A situação da empresa se agravou após a frustrada tentativa de joint venture com o frigorífico Quatro Marcos, em junho deste ano.
Margen fecha as portas e comunica demissões
Redação (05/09/2008)- Em dificuldades financeiras há quase um ano, o frigorífico Margen suspendeu as operações em suas 16 unidades de abate de bovinos no país e deu aviso prévio ontem a 3.500 de seus 5 mil funcionários. A razão para a medida extrema foi a "falta de liquidez", disse Adalberto Silva, diretor administrativo do Margen. "O mercado está muito ruim para a atividade, e os bancos restringiram o crédito. Não adianta continuar do jeito que está, só tendo despesa".
A agonia do Margen começou no primeiro semestre deste ano, reflexo da escassez de boi e da disparada dos preços da arroba no mercado nacional. Mas a situação se agravou ainda mais após a frustrada tentativa de joint venture com o frigorífico Quatro Marcos, em junho deste ano, operação pensada exatamente para enfrentar o mercado adverso.
O negócio, que criaria a Uni Alimentos, durou apenas dez dias. Uma das razões para o fim prematuro da joint venture, segundo apurou o Valor à época, foi a preocupação das duas empresas de que pudessem ser responsabilizadas por alguma atividade ou operação da outra.
Leia também no Agrimídia:
- •Sem luz na infância, hoje à frente de um império de R$ 2,4 bilhões: a mulher que comanda gigante da carne suína em Santa Catarina
- •Fórum Estadual de Influenza Aviária reúne setor avícola para discutir prevenção e biosseguridade no RS
- •Conflito no Oriente Médio pressiona custos e ameaça rotas do comércio global de frango
- •Peste Suína Africana avança na Catalunha e acende alerta sanitário em Barcelona
Das 16 unidades que foram fechadas (ver mapa) pelo Margen, quatro já estavam paralisadas desde meados de agosto. "Estamos sem caixa para pagar o boi", afirmou Silva. Segundo ele, apenas os centros de distribuição e as unidades de produção de charque continuarão operando, assim como a criação de suínos em Goiás. "Devemos ficar fechados até o fim do ano", previu.
O plano do Margen, agora, é "vender algumas das unidades" para "pagar o que deve". O diretor disse que já há empresas "olhando" as plantas da companhia, cuja sede é em Rio Verde (GO). Das 16, seis são arrendadas e serão entregues aos proprietários, segundo o executivo.
Além das unidades de bovinos, o Margen também já tinha suspendido a operação em duas plantas de abate de suínos em Goiás e no Mato Grosso do Sul.
Silva não disse qual o valor atual das dívidas do Margen com pecuaristas e outros fornecedores. Além desses débitos, o Margen tem uma dívida de R$ 153 milhões contraída em julho do ano passado por meio da emissão de Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCAs). Os credores do Margen nesse caso são os fundos Oppenheimer e QVT Fund, e o vencimento é julho de 2010. A emissão foi estruturada pelo Morgan Stanley, que comprou os papéis para seu Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). Segundo Silva, a empresa ainda negocia com os credores mais prazo para pagar essa dívida.
Com a falta de capital de giro, o Margen passou operar com ociosidade muito elevada, com abate na casa de 30%. Nas 16 plantas, a capacidade instalada é de 10 mil cabeças por dia.
Nesse quadro, a empresa que teve receita bruta de R$ 1,5 bilhão ano passado, sofreu uma queda brusca em seu faturamento, de acordo com Silva.
Ele afirma que a intenção da companhia é readmitir funcionários à medida em que o Margen conseguir reabrir unidades.
Desde abril, a empresa vem reduzindo seu quadro de funcionários e as operações em suas unidades por conta da escassez de boi e também das restrições que a União Européia impôs à carne bovina brasileira no começo do ano. O Margen tinha, em abril, 7 mil empregados, mas veio demitindo até chegar a 5 mil – número que agora será reduzido a 1,5 mil, informou Silva.
O Margen não é o único afetado pelo mercado adverso para a carne bovina. Todos as empresas do setor enfrentam hoje margens ainda mais apertadas por conta da alta dos custos do boi.
Especialistas também apontam má gestão dos negócios e gerenciamento ruim dos custos como uma das razões para a crise no Margen, que há quase quatro anos foi alvo da Operação Perseu, da Polícia Federal. Na ocasião, sócios e diretores da empresa foram presos – e posteriormente liberados – sob a acusação de sonegação de R$ 150 milhões em tributos federais, estaduais e municipais e em dívidas com o INSS.
Outra avaliação é de que o modelo de operações do Margen também contribuiu para a derrocada. Com várias unidades pequenas espalhadas pelo país, o Margen foi prejudicado com a escassez de animais no mercado, pois não conseguiu ter ganhos de escala e viu seus custos fixos aumentarem. "Esse é um modelo que funciona bem se houver matéria-prima em abundância", observou um analista. Além da disparada dos preços do boi, a alta do real ante o dólar também afetou as empresas que exportam, como o Margen, acrescentou.
E a empresa – dos empresários Mauro Suaiden e Geraldo Prearo – não deve ser o única a sofrer os efeitos da oferta mais ajustada de animais para abate no país. Hoje, a capacidade instalada de abate no Brasil é estimada em 70 milhões de cabeças por ano. No entanto, a projeção é de que haja abate efetivo de 36 milhões de animais. "Mais frigoríficos terão de ser fechados no país", previu um especialista, que prefere o anonimato.





















