Taxa média subiu de 6,3% para 12,2% ao ano entre 2021 e 2025, e o calote entre produtores pessoa física chegou a 9,7% em agosto; os produtores de grãos são os mais pressionados
Juros do crédito rural quase dobram em quatro anos e levam inadimplência a recorde, aponta Cepea

A alta dos juros é uma das principais causas do avanço da inadimplência no crédito rural, segundo estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. Entre 2021 e 2025, a taxa média dos financiamentos contratados por produtores pessoa física passou de 6,3% para 12,2% ao ano. No mesmo período, o gasto anual estimado com juros quase triplicou, de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, e passou a consumir 11,4% da renda da agropecuária, contra 3,9% em 2021.
A inadimplência do crédito rural de pessoas físicas saltou de 0,8% do saldo em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026, o maior nível da série histórica do Banco Central.
Segundo os pesquisadores, o problema não é o tamanho da dívida em relação à renda. Em 2025, o estoque de crédito rural equivalia a 94% da renda anual da agropecuária, dentro da faixa de 2013 a 2019, quando a inadimplência era cerca de um terço da atual. O que mudou foi o custo do dinheiro e a origem dos recursos.
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Crédito a juros de mercado
As linhas com juros livres, como as ligadas às Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), eram apenas 5% do crédito rural em 2013 e chegaram a quase metade do total em 2023. Como acompanham a Selic, deixaram os produtores mais expostos à alta dos juros. Hoje, essas operações concentram 77% do saldo em atraso, com inadimplência de 17,6%, contra 3,8% nas linhas com juros controlados.
Grãos mais afetados
A pressão é maior sobre os produtores de grãos. Os preços reais estão 28% abaixo dos de 2021, e a relação de troca entre grãos e fertilizantes está no pior nível da série. Muitos investimentos feitos entre 2020 e 2022, quando as margens eram boas, começaram a vencer em um cenário de juros altos e rentabilidade menor. Na pecuária, segundo o estudo, as condições de mercado são mais favoráveis.
R$ 205 bilhões em operações problemáticas
Além das dívidas em atraso, o Cepea chama atenção para a chamada carteira problemática, que somava R$ 205 bilhões em agosto, ou 23,8% do saldo total. Cerca de três quartos desse valor são operações renegociadas ou prorrogadas, que não aparecem nas estatísticas de inadimplência. A situação varia entre os estados:
| Estado | Situação |
|---|---|
| Rio Grande do Sul | Inadimplência de apenas 3,2%, mas o estado concentra 21% da carteira problemática e 27% das operações renegociadas, com só 13% do crédito rural do país |
| Goiás | Inadimplência de 8,8% |
| Maranhão e Tocantins | Inadimplência acima de 15% |
Até 5 de outubro, a Medida Provisória 1.376/2026 havia permitido renegociar R$ 5,98 bilhões, apenas 5% do valor estimado. Os pesquisadores defendem que as soluções considerem a situação de cada propriedade, separando quem enfrenta falta momentânea de caixa de quem já não tem capacidade de pagamento, em vez de apenas alongar as dívidas de forma generalizada.
Com informações do Cepea e do Canal Rural
























