Se a alta dos preços das commodities agrícolas tem sido alvo de protestos por parte de organismos internacionais, os produtores, por sua vez, não têm tido ganhos significativos com a valorização dos produtos agrícolas que cultivam.
Agricultor paga insumo caro e não lucra com aumento dos alimentos, diz secretário
Redação (23/04/2008)- Célio Porto, secretário de Relações Institucionais do Agronegócio, do Ministério da Agricultura, por exemplo, disse que o aumento do barril de petróleo tem pressionado o preço dos insumos, o que reflete no preço dos produtos e numa margem menor de lucro para os produtores.
“O que a gente tem verificado é que, por causa do aumento dos preços do petróleo, o preço dos insumos subiu mais do que os dos produtos agrícolas. Então, essa é a grande questão hoje: haverá espaço para redução substancial dos preços agrícolas, já que os preços dos insumos subiram?”, observou Porto, em entrevista à Agência Brasil.
O secretário observou que, na década de 70, houve duas altas significativas dos preços dos alimentos, mas nenhuma delas durou mais que 12 meses.
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Na 30ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), realizada semana passada em Brasília, seu diretor-geral, o senegalês Jacques Diouf, afirmou que, geralmente, a alta nos preços dos alimentos é acompanhada de aumento da produção na seqüência, o que faz com que os valores dos produtos recuem e haja um equilíbrio.
Mas, segundo ele, com a guinada nos preços dos insumos agrícolas, os produtores dos países pobres terão dificuldades, e a produção não deve crescer o esperado.
Segundo Diouf, o preço do trigo, matéria-prima do pão, aumentou 72% nos últimos meses. E o preço dos fertilizantes cresceu 59%. No plantio de algumas culturas, como a soja e o milho (que representam mais de 70% do volume de grãos produzidos no Brasil), os gastos com fertilizantes podem ultrapassar um terço do custo de produção. Para piorar a situação dos produtores brasileiros, os preços internacionais ainda não foram repassados completamente para o mercado interno.
Dados compilados pelo ministério da Agricultura, a partir da balança comercial e de informações de mercado, o valor da uréia, do superfosfato simples e do cloreto de potássio, principais produtos usados na fabricação de fertilizantes, aumentaram, respectivamente, 57%, 78% e 90% no mercado internacional, entre fevereiro de 2007 e 2008. No mercado interno, o aumento foi de 23%, 55% e 42%, respectivamente.
Segundo o coordenador-geral de Análises Econômicas do Ministério da Agricultura, Marcelo Guimarães, mais reajustes devem ser feitos com os próximos carregamentos que chegarem ao país. O Brasil importa cerca de 70% dos fertilizantes que consome.
O agricultor Ademir Rostirolla, que vive da produção de soja há mais de 35 anos, no município de Campos Júlio (MT), reclama da alta dos insumos. “No ano passado, comprei adubo a US$ 300 a tonelada e, neste ano, está em torno de US$ 750. Subiu 150% a tonelada de adubo que é o principal insumo usado na produção de alimentos”. O sojicultor complementa: “se o governo quer dar comida barata, tem que achar um mecanismo para baixar os custos de produção”.
Estima-se, por outro lado, que a produção nacional de fertilizantes vá aumentar, justamente por conta dos preços altos do produto importado. “Mas a resposta é mais demorada que na agricultura. A agricultura responde em seis meses, uma planta industrial leva mais tempo para ser instalada", afirmou o secretário de Relações Institucionais do Agronegócio.
Já o dirigente da FAO defendeu uma política de preços para os produtos agrícolas que mantenham os agricultores em suas propriedades, para que não se repita o exemplo chinês. Lá, milhões de trabalhadores rurais se deslocam para os centros urbanos a cada ano. Assim, além de menos pessoas trabalhando no campo, o consumo cresce a níveis muito elevados. “Em 20 anos, o consumo de carne por habitante na China cresceu de 20Kg para 50Kg”, disse.
Por conta do aumento da demanda e dos preços dos fertilizantes, o governo chinês taxou em 135% as exportações do produto, praticamente anulando a venda para outros países. A China é um dos maiores produtores mundiais de fertilizantes.
Estudos da FAO indicam que o aumento da demanda por fertilizantes deve crescer 1,4%, ao ano, até 2011. Já a oferta, de acordo com os investimentos da indústria do setor, crescerá 3% ao ano. Entretanto, é provável que os preços continuem elevados até lá.





















