos de escape de vírus, são rápidos, não exigem equipamentos sofisticados, são realizados rotineiramente para outras doenças avícolas, apresentam baixo custo e detectam se a ave está infectada pelo vírus através da pesquisa de anticorpos. Há falhas de detecção no teste, como falsos-negativos, mas, mesmo assim, é melhor que usar apenas os aspectos clínicos, sintomas e lesões.
A comunicação de suspeita sem muita fundamentação, gerando notificação com a aplicação das medidas previstas que são severas poderia levar à sonegação de notificações e deixar o inimigo entrar e se instalar livremente. Assim falhou a Alemanha durante a Segunda Grande Guerra na detecção da entrada das tropas aliadas na costa Francesa e perdeu a guerra.
Edir Nepomuceno da Silva 20/10/2005
Professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
Diretor da Facta (Fundação Apinco de Ciência e Tecnologia Avícolas)





















