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O Brasil pegou ou não a doença holandesa?

Nem aftosa, nem gripe aviária. Há quem diga que o nosso mal é a moeda forte.

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Redação 06/03/06- Nas últimas semanas, alguns economistas têm apontado que a maior prioridade no Brasil deveria ser o combate a um mal conhecido como doença holandesa. Eles não se referem a nenhum problema fitossanitário com o poder de arruinar o agronegócio como a febre aftosa e a gripe aviária , mas sim a um cenário econômico em que a valorização da moeda de um país joga contra a indústria de transformação ao reduzir as exportações e estimular importações.

Os clínicos de plantão começaram a diagnosticar a doença no Brasil a partir do segundo semestre de 2005. De acordo com os manuais da área econômica, o mal foi encontrado pela primeira vez na Holanda, na década de 60, quando o país começou a extrair petróleo e gás natural no Mar do Norte. As exportações desses recursos naturais saltaram de forma abrupta, o que levou a seguidos superávits comerciais.



A doença se desenvolveu com os seguintes sintomas: valorização da moeda nacional, aumento nos custos de produção internos e redução das exportações de bens industrializados. Sem o tratamento adequado, o quadro evoluiu para a falência de empresas e o fechamento de fábricas.

Em artigos recentes, economistas de renome dizem que o Brasil está com os sintomas e já sofre com os efeitos da doença holandesa. Para Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES, não há dúvida: o Brasil está com o problema. O ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, Delfim Netto, também cita a doença como algo que o país tem de enfrentar. Affonso Celso Pastore, ex-ministro da Fazenda, diz que a analogia com o fenômeno que ocorreu na Holanda é tentadora.

É provável que neste momento a abordagem cautelosa de Pastore seja a mais fiel ao conceito de doença holandesa. Afinal, o superávit comercial brasileiro não foi impulsionado pela descoberta de recursos naturais, nem pela expansão isolada do segmento de produtos agrícolas básicos. O que houve aqui tem a ver com outros fatores: o crescimento mundial pujante abriu a oportunidade para que empresas brasileiras dos mais diversos setores exportassem, com o benefício adicional dos preços internacionais altos. O saldo comercial recorde pressionou para baixo as cotações do dólar.

Os fenômenos são comparáveis porque algumas condições especiais levaram a um grande aumento nas exportações, afirma o economista Nílson Maciel de Paula, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Só que não são iguais, diz. Na Holanda, houve concentração da atividade econômica em um único segmento, o petrolífero, e regressão generalizada em outros setores exportadores. No Brasil, a regressão é pontual e não há concentração em uma indústria em especial. Outra característica que separa os dois processos econômicos é que a valorização do real frente ao dólar, de 17% em 2005, ganhou um empurrão do Banco Central, através da alta taxa básica de juros.

O economista Júlio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) avalia que o país sofre de uma doença que merece ser batizada com o nome brasileira. Sua característica principal é uma instabilidade muito grande no câmbio, provocada por uma sucessão de idas e vindas na área econômica. Desde 1999, o real já passou por três inversões de tendência. Essa doença crônica desestimula a indústria. Mesmo assim, o setor se mantém dinâmico e procura se diversificar, comenta.

Os sintomas da doença brasileira carregam o paradoxo da expansão das exportações em diversas áreas combinada ao fechamento de fábricas. Vamos ter problemas em setores com maior índice de nacionalização, prevê Pedro Paulo da Silveira, economista-chefe da Global Invest. Entre eles, estão as indústrias de calçados, madeira beneficiada e móveis. Outros segmentos são beneficiados pelo custo menor de componentes e equipamentos e se mantêm competitivos, explica.

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