Entenda como a Ásia impacta o comércio global de proteínas, com foco nas exigências sanitárias e regulatórias no Brasil
Ásia redefine o comércio global de proteínas e amplia desafios estratégicos na revista Suinocultura Industrial de Fevereiro

O comércio internacional de alimentos atravessa uma fase de transformação estrutural, marcada pela crescente influência da geopolítica, pela busca por segurança alimentar e pela reorganização das cadeias globais de suprimento. Nesse novo cenário, a Ásia deixa de ser apenas um grande mercado consumidor e passa a ocupar papel central na definição de estratégias, regras e padrões que moldam o comércio global de proteínas animais.
Para o Brasil, um dos maiores exportadores mundiais de carne suína, compreender essa dinâmica tornou-se um fator estratégico. Países asiáticos — especialmente a China — concentram parcela significativa da demanda mundial por proteínas e exercem forte influência sobre exigências sanitárias, regulatórias e ambientais que impactam diretamente o comércio internacional.
A avaliação é de Larissa Wachholz, Senior Fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e coordenadora do Programa Ásia da instituição. Em entrevista à revista Suinocultura Industrial, a especialista analisa como o protagonismo asiático está redesenhando o comércio global e quais são os reflexos para a cadeia suinícola brasileira.
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Geopolítica e segurança alimentar moldam novo cenário do comércio de carnes
Segundo Wachholz, três fatores principais vêm redefinindo o comércio internacional de carnes: geopolítica, segurança alimentar e políticas industriais nacionais.
A China, maior importador mundial de proteínas, tem adotado uma estratégia de diversificação de fornecedores e fortalecimento da produção doméstica, com o objetivo de reduzir a dependência externa em alimentos considerados essenciais.
Nesse contexto, a capacidade de abastecimento torna-se um elemento estratégico. Nenhum país busca depender de importações para produtos que compõem a base alimentar de sua população, o que explica os investimentos chineses em autossuficiência produtiva.
Ao mesmo tempo, o crescimento econômico de países emergentes continua impulsionando o consumo global de carnes. Regiões com expansão de renda, especialmente na Ásia e no Oriente Médio, apresentam aumento na demanda por proteínas animais.
O setor também convive com desafios sanitários relevantes. Crises como a Peste Suína Africana, que afetou severamente o plantel chinês em anos recentes, e episódios de Influenza Aviária em diferentes países demonstram como eventos sanitários podem provocar mudanças bruscas nos fluxos comerciais.
Ásia concentra demanda e influencia decisões comerciais globais
Para Wachholz, o protagonismo asiático está diretamente ligado ao dinamismo econômico e demográfico da região. O crescimento da renda em países populosos estimula mudanças na dieta e amplia o consumo de proteínas.
Além disso, fatores estruturais limitam a expansão da produção local em vários países asiáticos, como escassez de água, restrições de áreas agrícolas e vulnerabilidade sanitária associada à alta densidade populacional.
Essas condições mantêm o comércio internacional de carnes como elemento essencial para o abastecimento regional e consolidam a Ásia como principal motor de crescimento da demanda global.
Segurança alimentar orienta estratégia chinesa para carne suína
Na China, a segurança alimentar é tratada como tema de soberania nacional. O país estabelece metas claras de autossuficiência para diferentes cadeias produtivas.
O 14º Plano Quinquenal, vigente entre 2021 e 2025, estabeleceu objetivos ambiciosos: autossuficiência total em aves e ovos, 95% em carne suína, 85% em carne bovina e ovina e 70% em leite e derivados.
Apesar dessas metas, a dimensão do consumo chinês mantém espaço relevante para importações. Mesmo pequenas proporções da demanda doméstica representam volumes expressivos no comércio internacional.
Nesse contexto, a carne suína importada desempenha função estratégica. Além de complementar a produção doméstica, ela é utilizada como instrumento para estabilizar preços internos, responder a crises sanitárias e evitar desabastecimento.
Oportunidades para o Brasil como fornecedor confiável
A necessidade chinesa de complementar sua produção cria oportunidades estruturais para países capazes de fornecer proteína em grande escala.
De acordo com Wachholz, o Brasil apresenta vantagens competitivas importantes, como custos de produção relativamente baixos, ampla disponibilidade de ração, bom status sanitário e capacidade de adaptação a protocolos internacionais.
Essas características permitem ao país consolidar sua posição como fornecedor confiável de médio e longo prazo, e não apenas como fornecedor emergencial em momentos de escassez.
A especialista também destaca a possibilidade de ampliar parcerias com empresas chinesas, inclusive com investimentos diretos e desenvolvimento conjunto de produtos voltados ao consumidor final, reduzindo a dependência de exportações de commodities.
Diversificação de mercados reduz riscos para o setor
Embora a China continue sendo um mercado central, Wachholz destaca a importância de ampliar a diversificação geográfica das exportações.
Em 2025, as Filipinas foram o principal destino da carne suína brasileira, seguidas por China, Chile, Japão e Hong Kong.
Esse movimento reforça a necessidade de manter uma estratégia comercial ampla, reduzindo a dependência de mercados específicos e ampliando as oportunidades de crescimento.
Barreiras comerciais e exigências sanitárias seguem como desafio
Tarifas, barreiras não tarifárias e protocolos sanitários continuam sendo fatores determinantes para o acesso aos mercados asiáticos.
Segundo Wachholz, muitos países buscam limitar a dependência externa de alimentos essenciais, o que naturalmente resulta na adoção de medidas de proteção comercial.
Nesse cenário, o Brasil precisa manter rigor sanitário elevado e diplomacia comercial ativa, elementos fundamentais para garantir acesso contínuo aos mercados internacionais.
Sustentabilidade ganha espaço nas exigências do mercado asiático
A agenda ambiental também passa a influenciar cada vez mais as decisões de compra e os padrões regulatórios na Ásia, especialmente na China.
O país tem intensificado políticas voltadas à redução de emissões de gases de efeito estufa e à produção agropecuária com menor impacto ambiental.
Embora essas exigências ainda estejam mais concentradas na produção doméstica, há expectativa de que critérios ambientais também passem a influenciar as importações.
Nesse contexto, Wachholz avalia que o Brasil pode transformar a sustentabilidade em vantagem competitiva, destacando os padrões ambientais da produção nacional junto aos consumidores asiáticos.
Estratégia de longo prazo exige coordenação entre setor público e privado
Para consolidar sua posição no mercado asiático, a suinocultura brasileira precisa fortalecer a coordenação entre governo e setor produtivo.
Enquanto o poder público atua na abertura de mercados e negociação de protocolos sanitários, cabe ao setor privado desenvolver estratégias comerciais que consolidem a presença brasileira nos destinos conquistados.
Entre as oportunidades apontadas pela especialista está o uso crescente de comércio eletrônico, especialmente em mercados como a China, onde plataformas digitais têm transformado o acesso dos consumidores aos alimentos.
Para Wachholz, compreender essas novas dinâmicas e adaptar produtos às preferências locais será decisivo para que o Brasil não apenas exporte carne suína, mas também amplie valor agregado e competitividade no mercado asiático.
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