A China, anfitriã dos encontros do G20 neste ano, tornou-se a principal compradora de produtos agropecuários do mundo e é o país que hoje demonstra maior interesse no Brasil
Velhas e novas agendas da agricultura global – Por Marcos Sawaya Jank

Recém-empossado, o ministro Blairo Maggi fez bem em escolher o encontro dos ministros da Agricultura do G20 em Xian, na China, como sua primeira missão internacional. A China, anfitriã dos encontros do G20 neste ano, tornou-se a principal compradora de produtos agropecuários do mundo e é o país que hoje demonstra maior interesse no Brasil.
Apesar dos esforços para aumentar a produtividade, a dependência externa da China vem crescendo. Sua presença na África e na América Latina aumenta a cada dia. A China começa a migrar para uma visão de “segurança alimentar estratégica orientada para o mercado”, que vai substituir o mantra secular da “autossuficiência a qualquer custo”, com imenso impacto sobre a organização futura das cadeias produtivas do agronegócio brasileiro.
Vivemos em um mundo cada vez mais interconectado pela internet e pela globalização. Novos vetores surgem a cada dia: redes internacionais de varejo, marcas globais, conveniência, integração de cadeias produtivas, multinacionais de países em desenvolvimento, máquinas e insumos extraordinários, menos produtores com maiores escalas, mudanças climáticas, bem-estar animal, biotecnologia, rastreabilidade, saúde e segurança dos alimentos.
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Um evento que reúne os maiores países do mundo, sediado no país que mais demanda agricultura, deveria produzir resultados de grande impacto. Ocorre, porém, que grandes foros internacionais como o G20 parecem estar desconectados da velocidade que o mundo tomou. Fiquei com a nítida impressão de que a agenda das organizações internacionais praticamente não mudou desde os anos 80, quando comecei a acompanhar o tema.
É certo que houve uma multiplicação de programas com siglas exóticas –o documento cita 15 iniciativas– que alimentam grandes burocracias, mas são desconhecidas pela grande maioria dos produtores e empresas do agronegócio.
Notei que alguns erros conceituais continuam firmes e fortes. Por exemplo, o documento diz, corretamente, que a solução para a segurança alimentar nasce do incremento da inovação e da produtividade agrícola. Surgem daí dezenas de programas voltados para a transferência de tecnologia para pequenos produtores, principalmente na África. Porém, transferência de tecnologia sem organização da cadeia produtiva e acesso a mercados raramente cumpre o seu objetivo. Pouco ou nada se falou sobre o papel que os demais agentes da cadeia agroalimentar exercem sobre o produtor. Ganhos de produtividade dependem de relações e contratos sólidos entre agricultores e indústrias de máquinas e insumos, de um lado, e processadores e distribuidores, do outro.
O segundo equívoco é não considerar o comércio internacional como uma solução efetiva para a inovação e o desenvolvimento sustentável. Segurança alimentar é um tema que não pode se limitar às fronteiras nacionais. Ao fazê-lo, os países condenam os seus consumidores a comprar produtos mais caros e de menor qualidade e a falta de competição faz com que a inovação não ocorra na velocidade desejável. Além disso, o fechamento seletivo das fronteiras impede o melhor uso dos recursos naturais do planeta, já que a maior parte da população se concentra em regiões cujos recursos naturais estão se exaurindo.
O terceiro encontro dos ministros da Agricultura do G20 ainda não produziu a agenda sistêmica e aberta que o mundo precisa. Mas reuniões como essa são importantes e necessárias, pois permitem encontros bilaterais, construção de consensos e montagem de parcerias estratégias para avançar nos temas relevantes do século 21.
Jornal “Folha de São Paulo”, Caderno Mercado, 11/06/2016
(*) Especialista em questões globais do agronegócio. Escreve aos sábados, a cada duas semanas.























