Possibilidade de crescimento é grande se o país não desacelerar em demasia neste trimestre e se não ocorrer um evento de crédito na Europa ou uma desaceleração acima do esperado na China.
Brasil pode sustentar o crescimento em 2012
Diante da ameaça de contágio da crise internacional e do crescimento zero do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no terceiro trimestre ante o segundo trimestre com ajuste sazonal, os agentes econômicos se questionam sobre a margem de manobra e a viabilidade de o governo brasileiro estimular um ritmo de crescimento relativamente robusto para a economia em 2012. Este artigo apresenta dez argumentos com o intuito de enriquecer o debate:
1) Juros menores. No último consenso compilado pelo Banco Central (BC), em 2 de dezembro, o mercado ainda projetava uma Selic média de 9,88% para 2012. Já parece claro, no entanto, que a Selic poderá encerrar 2012 em 9,5% ou até mesmo abaixo disso. Entre as instituições com maior grau de acerto na projeção dos juros, o chamado Top 5, o consenso para a taxa Selic ao final de 2012 já se encontra em 9,5% e o mercado futuro tem apresentado viés de baixa.
Expansão da economia no próximo ano definirá salário mínimo de 2014, quando a presidente poderá tentar a reeleição
2) Reforço do crédito. No primeiro semestre de 2011, o governo adotou uma série de medidas para restringir o crédito e evitar o sobreaquecimento da economia e o descontrole inflacionário. Agora, essas restrições começam a ser desmontadas para impedir uma desaceleração muito acentuada da atividade econômica.
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Em 11 de novembro, foram reduzidas as exigências de capital dos bancos na concessão de empréstimos de até 60 meses. Em 30 de novembro, entre uma série de medidas, o governo reduziu de 3% para 2,5% a alíquota anual do IOF sobre crédito para pessoas físicas e zerou o IOF para investimentos estrangeiros em ações e em debêntures com prazo superior a quatro anos.
Além da discricionariedade para prorrogar ou aprofundar medidas como essas, o governo ainda pode reduzir parte dos depósitos compulsórios estacionados no Banco Central. Esses depósitos somam R$ 440 bilhões e sua eventual redução teria importante efeito multiplicador sobre a disponibilidade de crédito na economia.
3) Incentivos tributários. Aliado aos estímulos creditícios, o governo também pode ampliar ou prorrogar incentivos tributários visando reduzir o custo de produção e comercialização de determinados bens. Exemplos nesse sentido incluem as desonerações já anunciadas no âmbito do Programa Brasil Maior (têxteis, calçados, móveis e software) e a reintrodução de incentivos utilizados em 2008 (como a redução do IPI para a linha branca), além da ampliação de regimes tributários diferenciados para setores geradores de empregos (como a construção civil) ou que auxiliem na contenção da inflação (por exemplo, alimentos e etanol).
4) Empréstimos do BNDES. Até o momento, o Tesouro Nacional já captou R$ 30 bilhões da autorização para emitir até R$ 55 bilhões em títulos com o objetivo de financiar empréstimos concedidos pelo BNDES. Além da emissão complementar de R$ 25 bilhões, que pode ocorrer nas próximas semanas, o Tesouro poderá receber uma nova autorização para captar recursos adicionais para o BNDES ao longo de 2012, o que permitirá ao banco manter ou até mesmo acelerar seus desembolsos a fim de sustentar os investimentos.
5) Reajuste do salário mínimo. A partir de janeiro de 2012, o salário mínimo será elevado de R$ 545 para cerca de R$ 620 mensais. O reajuste (14% em termos nominais) será o dobro do concedido em 2011 e o maior dos últimos cinco anos. Isso reforçará a renda de trabalhadores e aposentados, podendo encorajar o consumo e auxiliar na contenção da inadimplência.
6) Obras de infraestrutura e novas concessões. Os cronogramas de execução das obras mais vitais para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 não estão sujeitos à crise internacional. Essas obras terão de ser aceleradas em 2012, independentemente da crise. O governo também tende a acelerar concessões voltadas a importantes gargalos na área de infraestrutura, principalmente portos, aeroportos e rodovias.
7) Eleições municipais. Submetidos à legislação eleitoral, que proíbe determinados tipos de gastos de julho em diante, e premidos pelo calendário a inaugurar suas obras antes de 7 de outubro, a maioria dos 5.565 prefeitos do país acelerarão seus projetos no primeiro semestre de 2012, quando o contágio econômico da crise internacional poderá se tornar mais evidente.
8) Investimentos estaduais. O governo federal já autorizou 17 dos 27 estados brasileiros a ampliarem em até R$ 37 bilhões seu endividamento com bancos e organismos multilaterais. Com isso, esses estados terão mais recursos para acelerar investimentos em obras voltadas à mobilidade urbana, saneamento e infraestrutura até 2013.
9) Estímulo fiscal. Se a crise internacional se agravar e todas as medidas anteriores se mostrarem insuficientes para sustentar a atividade econômica, o governo poderá, como último recurso, reduzir parcialmente o superávit primário de 3,1% do PIB almejado para 2012 e ampliar investimentos para estimular a economia.
10) Eleição presidencial de 2014. Se os argumentos econômicos acima não forem persuasivos o suficiente para ilustrar que o Brasil tem condições de sustentar o crescimento em 2012, eis um importante argumento político: como a legislação brasileira determina que o salário mínimo de um determinado ano seja reajustado pela variação da inflação do ano anterior acrescida à variação real do PIB de dois anos antes, o PIB de 2012 é que definirá o tamanho do reajuste real do salário mínimo em 2014. Ou seja, o crescimento da economia brasileira no ano que vem será um importante determinante do bem-estar dos eleitores em 2014, quando a presidente Dilma Rousseff poderá tentar sua reeleição.
Em síntese, diferentemente das dificuldades que a maioria dos países desenvolvidos enfrentará, em 2012 o Brasil terá mecanismos para sustentar um crescimento semelhante ou até mesmo superior ao de 2011. Esse objetivo poderá ser alcançado mais facilmente se o país não desacelerar em demasia no último trimestre de 2011 e não ocorrer um evento de crédito na Europa ou uma desaceleração acima do esperado na China.
Alexandre Marinis é economista pela USP e sócio da consultoria Mosaico Economia Política, pós-graduado em Política Pública e Administração de Empresas pela Georgetown University (Washington, D.C., EUA).





















