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Economia

Brasil pode crescer até 4%

Para Carlos Langoni, da FGV, força do mercado interno deve garantir ao Brasil um crescimento de 3,5% a 4% neste ano e no ano que vem.

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A força do mercado interno deve garantir ao Brasil um crescimento de 3,5% a 4% neste ano e no ano que vem, acredita o ex-presidente do Banco Central Carlos Langoni, que vê um quadro de estagnação nos países desenvolvidos nos próximos anos, mas não de recessão profunda. Langoni não aposta num cenário externo tão adverso quanto o BC brasileiro, que trabalha com uma piora muito forte da economia global, a ponto de ter iniciado um ciclo de corte dos juros mesmo com a inflação acumulada em 12 meses acima do teto da meta, de 6,5%.

“A decisão do BC foi ousada e arriscada. Eu não teria cortado os juros em agosto. Esperaria até o fim do ano para ver também se a política fiscal será bem implementada”, disse ontem Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ele participou de um painel de discussões sobre risco sistêmico no Simpósio Econômico Global (GES, na sigla em inglês), na cidade de Kiel, na Alemanha. Promovido pelo Kiel Institute for the World Economy, o evento, que termina hoje, tem a FGV como um de seus parceiros.

Para Langoni, o quadro externo com que o BC trabalha depende de uma desaceleração mais forte da China, o que derrubaria os preços das commodities, ajudando a controlar a inflação no Brasil, e de uma crise no sistema bancário, com corte do crédito externo, medida que também teria um impacto desinflacionário. Langoni, contudo, não acredita num tombo muito forte das commodities, por considerar possível que a China continue a crescer na casa de 9%.

O economista tampouco aposta numa crise bancária de grandes proporções. Depois do que ocorreu em 2008, quando os EUA deixaram o Lehman Brothers quebrar, nenhum banco central vai cometer um erro semelhante, afirmou Langoni. O Banco Central Europeu tenderia a agir para evitar o colapso de bancos da zona do euro, e eventualmente os Tesouros dos países também atuariam para impedir um problema bancário de grandes proporções.

É por ter esse cenário em mente que Langoni aposta num default ordenado da Grécia. Para ele, os europeus vão primeiro ampliar o poder de fogo da Linha de Estabilidade Financeira Europeia (EFSF, na sigla em inglês), para impedir o contágio para outros países, garantindo liquidez para títulos da Itália e da Espanha. Isso abre espaço para um default ordenado da Grécia, que terá de reduzir fortemente o seu endividamento, afirmou Langoni.

Esse quadro é compatível com um longo período de baixo crescimento nos países desenvolvidos, acredita ele, algo como cinco anos ou até mesmo uma década. “Mas não deverá haver uma recessão profunda”, disse ele, o que explica a diferença de sua visão em relação ao do BC.

Apesar das críticas ao corte dos juros em agosto, Langoni não avalia que o regime de metas de inflação foi abandonado. Para ele, se o cenário externo não piorar de fato como o BC espera, ou se o aperto fiscal prometido pelo governo brasileiro não se concretizar, a autoridade monetária brasileira interromperá o ciclo de queda dos juros. Langoni aposta em mais dois cortes de 0,5 ponto percentual, o que levaria a Selic a 11% no fim do ano. “Não acho que o BC vai cortar os juros de modo irresponsável. Lula percebeu, e Dilma [Rousseff] logo perceberá, que a popularidade depende de inflação baixa”, afirmou. “Os programas sociais não teriam a mesma força com taxas de inflação elevadas. Forças políticas e econômicas vão levar o BC a manter postura conservadora.”

Sem apostar numa ruptura no cenário externo e acreditando na força do mercado de trabalho e no investimento, Langoni sente-se confortável para projetar um crescimento na casa de 3,5% a 4% em 2011 e 2012. Ele lembra que, no ano que vem, haverá um reajuste significativo do salário mínimo, de 14%, o que pode inclusive dificultar a queda da inflação.

No seminário do GES, Langoni defendeu o modelo de crescimento brasileiro, baseado em crescimento com distribuição de renda, algo que, segundo ele, não ocorre na China. Em 2012, o GES ocorrerá no Brasil, no Rio de Janeiro. A FGV foi convidada pelo Kiel Institute para ser a anfitriã e organizadora do seminário no país. O diretor-executivo da FGV Projetos, Cesar Cunha Campos, disse que o GES no Rio deverá ter um pouco mais de ênfase em mercados emergentes, com mais participantes da América Latina, China e Índia. O evento deverá ocorrer em outubro ou novembro do ano que vem.

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