A falta de crédito para financiar a produção e a posição de governos estrangeiros também são dificultadores.
Exportadores querem derrubar barreiras e melhorias nos portos
Redação (22/01/2009)- Os exportadores brasileiros de carne suína têm uma meta ousada em curto prazo: passar do atual quarto posto entre os principais mercados exportadores para a primeira ou segunda colocação, superando Estados Unidos e União Europeia. Entretanto, o setor produtivo no País ainda sofre com a barreira sanitária para exportação da carne. Muitas nações ainda não confiam no tratamento sanitário dado pela produção nacional e nem consideram a possibilidade de negociar com os brasileiros. Os portos nacionais também são um obstáculo para a movimentação da carne, que encontra espaço físico limitadíssimo para armazenagem em Itajaí (SC), o principal porto exportador.
A falta de crédito para financiar a produção e a posição de governos estrangeiros, como o da Coréia do Sul, país que é grande comprador da mercadoria e se recusa a iniciar entendimentos com o Brasil, também são dificultadores. Mas a Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs) está otimista e indica como trunfos a dimensão continental e as excelentes condições climáticas que permitem produzir grão para ração com grande competitividade.
O presidente da entidade, Pedro de Camargo Neto, recebeu a reportagem de PortoGente em seu escritório e afirmou, com exclusividade, que o aumento das exportações do País se dará pela conquista de novos mercados. Para isso, é essencial que o governo brasileiro garanta aos demais países que a produção nacional está livre de focos de febre aftosa e de outras doenças.
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Na primeira parte desta entrevista, Camargo Neto também fala sobre o potencial da produção na região Centro-Oeste do Brasil e de como a crise global afetou o setor. Ele capitaneia um segmento que exportou US$ 1,48 bilhão em 2008 e que teve crescimento de 20% em relação ao ano anterior. Segundo o presidente, os preços altos obtidos durante o ano foram responsáveis por esse resultado. No entanto, precisa haver uma recuperação no volume enviado ao exterior, já que registrou-se uma queda de 77 mil toneladas em relação ao recorde de 2007.
Na próxima terça-feira (27), PortoGente publicará a segunda parte da conversa exclusiva com Camargo Neto, abordando as principais reivindicações a iniciativas dos produtores e exportadores da carne de porco.
PortoGente: Qual é a principal região produtora de carne suína no País?
Pedro de Camargo Neto: A produção ainda é bastante concentrada nos três estados do sul, mas há uma tendência forte de crescer no Centro-Oeste. Em Goiás e no Mato Grosso, principalmente, a gente vê um aumento de capacidade instalada, até porque a região Sul está bastante saturada. O aumento que ocorreu no Sul recentemente foi de produtividade. Agora, aumentar o numero de matrizes no Sul a gente vê com bastante dificuldade.
PortoGente: E por que a região Sul concentra a maior parte da produção?
Camargo: Para se destacar, primeiro precisa ter o produtor, o homem. Mas precisa também ter o milho e a soja, a comida do suíno. O Sul é uma região produtora de grãos. A tendência é a produção ir atrás do grão e o grão hoje está no Centro-Oeste.
PortoGente: E por onde essa carga é escoada para o exterior?
Camargo: O resultado de a produção estar nos três estados do Sul é que o grande porto nosso é Itajaí. Temos bastante movimentação em Rio Grande e Paranaguá. Já em Santos, a grande movimentação é de carne bovina, até porque o boi não está no Sul, está no Centro-Oeste. Com o aumento da produção [naquela região], a carne suína vai começar a aparecer em Santos.
PortoGente: Atualmente, o Brasil é o quarto maior exportador de carne suína do planeta. Qual a perspectiva em curto prazo: É possível ultrapassar superar os atuais maiores exportadores?
Camargo: A gente tem uma perspectiva muito boa em termos de exportação. A carne suína tem tudo para crescer no Brasil e passar para o primeiro ou segundo lugar [ocupados por Estados Unidos e União Europeia]. Vejo isso como uma possibilidade muito concreta e muito próxima. A Abipecs trabalha para que a carne suína se iguale à carne de aves e à carne bovina brasileira, que estão sempre nos dois primeiros lugares. A gente acredita que será possível estar no primeiro ou no segundo lugar num prazo até breve.
PortoGente: E o que é necessário para esse aumento nas exportações?
Camargo: Para conseguir fazer isso, haverá aumento de produção e de exportação. A demanda será sempre por Itajaí, que é muito atravancado. É um porto que tem capacidade geográfica limitada. Falta espaço para armazenagem. A exportação exige área física maior. Sempre há contêineres esperando no porto para acertar burocracia de natureza fiscal, então falta espaço físico. A operação é muito delicada em Itajaí. E os contêineres não abrigam só carne suína.
PortoGente: A maior parte da movimentação é feita por meio de contêineres? Ainda há peças de carne enviadas de outras formas ou a granel?
Camargo: Ainda tem, mas é muito pouco. A tendência é que tudo seja movimentado por contêineres, assim como outras cargas, pois facilita para vários tipos de cortes. Quanto mais elaborado o produto, o normal é movimentar por contêineres. E a perspectiva é de trabalharmos com cortes cada vez mais elaborados.
PortoGente: E se mais da metade das carnes enviadas ao exterior passam por Itajaí, vocês devem ter tido perdas com a catástofre climática que atingiu a região…
Camargo: Teve um prejuízo sim, pois pegou todo mundo de surpresa. Depois a situação se acomodou e Itajaí retomou os embarques em parte. Mas coincidiu com a crise financeira global e as exportações por tonelada se reduziram.
PortoGente: E vocês detectam a necessidade de uma melhora no sistema portuário brasileiro?
Camargo: Hoje, você não está pressionando os portos como pressionava antes, pois o volume de comércio é menor do que já foi, resultado da crise global. Quando a economia se restabelecer e a gente atacar o aumento das exportações, a situação vai apertar. A gente não exporta mais carne suína hoje porque os principais mercados ainda estão fechados para o Brasil, devido à febre aftosa e a barreiras sanitárias. O Brasil vai derrubar essas barreiras sanitárias e na hora em que derrubar a barreira, porque estamos melhorando a qualidade com sanidade, vai crescer nas exportações.
PortoGente: E o que é preciso para derrubar essas barreiras?
Camargo: Antes de tudo, é preciso ter sanidade no Brasil. Ainda tem um foco aqui, outro lá, mas melhoramos muito. Depois de melhorar internamente, é preciso convencer os países estrangeiros que melhoramos internamente.
PortoGente: Alguns governos estrangeiros, capitaneados pela Coréia do Sul, se recusam a iniciar entendimentos com o Brasil. Como é essa relação?
Camargo: Alguns são difíceis, mas a gente as vezes têm falhas. Isso é ruim, embora agora já estamos alguns anos sem foco, estamos num bom momento de sanidade. Mas o processo é lento. A gente acha que se continuarmos sem nenhum incidente, devemos abrir novos mercados.





















