Sob ameaças de boicote em votações no Congresso e forte pressão política, o governo vai ceder, pela segunda vez na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aos apelos do setor rural por uma nova renegociação das dívidas agrícolas.
Rolagem de dívidas novamente em foco
Redação (05/07/07) – Em jogo, está a rolagem de pelo menos R$ 38,4 bilhões em débitos com vencimento neste ano ou já repactuados a partir de 1995. Além disso, as negociações abrangem rolagens de R$ 20,5 bilhões em dívidas de custeio, comercialização e investimento já prorrogadas desde a safra 2003/04, que vencem a partir deste mês de julho.
As negociações estão arrastadas. O governo concedeu uma "moratória" até 31 de agosto para resolver a questão. Na segunda rodada de negociação, ontem, o Ministério da Fazenda ofereceu ao setor a prorrogação das dívidas de investimento para o fim dos contratos, com percentuais diferenciados por programas, Estados e culturas específicas.
Estima-se um total de R$ 5,2 bilhões com vencimento em 2007. Para as dívidas de aquisição de máquinas (Moderfrota e Finame Agrícola Especial) e de cooperativas (Prodecoop), o governo ofereceu a rolagem de 60% para produtores de algodão (GO, BA, MT e MS), soja (DF, GO, MT, MS, BA, MA e PI), milho ( MT, GO, MS e BA) e arroz (RS, SC e MT). Os demais teriam apenas 20% da dívida repactuada.
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Para os outros programas (Pronaf Investimento, Moderinfra, Moderagro, Prodeagro, Prodefrutas, Prolapec e PropFlora), ofereceu a prorrogação de 70% para os produtores dos mesmos Estados e culturas e de 30% para os demais. Além disso, o governo manteve o bônus por adimplência de 15% sobre a parcela de 2007, o que resultaria num desconto de 3% sobre o saldo devedor. Quem não pagasse em 2007, não teria esse bônus.
Muito insatisfeitos com as soluções oferecidas pelo governo, os ruralistas ameaçam barrar a votação da renovação do chamado imposto do cheque, a CPMF, que deve render ao Tesouro R$ 39 bilhões neste ano. "Se não houver acordo, a bancada ruralista vai dificultar as discussões e obstruir as votações da CPMF. Não tem conversa", afirmou o deputado Abelardo Lupion (DEM-PR), presidente da subcomissão que discute o endividamento rural com o governo. A proposta feita ontem à noite pela Fazenda.
A tensão entre ruralistas e governo remonta à grave crise de renda registrada no segmento de grãos a partir do fim de 2004. O setor considera ter sido preterido nas negociações, mesmo com as rolagens de dívidas de custeio e investimentos que implicaram num custo estimado em R$ 10 bilhões ao Tesouro ao longo de dez anos. Antes, no mandato de Fernando Henrique Cardoso, o setor foi brindado com um alongamento de 24 anos para dívidas até R$ 200 mil (securitização) e de 20 anos para débitos acima desse teto.
Neste ano, as divergências voltaram à tona e aumentaram as pressões das bases eleitorais dos parlamentares por uma "solução definitiva". Os ruralistas exigem agora uma "medida sistêmica de longo prazo" como a criação de um programa de parcelamentos de débitos. A adoção de um "Refis Agrícola", semelhante ao programa lançado em 2000 para refinanciar dívidas fiscais com a União, rolaria débitos de produtores no longo prazo – o Refis previu máximo de 15 anos -, com um recálculo das dívidas, juros baixos (TJLP), sem necessidades de garantias reais adicionais e parcelamento dos débitos com um percentual máximo de comprometimento da renda bruta, além da suspensão das execuções judiciais por inadimplência pelo governo.
Em audiência pública na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, dirigentes dos bancos privados e do Banco do Brasil mostraram um cenário das dívidas rurais. O BB detém um estoque de R$ 44,5 bilhões e os bancos ligados à Febraban, outros R$ 40,2 bilhões. O estoque total das dívidas do setor somam R$ 131 milhões, segundo levantamento do Ministério da Fazenda. O diretor de Agronegócios do BB, José Carlos Vaz, afirmou aos parlamentares que o banco prorrogou R$ 8,4 bilhões em dívidas de custeio e investimento entre 2004 e 2006.
Responsável por uma fatia de 55% de todo o crédito rural do país, o BB afirmou ter 1,4 milhão de clientes no setor e um carteira de R$ 64,5 bilhões. O assessor técnico da Febraban, Ademiro Vian, informou que as prorrogações no sistema financeiro privado somaram R$ 1,64 bilhão no mesmo período. Desse total, R$ 301 milhões estão em atraso. Os bancos privados têm um nível de risco bastante razoável.
Segundo Vian, 77,3% dos clientes do agronegócio estão classificados entre os níveis "AAA" e "B" de risco de crédito. As instituições financeiras ligadas à Febraban têm uma carteira de R$ 3,31 bilhões em empréstimos com recursos das exigibilidades – a parcela de 25% que os bancos são obrigados a aplicar no setor rural. Desse total, apenas R$ 31,04 milhões estão em situação de atraso.





















