Acredita-se que, no futuro, o sistema será uma exigência generalizada nos mercados externo e interno e que a recompensa para quem está ajustado desde já virá na forma de melhores preços recebidos da indústria.
Rastreamento, um caminho sem volta
Dono da Cabanha dos Tapes, localizada entre os municípios gaúchos de Tapes e Arambaré, a cerca de 120 quilômetros ao sul de Porto Alegre, Wolf tem 958 cabeças de gado, todas rastreadas e a maior parte da raça angus. Nos últimos dias ele viveu a tensão comum a todos os pecuaristas desde a imposição do embargo à carne brasileira, no início de fevereiro, e depois a frustração de ficar de fora da lista das 13 propriedades gaúchas a serem vistoriadas pelos técnicos da UE, de onde já foram selecionadas onze das 106 fazendas reabilitadas em cinco Estados.
"Que é desestimulante [ficar de fora da lista], é, mas de que adianta ficar tenso?", indaga. Para ele, até o fim do ano todas as propriedades que têm o certificado ERAS (Estabelecimento Rural Aprovado pelo Sisbov, o sistema de rastreamento do governo federal) deverão estar habilitadas a vender para a Europa porque os europeus precisam da carne barata e de boa qualidade do Brasil. "É uma questão de respeito ao produtor". Conforme o diretor técnico da Superintendência do Ministério da Agricultura no Rio Grande do Sul, José Euclides Severo, até quinta-feira havia 1.656 fazendas certificadas no Estado, com cerca de 1 milhão de animais no total.
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O número ainda é pequeno diante do total de 350 mil propriedades gaúchas e do rebanho de 13,3 milhões de cabeças, mas está avançando rapidamente. No início de janeiro havia 547 fazendas com ERAS no Estado, das quais 467 foram selecionadas para a primeira lista, de 2.681 em todo o país, que foi encaminhada pelo governo federal e rejeitada pela União Européia no fim de janeiro. Mas, nos dois últimos meses, houve uma forte migração de produtores que haviam aderido ao antigo Sisbov (implantado em 2002 e que permitia que apenas parte dos animais fosse rastreada) para o novo sistema, no qual toda a propriedade é certificada.
Com o certificado número três do Estado, obtido ainda em dezembro de 2006, Wolf é um veterano da turma. Ele começou a rastrear os animais em 2002 e no início chegou a receber 10% a 11% a mais dos frigoríficos pela carne diferenciada. Depois, com o aumento do número de propriedades integradas ao sistema, o prêmio foi desaparecendo gradativamente, mas o pecuarista acredita que depois de resolvido o imbróglio com a União Européia a diferença será restabelecida aos poucos em função da demanda pelo produto. Hoje ele recebe cerca de R$ 4,70 pelo quilo-carcaça, contra R$ 4,60 pagos pela carne não rastreada, afirma.
Para Wolf, no fim das contas os produtores gaúchos tiveram até sorte, porque o embargo europeu coincidiu com um período de ajuste entre oferta e demanda de carne no Estado, o que permitiu ao setor resistir às "pressões" dos frigoríficos por reduções de preços. "Não vai sobrar boi no pasto". Conforme o produtor, depois da seca de 2004/05, quando houve abates de matrizes em grande escala no Rio Grande do Sul, só agora a produção de terneiros está retomando o ritmo normal. "Esses animais estarão prontos em 2010, 2011, e se o embargo fosse nesse período é que seria um problema sério".
Segundo o pecuarista, o maior impacto da introdução da rastreabilidade não é o custo. Um boi vendido por R$ 1 mil exige um investimento de aproximadamente R$ 5 com o sistema, incluindo os brincos de identificação com os números de registro para acompanhamento do histórico genético e sanitário de cada animal e os bottons de segurança com as mesas informações, além dos R$ 600 pagos à certificadora pelas vistorias semestrais de revalidação do certificado. A transformação mais significativa imposta pelo novo Sisbov é operacional, a partir da introdução de controles mais rígidos, da mudança da rotina na propriedade e da necessidade de melhor qualificação dos funcionários.
"O tempo para carregar 30 cabeças rastreadas é o mesmo que se levava para embarcar 100 não rastreadas", afirma. "Demora mais porque tem que verificar cada brinco e ver se está tudo certo", reforça o capataz Orvandil de Freitas Munhoz, o "Vandico". Ele comanda uma equipe de oito funcionários e é o responsável pelo registro de todas as ocorrências com o rebanho no campo, incluindo a alimentação e as medicações aplicadas, o nascimento, a entrada e a saída dos animais na propriedade, e, às vezes, precisa até recorrer a baldes e esfregões para limpar os brincos e conferir os registros corretos de cada um.
As anotações feitas por Vandico são consolidadas pela esposa de Wolf, Mariana, no Livro de Registro da Propriedade, que armazena a história de cada animal na fazenda. São três vias de cada formulário. Uma fica na propriedade, outra vai para a Inspetoria Veterinária da Secretaria da Agricultura do Estado e a terceira, para a certificadora Planejar, que é a encarregada de introduzir as informações da Cabanha dos Tapes no banco nacional de dados do Sisbov, do Ministério da Agricultura.
Segundo Mariana, no caso da alimentação e da aplicação de medicamentos, os registros são feitos por lotes de animais. Quando se trata de nascimento, compra, venda, sacrifício ou morte acidental, as anotações são individuais: um terneiro nascido na fazenda deve ser lançado no Sisbov até o desmame ou no máximo em dez meses, enquanto as demais movimentações devem ser informadas em até 30 dias. Conforme Severo, da Superintendência do Ministério da Agricultura, em geral o processo não leva tanto tempo, mas costuma demorar mais de dez dias, o que já pode comprometer a confiabilidade dos dados. "Se todas as etapas fossem informatizadas, levaria dez minutos", compara.
O problema, de acordo com Wolf, é que o tempo transcorrido entre os registros das ocorrências em cada etapa do processo pode acabar permitindo que haja diferenças entre as informações mais recentes armazenadas na propriedade e aquelas depositadas no banco de dados do Sisbov, o que já é suficiente para descredenciar uma fazenda como exportadora para a União Européia. Também há a possibilidade de erro humano no lançamento de informações em cada uma das etapas, o que pode levar à desclassificação de alguns animais ou de todo um lote como rastreados.
De acordo com a instrução normativa 17 do Ministério da Agricultura, de julho de 2006, que estabelece as normas operacionais do novo Sisbov e define a categoria de propriedade com certificação ERAS, por exemplo, o frigorífico exportador deve confrontar os dados do Documento de Identificação Animal (DIA), uma espécie de cédula de identidade que acompanha o exemplar com dados como data de nascimento, sexo e raça, com a guia de trânsito (GTA). Depois, deve checar a GTA com o sumário de animais a serem abatidos, gerados a partir do sistema do Sisbov.
Se o nome do produtor ou da fazenda identificado na guia não coincidir com o apontado no sumário, todo o lote será desclassificado. Se a desconformidade for em relação a outras informações como sexo, idade ou cumprimento de quarentena, a desclassificação vale para o animal individualmente. "O erro zero, como a União Européia está cobrando, é mais fácil de ser alcançado em propriedades com 69 cabeças em média, como na Europa; aqui, com mais de mil animais, é mais difícil", observa Wolf.
Para o produtor, a solução para evitar as divergências dos registros durante o todo o processo poderá vir com a substituição dos brincos pelos chips de identificação que são capazes de armazenar o histórico de cada bovino, mas isto ainda depende da disponibilidade dos microprocessadores em volume e custo compatíveis com o sistema do governo e a demanda atuais. Segundo o técnico da Planejar, Rogério Souza, os chips disponíveis no mercado custam em torno de R$ 6. Já um brinco e um bottom certificados e rastreados saem por aproximadamente R$ 3,50.





















