Câmbio será “pedra no caminho” do campo brasileiro em 2010. Depreciação do dólar reduz a rentabilidade da produção e prejudica as exportações.
Nó cambial aperta agronegócio
São nebulosas as perspectivas para o agronegócio brasileiro em 2010. Não por causa da demanda pelos produtos do setor, que mesmo depois do aprofundamento da crise financeira irradiada a partir dos Estados Unidos, em setembro de 2008, mostrou-se relativamente firme nos mercados doméstico e externo e tende a continuar assim no ano que vem. As incertezas vêm dos preços de algumas commodities, que poderão recuar com a recomposição da oferta, e, sobretudo, do câmbio, que coloca a manutenção da rentabilidade das atividades produtivas como o grande desafio no País, superando até mesmo as regras ambientais mais restritivas que estão em discussão no Congresso Nacional.
“O câmbio e as restrições ambientais são as ‘paredes’ que estão esmagando o setor”, afirmou André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult, em reunião do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), realizada ontem (03/11) na sede da entidade, na Avenida Paulista. Se a “parede” ambiental tem pela frente algumas camadas de reboco político antes de ser concluída – e há espaço suficiente no Brasil para comportar uma expansão ordenada e sustentável da agropecuária -, a cambial já provoca estragos e não há sinais concretos de refresco no curto prazo, ainda que a taxa de juros em algum momento tenha que voltar a subir nos Estados Unidos.
Nesse contexto geral, a cadeia que mais preocupa os especialistas é a da soja, carro-chefe do agronegócio brasileiro tanto em renda agrícola (“da porteira para dentro”) quanto na exportação. E preocupa porque, dos principais grãos negociados no mundo, a soja é aquele que deverá apresentar a maior elevação da oferta mundial na safra 2009/10, em fase de colheita no Hemisfério Norte e de plantio no Hemisfério Sul. Em relatório divulgado em outubro, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) previu uma produção global de soja de 246,07 milhões de toneladas em 2009/10, 35,4 milhões a mais que em 2008/09. De acordo com o USDA, os estoques finais globais aumentarão 30,3%, para 54,8 milhões de toneladas.
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“Os EUA deverão ter uma produção recorde de 88,5 milhões de toneladas, segundo o USDA, e o volume só não vai superar 90 milhões pelos atuais problemas na colheita do país, provocados pelas chuvas”, disse Pessôa. Além disso, lembrou, a Argentina, que amargou séria quebra climática em 2008/09, deverá produzir mais de 50 milhões de toneladas pela primeira vez na história no ciclo atual, e no Brasil as projeções também apontam para um crescimento de 5 milhões de toneladas, para cerca de 62 milhões. “Mas é um ano de El Niño, e existe a possibilidade de os aumentos na Argentina e no Brasil ficarem comprometidos pelo excesso de chuvas”.
Trata-se de um quadro considerado “baixista” para os preços, apesar de as perspectivas apontarem para um aumento da demanda mundial em 2009/10 – de menos de 12 milhões de toneladas, conforme o USDA. Nada capaz de devolver as cotações à média histórica na bolsa de Chicago, mas capaz, sim, de prejudicar bastante a rentabilidade dos produtores. Hoje em torno de US$ 10 por bushel na bolsa de Chicago, os contratos futuros do grão deverão cair para entre US$ 8,50 e US$ 9 no cenário mais provável traçado por Pessôa, ante uma média histórica de US$ 6.
Em Mato Grosso, por exemplo, esta queda, em um ambiente de contínua depreciação do dólar em relação ao real – o setor projeta a moeda americana entre R$ 1,60 e R$ 1,70 em 2010 -, pode reduzir a rentabilidade dos sojicultores para menos de R$ 160 por hectare, em média, sendo que em 2008/09, segundo a Agroconsult, o valor foi três vezes maior. É verdade que os custos da nova temporada agrícola estão 20% menores, de acordo com a consultoria, mas é uma margem considerada pequena para encarar um cenário de incertezas.
Para o milho, cujo o aumento da produção global tende a ser tímido (1,26 milhão de toneladas, para 792,5 milhões, segundo o USDA), o horizonte é menos sombrio, até porque o consumo deverá superar um pouco a demanda, fator “altista” para os preços internacionais. Mas a produtividade dos EUA, maior produtor mundial, é crescente na última década, tem compensado a demanda adicional para a produção de biocombustíveis e qualquer valorização enfrenta limites. E o Brasil, que poderia voltar a incrementar as exportações depois de dois anos de volumes apenas razoáveis, dificilmente terá um câmbio atraente para aproveitar eventuais “janelas” no exterior.
Também por isso, o Brasil começa a plantar sua menor área de milho no verão desde a década de 60, como destacou André Pessôa, e jogou para a safrinha de inverno do ano que vem a responsabilidade de evitar escassez no abastecimento doméstico, sempre com a ressalva de que se trata de um ano de El Niño. Segundo a Agroconsult, 2009 começou com estoques de milho suficientes para 76 dias de consumo doméstico; em 2010, o “colchão” deve cair para 57 dias, ainda um intervalo razoável.
O nó cambial que aperta o agronegócio brasileiro não é tão fácil de ser desatado porque reflete movimentos macroeconômicos globais bem maiores que o setor, que também se refletem nos preços das commodities. É um pouco do velho “buy commodities, buy Brazil”, como realçou Alexandre Mendonça de Barros, pesquisador dos núcleos de agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (GVagro) e da MB Associados (MB Agro). Grandes fundos de investimentos elevaram suas apostas nas commodities para fugir dos riscos derivados das incertezas globais, em um movimento – “altista”, como se viu, por exemplo, no balanço de preços internacionais de outubro – que também privilegia o Brasil, grande produtor de commodities e onde o debacle financeiro causou problemas bem mais modestos do que nos Estados Unidos ou na Europa.
Mendonça de Barros observou que, apesar da tendência de retração da soja e de custos em geral, para a carne bovina do Brasil, maior exportador mundial do produto, o caminho também deverá ser tortuoso, novamente por causa do câmbio. Levantamento da Scot Consultoria mostra que a arroba do boi gordo brasileiro já subiu 23% em 2009 em dólar, o que já a torna mais cara no exterior do que a argentina, a uruguaia e a australiana. “A arroba está em torno de US$ 45, ante cerca de US$ 30 na Argentina e no Uruguai. Ou seja, a carne brasileira ficou cara no mercado internacional, que não paga esse preço”, disse Mendonça de Barros na Fiesp.
Ele lembrou que, com as restrições impostas pela União Europeia à carne brasileira, ainda por conta de casos de febre aftosa no País no fim de 2005, os principais mercados para a carne brasileira no exterior hoje são para cortes mais baratos. É o caso da Rússia, que também limita, com cotas, a entrada dos cortes do Brasil. “Os volumes de exportação não estão ruins, mas no padrão carne barata para países pobres”, afirmou. Mais ou menos o mesmo raciocínio vale para a carne suína.
No calor paulistano de ontem, a boa notícia do evento da Fiesp ficou, é claro, para o fim. Depois de passar pelas perspectivas para o café, também alvo de boas apostas especulativas na bolsa de Nova York e com estoques em elevação no Brasil, e pelo suco de laranja, que poderá registrar valorizações caso o consumo nos EUA e na UE volte a aumentar, Mendonça de Barros apontou o setor sucroalcooleiro como o de horizonte mais positivo no ano que vem. Também na mira dos fundos de investimentos em Nova York, a commodity praticamente dobrou de preços no último ano, sobretudo em virtude de uma drástica redução da oferta da Índia. “Único a compensar o câmbio, o açúcar permitiu que as usinas pudessem comercializar melhor seu etanol, combustível que ainda encontra nas vendas de carros flex demanda crescente.





















