Desvalorização da moeda afeta IGP-M e pode ajudar a conter preços no Brasil.
Variação cambial
A variação cambial, que desde o agravamento da crise internacional teve seus efeitos anulados pela evolução nos preços das commodities, passou a influenciar de forma mais evidente o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M). O índice de maio (apurado entre 21 de abril e o dia 20 deste mês) registrou deflação de 0,07%, quando a projeção média de mercado era de uma alta de 0,07%. A apreciação do real no período (7,9%) ajudou a manter em baixa os preços no atacado, já impactados pela demanda mais fraca no mercado doméstico.
De acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o efeito da valorização cambial é evidente na evolução do grupo materiais para manufatura, que registrou queda de 2,03% em abril e de 0,83% em maio. O grupo representa 17,5% do Índice de Preços por Atacado (IPA) do IGP-M. O coordenador de Análises Econômicas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, Salomão Quadros considerou a variação um resultado da apreciação do real contrabalançado pela recuperação nos preços internacionais das commodities. Em maio, o real apreciou 7,52% frente ao dólar; o índice CRB, que avalia o desempenho das 24 commodities mais negociadas nas bolsas internacionais, subiu 12,3%. Para Quadros, “até março, o efeito câmbio era carta fora do baralho, exercia um efeito neutro sobre a inflação. Mas tem deixado de ser”.
Ele observou que em setembro (1,2%), outubro (1,3%) e novembro (1%), a inflação de materiais para manufatura desacelerou, mas ficou no campo positivo porque a depreciação do real mais do que compensou a queda das commodities. O índice CRB recuou 11,8%, 22,3% e 8,7%, respectivamente; o dólar frente ao real subiu 17,1%, 10,5% e 10,3% no mesmo intervalo. Entre dezembro e fevereiro, o câmbio ficou mais estável e a queda das commodities no exterior pressionou os preços do grupo, que registraram quedas entre 0,7% e 2,8%. A partir de março, o real volta a se apreciar e as commodities registraram recuperação mais forte, provocando quedas nos materiais para manufatura.
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Cálculo da RC Consultores revela que, nos últimos dois meses, houve recuperação no mercado externo nos preços de açúcar (20%), soja (25%), alumínio (11%), zinco (23%), celulose (1%), petróleo (21%), entre outros itens exportados pelo Brasil. O único a se manter em queda foi o aço (11%). “De maneira geral o Brasil não foi prejudicado pela alta de preços das commodities ocorrida nos últimos 60 dias, aliás, é um dos poucos países que se beneficiou com esse aumento”, afirmou o sócio da RC, Fábio Silveira. Ele observou que, com a alta das commodities, houve melhora nos resultados da balança comercial e, consequentemente, nas contas externas e esse quadro favorável atraiu mais dólares, provocando a valorização cambial.
Para o analista da Tendências Consultoria Integrada Gian Barbosa, a combinação de preços das commodities em queda e atividade industrial doméstica fraca garantiram a deflação do IGP-M nos últimos três meses, mas o aumento de preços no exterior como reflexo da recuperação de algumas economias fará com que o índice volte a subir em junho, chegando a 0,2%. “A valorização do real, porém, ajudará a retardar esse processo de aceleração dos preços no atacado brasileiro”, observou Fábio Romão, da LCA Consultores, que prevê para junho alta de 0,05%.
O economista-chefe da SLW Asset Management, Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, ressaltou que setores como os de energia, combustíveis e petroquímica foram mais influenciados pela expectativa de melhora da economia global e tiveram alta nos preços, em detrimento do real apreciado. “O minério de ferro, que tem uma cadeia oligopolizada, foi o único que não apresentou melhora no país, apesar da recuperação no exterior, porque o setor ainda opera no Brasil com capacidade baixa.”
Em maio, o IGP-M recuou 0,07%, tendo com maior influência a queda do IPA em 0,3%. O IPA Agrícola teve alta de 0,24% e os preços industriais recuaram 0,48%. No varejo, os preços ao consumidor subiram 0,42% e os preços da construção, 0,25%. Em 12 meses, o IGP-M acumulou alta de 3,64%, menor variação desde janeiro de 2007.





















