Líder brasileiro na produção de frangos, o Paraná forma com Santa Catarina e Mato Grosso do Sul um dos maiores polos da avicultura mundial. Estados investem para aumentar participação no mercado externo e superar gargalos logísticos
Integração e ampliação para vencer os desafios

Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul deverão manter a liderança nacional na produção de aves de corte em 2023 e aumentar as exportações. Depois de enfrentarem o período difícil da pandemia do novo coronavírus, os estados projetam a ampliação das exportações e da demanda interna, apesar do aumento dos custos de produção, provocado pela oscilação dos preços dos grãos e pela alta dos fertilizantes. No primeiro trimestre deste ano, o Paraná foi responsável por 33,5% dos abates no país, e Santa Catarina por 13,2%.
Em 2021, os três estados responderam por 67,62% das exportações brasileiras de carne de frango, que atingiram 4,6 milhões de toneladas, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O Paraná foi responsável por 40,38% das exportações, Santa Catarina por 22,95% e o Mato Grosso do Sul por 4,29%. Juntos, os estados concentraram 53,18% do total de 14,3 milhões de toneladas produzidas no país. O Paraná é o maior produtor de carne de frango do Brasil, com destaque para as cooperativas da região Sudoeste.
A produção de grãos e a proximidade com o Paraguai e a Argentina facilitam a expansão do negócio. Em 2021, o Paraná produziu 19,8 milhões de toneladas de soja e 9,3 milhões de toneladas de milho, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento. Nos países vizinhos, o volume de milho chegou a 13 milhões de toneladas colhidas, e a produção de soja foi de 55,7 milhões de toneladas, de acordo com dados oficiais.
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“O Paraná tem uma grande capacidade de produção de grãos e isso facilita a logística, essas agroindústrias buscam regiões possibilidade de aumento da produção de grãos”, afirma Nicole Wilseck, analista técnica da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep). Em agosto, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetou que as exportações brasileiras deverão crescer 6% neste ano em relação às 4,7 milhões de toneladas enviadas para fora do país no ano passado.
No ano passado, o Paraná reforçou sua liderança no setor e foi o estado que mais abateu frangos, com 33,6% de participação nacional, o que representa 20,2 pontos percentuais acima de Santa Catarina. O maior rebanho do país está na região de Cascavel, no oeste do estado. Neste ano, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), o rebanho na região cresceu 17% e chegou à marca de 20 milhões de cabeças. Em todo o estado são cerca de 430 milhões de cabeças, ou 28% dos 1,5 milhões de animais no país.
De acordo com o Sistema Ocepar (Organização das Cooperativas do Estado do Paraná), para este ano as cooperativas do setor localizadas no oeste do Paraná preveem um investimento de R$ 682,2 milhões, com uma produção de 1,7 milhão de toneladas e 2,5 milhões de abates diários. No ano passado, as cooperativas paranaenses (em todas as áreas) investiram um total de R$ 4,65 bilhões e aumentaram em 10% o número de empregos gerados, que chegou ao total de 127,7 mil no estado. As exportações atingiram a marca de US$ 6,48 bilhões.
Santa Catarina, segundo maior produtor e exportador de carne de frango do país, exporta para 129 países, segundo a Secretaria de Estado da Fazenda. Cerca de 2,3 milhões de aves são abatidas por dia no estado, que responde por 24,55% das receitas brasileiras com esse tipo de proteína. No Mato Grosso do Sul, de acordo com a Semagro (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar), o setor da avicultura de corte cresceu 46,32% nos últimos dez anos. São 50 mil empregos diretos gerados, com 2.098 aviários e uma produção anual de cerca de 4,6 milhões de toneladas.
Dados do Ministério da Indústria e Comércio Exterior e Serviços mostram que o volume da carne de frango in natura exportada nos nove primeiros meses de 2022 foi de 137,9 mil toneladas, com um faturamento de US$ 290 milhões. Os principais destinos são o Japão, a China e os Emirados Árabes Unidos, que representam 45,58% da receita total.
José Ribas, presidente do Sindicarne (Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados) de Santa Catarina, vê 2022 como um ano de instabilidade, o que projeta um 2023 conservador, mas com possibilidade de avanços. “Foi um ano de muita instabilidade, tivemos as constantes variações das moedas e o conflito na Ucrânia. Todas essas situações tornaram o ano bastante desafiador. A previsão para 2023 é mais conservadora, mas queremos continuar no ritmo do segundo semestre de 2022”.
Para o Sistema Ocepar, o ano de 2022 foi de recuperação, apesar do aumento projetado nas exportações. “Entendemos como um período de estabilidade. Tivemos uma pressão forte de custos, com altas e baixas. Foi um período de estabilização da economia e do consumo, um ano de estabilidade diante dos outros cenários que a gente vem vivendo”, diz Alexandre Monteiro, da gerência técnica da Ocepar. “Agora vivemos um momento de incerteza com a economia, mas vamos manter um trabalho forte para fortalecer a presença no mercado, tanto interno quanto externo”.
Estratégia e tecnologia
A Coopavel, de Cascavel, é uma que aposta em um bom retorno em 2023. A cooperativa abrirá duas novas filiais no próximo ano, nos municípios de Vitorino e Bom Sucesso. Neste ano, a Coopavel investiu cerca de R$ 300 milhões em adequações e expansão de suas unidades no Paraná. Atualmente tem mais de 6,2 mil associados e cerca de 7 mil colaboradores diretos. Em 2020, o faturamento foi de R$ 3,5 bilhões e no ano passado chegou a R$ 4,5 bilhões.
“Neste ano, vamos ter um crescimento de faturamento em torno de 10% a 12%. É um resultado muito bom, porque tivemos a quebra da primeira safra no oeste do Paraná, milho e soja chegaram a subir 50%”, diz o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli. “E tivemos mais uma quebra, no trigo, no final da safra, devido ao clima com muita chuva na colheita”. A Coopavel exporta para 20 países.
Os R$ 300 milhões foram investidos nas filiais de Vitorino e Bom Sucesso, que deverão entrar em operação entre maio e junho, e no aumento da capacidade de recepção e armazenagem. “Estamos investindo para melhorar a capacidade das filiais e também nessas duas obras que estarão prontas em 2023, além de uma fábrica de rações no Sudoeste, no aumento da frota de transporte e em matrizes”, diz Grolli.
O presidente da Coopavel vê como positiva a previsão de crescimento de 6% nas exportações para este ano. “É uma boa quantidade, porque temos um mundo em recessão e a China, grande compradora do Brasil, está aumentando sua produção. O Brasil exporta em torno de 25% a 30% de toda a carne e outros produtos de frango para a China. Se continuarmos nesse ritmo, chegaremos a 4,9 milhões de toneladas exportadas neste ano”.
Custos e demanda interna
Além do aumento das exportações neste ano e em 2023, o setor prevê um crescimento da demanda no mercado interno. “Se for confirmado esse aumento nas exportações, chegando a 4,9 milhões de toneladas, com a previsão de produção de 14,6 milhões de toneladas, o mercado interno terá 9,7 milhões de toneladas”, avalia Dilvo Grolli.
A expectativa é que o consumo suba para 45 kg per capita no próximo ano, em função dos preços da carne bovina. “O consumo estava equilibrado em 43 km ou 44 kg. Com o aumento da produção, houve o aumento do consumo de frango e da carne suína, em detrimento da carne bovina. Temos um espaço de até mais 2 kg por habitante, o que daria 430 mil toneladas durante o ano todo”, afirma o presidente da Coopavel.
Os custos que mais pesaram no ano, de acordo com Grolli, foram os relativos aos fertilizantes. “Tivemos os custos mais centralizados na área de fertilizantes, agora está em uma curva descendente. Os grãos tiveram altos e baixos. Se pegarmos em 7 de janeiro, a soja estava em R$ 177, hoje está em torno de R$ 170, o milho estava em torno de R$ 90, hoje está perto de R$ 76. A soja está equilibrada, o milho abaixo e o trigo aumentou”.

José Ribas cita insumos como plástico e papelão entre os fatores que elevaram os custos em 2022. “Esses insumos tiveram um aumento significativo. Alguns setores receberam uma inflação da ordem de 100% no aumento de custos e entregaram menos da metade desse impacto. O setor teve que absorver isso com trabalho e de forma resiliente, enxugando custos”, comentou o presidente do Sindicarne-SC.
Ribas considera positiva a grande oferta de grãos na região, mas considera que falta visão estratégica. “O Brasil produz excedentes e exporta, o problema é que cada vez mais se exporta mais. Comprovamos dos vizinhos, por vezes para compor volume, por vezes para buscar certo equilíbrio de mercado. O alimento não pode ter barreiras, mas precisamos pensar estrategicamente. Uma tonelada de grãos vendida tem um faturamento, com uma tonelada de aves e suínos esse valor é multiplicado por sete, gerando empregos aqui”.
Leia a matéria completa no Anuário 2023 da Revista Avicultura Industrial





















