Em artigo, o presidente da APCS defende combinar observação dos animais, medição do ambiente e planos de contingência para proteger os suínos do calor extremo
Calor extremo não é apenas desconforto. É risco de produção, água, energia e caixa – por Valdomiro Ferreira Junior

Quando o calor aperta, não basta perguntar se o termômetro subiu. Na granja, é preciso saber se os animais estão conseguindo beber água, se o ar está circulando, se a equipe percebeu uma mudança de comportamento e o que acontece se faltar energia. O problema deixa de ser apenas uma tarde difícil quando essas respostas chegam tarde demais.
O El Niño de 2026 é um alerta, não um diagnóstico da propriedade
O boletim conjunto do Inmet e de outros seis órgãos federais, divulgado no fim de setembro, confirma condições de El Niño desde junho de 2026 e aponta probabilidade superior a 95% de um episódio muito forte no trimestre de outubro a dezembro.
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Para o Brasil, a previsão combina temperaturas acima do normal em grande parte do país, tendência de menos chuva no centro-norte e de mais chuva em áreas do Sul. No Sudeste, o boletim registrou seca fraca ou moderada em 84% da região em agosto.
É informação para planejamento, não uma sentença sobre cada município — muito menos sobre cada granja. Uma região com chuva acima da média também pode ter dias quentes; outra, com calor previsto, pode enfrentar primeiro restrição de água ou problema de acesso.
Por isso, a pergunta útil para o produtor paulista não é “quanto o El Niño vai custar?”, mas qual risco local pode interromper água, ventilação, alimentação ou transporte e quanto tempo temos para responder?
Essa é também a lógica das 163 medidas reunidas pela Embrapa e apresentadas pelo Mapa: acompanhar dados locais, manter infraestrutura, preparar contingências, avaliar economicamente a proteção e registrar os impactos para aprender com cada evento. São recomendações para a agropecuária; não uma previsão de perda para a suinocultura.
O que o calor muda no lote e no produto
Suínos têm capacidade limitada de dissipar calor. Em condições desfavoráveis, podem ficar mais ofegantes e reduzir o consumo de ração; com exposição prolongada, desempenho e peso de carcaça podem ser afetados.
É por isso que a observação do animal precisa caminhar com a medição de temperatura e umidade dentro da instalação, não apenas com a previsão da cidade.
A Instrução Normativa nº 113/2020 determina procedimentos para minimizar o estresse térmico e planos de contingência para falhas de água, energia e alimentação.
Não existe, porém, uma regulagem única para toda a granja. Uma matriz lactante e um leitão recém-nascido têm necessidades térmicas diferentes. Resfriar uma área sem considerar a fase, a ventilação e a umidade pode resolver um problema e criar outro. A decisão deve ser feita por instalação e lote, com orientação técnica.
Um experimento publicado em 2024 com 400 suínos em terminação observou, nas condições estudadas, peso de carcaça quente 4,72% maior no grupo que recebeu duchas de baixa intensidade nas horas críticas do que no grupo sem esse manejo.
Também houve diferenças em características da carne, como perda de água. É evidência de que a ambiência merece atenção, não uma promessa de ganho de 4,72% para qualquer granja brasileira.
Na qualidade da carne, a leitura precisa ser ainda mais cuidadosa. O manejo pré-abate, incluindo embarque e transporte, pode gerar lesões e contribuir para defeitos como carne PSE ou DFD quando há estresse inadequado. Isso não autoriza dizer que todo dia quente produzirá um desses defeitos: duração da exposição, condições do animal e manejo fazem diferença.
Um estudo sobre calor crônico encontrou redução de consumo, ganho de peso e peso de carcaça, mas respostas de qualidade que variaram entre músculos. O ponto seguro é proteger o animal e não acrescentar esforço desnecessário justamente no embarque.
O que continua funcionando, e onde a tecnologia ajuda
Há cuidados antigos que não perderam valor: conferir bebedouros, observar os animais no horário mais quente, manter telhado e cortinas, favorecer a circulação de ar e conduzir o lote com calma. A Embrapa lembra que água limpa, sem restrição e com vazão adequada depende de regulagem e manutenção dos bebedouros, tubulações e reservatórios. E suas orientações sobre instalações para suínos valorizam ventilação natural, telhados que reduzam o ganho de calor e proteção também contra o frio quando necessário.
Eu não chamaria isso de manejo ultrapassado. É a base que permite à tecnologia funcionar. Um termômetro e um medidor de umidade mostram a condição real do galpão; medidores de consumo ou alertas podem indicar queda de água e falha de equipamentos; ventiladores e sistemas de resfriamento ajudam quando são bem dimensionados.
Mas equipamento sem manutenção, energia de reserva e alguém responsável por reagir ao alerta vira uma falsa segurança.
Aspersão ou nebulização também exigem projeto e ventilação adequados: a Embrapa alerta que elevar a umidade sem renovar o ar pode prejudicar o bem-estar.
Um painel simples ajuda a transformar atenção em decisão:
Não há um número universal nessa tabela que substitua o responsável técnico. O valor está em definir quem observa, qual desvio exige ação e como a equipe confirma que a medida funcionou.
O calor também entra no caixa
Um dia de calor pode exigir mais água, energia, manutenção e atenção da equipe. Uma contingência mal preparada pode interromper funções essenciais; um investimento apressado em climatização pode pesar no caixa sem corrigir o gargalo real. O produtor precisa comparar custo de proteção, capacidade do sistema e exposição do lote, em vez de comprar equipamento apenas porque a previsão assustou.
Para mim, a melhor tecnologia é a que encurta o intervalo entre o primeiro sinal e a ação certa.
E a experiência que vale preservar é a de quem conhece o comportamento dos animais, desde que essa observação vire rotina compartilhada, não dependa da memória de uma pessoa só.
O El Niño de 2026 aumenta a urgência de olhar para isso. Mas o plano não deveria vencer quando o fenômeno passar. Água, energia, ambiência e manejo continuarão definindo bem-estar, capacidade de produção e segurança da decisão em qualquer verão.
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Fontes consultadas
- INMET e seis instituições federais. Painel El Niño 2026–2027, Boletim Mensal nº 04, setembro de 2026.
- MAPA/Embrapa. Em ano de El Niño, Mapa recebe da Embrapa 163 medidas para gestão de riscos climáticos no campo, 1º de setembro de 2026.
- MAPA. Instrução Normativa nº 113/2020 — boas práticas e bem-estar em granjas comerciais de suínos, especialmente arts. 15 e 51.
- Segura, J. e colaboradores. Alleviating Heat Stress in Fattening Pigs: Low-Intensity Showers in Critical Hours, Animals, 2024.
- Lebret, B. e colaboradores. Pork quality traits and associated muscle metabolic changes in pigs under chronic prenatal and postnatal heat stress, Journal of Animal Science, 2023.
- Embrapa Suínos e Aves. Transporte e manejo pré-abate de suínos.
- Embrapa Suínos e Aves. Gestão da água na suinocultura, 2ª edição.
- Embrapa Suínos e Aves. 500 perguntas, 500 respostas: suínos — instalações e equipamentos.
- Embrapa. Transporte Legal — Suínos: conforto térmico.






















