O custo de produção vai passar de US$ 590 (média para o Estado na safra 07/08) para US$ 909 na próxima safra.
Alta do custo de produção da lavoura de soja passa de 54%
Redação (19/05/2008)- Recuperação da produtividade, ferrugem asiática menos agressiva, clima favorável, avanço da qualidade de materiais genéticos, cotação da soja em alta no mercado internacional, e o melhor, com tendência de manutenção. Todos esses fatores juntos definem o que foi a safra 07/08 de soja em Mato Grosso e poderiam ser o prenúncio da retomada da pujança da commodity para o ciclo 08/09. Porém, sojicultores ainda contabilizam passivos das safras ruins, reclamam da falta de determinação do governo federal em relação ao segmento e anunciam uma única certeza para o novo ciclo de produção: majoração do custo de produção em mais de 54% somente nos últimos doze meses.
De acordo com dados da Associação dos Produtores de Soja e de Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja/MT), com base em levantamento realizado pela Agrocunsult, o custo de produção vai passa de US$ 590 (média para o Estado na safra 07/08) para US$ 909 na próxima safra. Ampliando a base de comparação, o incremento é assustador. A média histórica do custo do hectare no Estado para a soja ficava em torno de US$ 450 – valor que vigorou entre as safras 03/04 a 06/07. Esse valor, comprado à prévia do quanto vai custar o plantio da nova safra de soja no Estado, revela um incremento de mais de 100%.
O custo de produção mensurado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea) pode chegar, por exemplo, a mais de US$ 990 no município de Campo Novo do Parecis (369 quilômetros ao noroeste de Cuiabá), a US$ 916 em Sorriso (460 quilômetros ao médio norte de Cuiabá e maior produtor mundial do grão), a US$ 969 em Rondonópolis (210 quilômetros ao sul de Cuiabá) e a US$ 922 em Primavera do Leste (239 quilômetros ao centro sul de Cuiabá).
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O diretor executivo da Aprosoja, Marcelo Duarte Monteiro, revela que todas as projeções de custos levam em conta somente fatores variáveis, como preços das sementes, fertilizantes, defensivos, mão-de-obra, impostos e assistência técnica, por exemplo. “Não estão pontuados aqui o que chamamos de custos fixos como a depreciação do maquinário e o custo da terra. Daqui a cerca de cinco anos, o produtor vai precisar renovar seu parque de máquinas e como não contabilizou essa necessidade, não vai ter dinheiro para isso. A atividade requer investimentos intensivos em tecnologia, ou seja, safra a safra e quem não acompanhar, não obterá bons resultados mais”.
Na elaboração, o Imea levou em consideração uma taxa de câmbio de R$ 1,69 e produtividade de 50 sacas por hectare. Por meio destas referências, o custo de produção do hectare atinge até R$ 1,67 mil no Estado.
PESO
Os fertilizantes têm sido os vilões da cesta básica do campo. De todos os insumos utilizados e necessários à produção, os fertilizantes – ou adubos – são os que mais revelam altas sucessivas. Como conta Duarte, no ano passado nesta mesma época do ano a tonelada (t) estava cotada a US$ 160. Doze meses depois, chega a US$ 244/t. “Produtor está sendo extremamente eficiente na sua propriedade, porém a incógnita da próxima safra se dá por questões alheias ao controle do produtor, como as sucessivas altas dos insumos”. O cloreto de potássio, fertilizante indispensável, teve seu preço elevado de US$ 235 a tonelada no porto para até US$ 1 mil, majoração de mais de 325%. “Alta que será maior para o sojicultor mato-grossense, pois esse preço é posto no porto e até o Estado, serão acrescentados pelo menos mais US$ 100 de frete até as propriedades”.
No mercado a explicação para o reajuste dos insumos é mesma aplicada à valorização das commodities: alta demanda e pouco oferta de produto. Na mesma proporção em que a produção aumenta no mundo, aumenta a demanda por fertilizantes, defensivos e maquinários agrícolas.
Duarte lembra que para o campo acompanhar as exigências do mercado, minimizar custos e aumentar eficiência, a lavoura exige atualmente uma plantadeira para cada 400 hectares. “Até bem pouco tempo atrás, era possível a utilização uma máquina para cobrir mil hectares”.
Produtor terá de adotar nova postura
O diretor executivo da Aprosoja, Marcelo Duarte, destaca que para a próxima safra o sojicultor será obrigado a adotar uma nova postura e avaliar o volume que realmente compensa produzir. “Não adianta o mercado cobrar produtividade de 52 sacas/ha, se o mercado não remunera o produtor. Então, o racional é produzir menos e gastar bem menos. Esse será o raciocínio daqui em diante”. Com a escalada de preços dos fertilizantes nos últimos doze meses, “tem produtor que vai ter de plantar sem adubo em algumas áreas de sua propriedade. Chegou a hora do sojicultor descobrir que conta é a mais interessante para ele, se é gastar em tecnificação, e ficar sem remuneração que cubra os custos, ou produzir de forma limitada, mas sem grandes investimentos”, reforça.
Em relação ao ano passado, nesta safra Mato Grosso se revelou arrojado na produção. “O produtor está atento ao mercado e passou a fixar preços à produção. Se muitos deixaram de ganhar dinheiro com o pico de até R$ 40 da saca de soja, foi porque isso aconteceu e não estava previsto. Mas o produtor, mais do que nunca sabe a importância em mensurar seu custo de produção para poder travar preços e assegurar sua margem de lucro”.
Duarte lembra que o produtor foi eficiente, mas a obtenção do ponto de equilíbrio na nova safra vai depender da racionalização do uso de insumos e da otimização de todas as ferramentas que possui, principalmente, dos mecanismos de venda.
Com a escalada da saca de soja para até R$ 40 no Estado, muitos sojicultores “viram a carruagem passar, mas a comercialização antecipada passa a ser uma ferramenta utilizada pelo produtor cada vez mais. A agricultura é um risco mesmo, se o produtor não pôde aproveitar os picos de preços, pelo menos está se modernizando e ganhando maturidade, pois seria se ele não tivesse feito contratos de venda antecipada. O grande volume comercializado de forma antecipada limitou os ganhos, mas assegurou retorno ao produtor, mesmo que o volume tenha sido tímido”.
Para Duarte esta safra (07/08) é o verdadeiro marco do profissionalismo do segmento agrícola. “Sempre fomos destaque em questões diretamente ligadas à lavoura, nossa eficiência sempre foi reconhecida, mas agora, estamos sendo eficientes em gestão, item que faltava até então”. “A gestão do negócio rural será decisiva para esses tempos de mercado imprevisível, já que ora sobe, ora desce, seja por especulações ou por fundamentos firmes, como a relação oferta e demanda”.
Questionado sobre o comportamento do mercado doravante, o diretor explica que os indicadores revelam um cenário positivo, pois os Estados Unidos sinalizam a manutenção da produção de etanol, e com isso as áreas de milho serão sobrepostas às áreas de soja, o que acirra a disputa mundial pela oleaginosa, e a escalada dos preços internacionais do petróleo. “Porém, por qualquer outra influência, como a crise dos Estados Unidos, a migração de recursos para outras áreas, pode derrubar os preços da commodity quando se esperava a subida deles, como ter efeito contrário”.
Sojicultor chega em 2008 com déficit de 45 sacas no Estado
As últimas quatro safras ruins para o produtor mato-grossense (04/05, 05/06, 06/07, 07/08) deixaram um saldo de dívidas de mais de R$ 12 bilhões. Na sojicultura esse passivo que vem se arrastando há anos pode ser mais bem entendido se transformado em sacas. Neste período, o sojicultor estadual acumula prejuízo de 45 sacas por hectare (ha), ou seja, esse é o déficit que os tempos de vacas magras impuseram à atividade. O produtor pode levar até 11 anos para saldar a conta negativa.
Mas, colocando tudo na ponta do lápis, os 11 anos podem ser estendidos, pois a margem de lucro do produtor – considerada restrita, mesmo em uma safra considerada muito boa -, é consumida apenas pelos juros cobrados. O diretor executivo da Associação dos Produtores de Soja e de Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), Marcelo Duarte Monteiro, explica que levando em consideração o custo atual de produção, US$ 590 por hectare, há nesta safra um saldo de R$ 126 por hectare para o produtor, ou cerca de quatro sacas/ha. “Mas, ao colocar no papel, as quatro sacas de margem são consumidas pelas taxas de juros, que em média chegam a 8% ao produtor. Elas absorvem 3,6 sacas”. Ele explica ainda que desconsiderando o impacto da taxa de juros e a existência de 45 sacas em débito, a margem de quatro sacas desta safra seria para viabilizar três coisas essenciais ao produtor: sobreviver, recompor seu parque agrícola e pagar dívidas. “Enquanto a nossa margem de lucro é de R$ 126 por hectare, no Paraná, por exemplo, chega a R$ 834/ha, conforme os números da Agrocunsult”.
O diretor destaca que a sobra de quatro sacas, ainda não faz da atividade um bom negócio, ou financeiramente sustável, “já que historicamente, apenas o arrendamento de terras custa ao produtor sete sacas por hectare”, exclama. E completa: “para chegar a este lucro, foram contabilizados apenas os custos variáveis, não entram as parcelas de financiamentos de máquinas, por exemplo. E o Paraná obtém essa margem, que pode é sinônimo de rentabilidade, porque tem logística favorável, usa menos adubos, frete é quase irrisório e a pressão da ferrugem quase inexistente”.
E numa receita contraditória imposta pelos novos tempos da agricultura mundial, o produtor descapitalizado é obrigado a cada safra, investir em tecnificação. “Nesta safra, a soja ainda não remunera o produtor, mesmo tendo sido a melhor desde o ciclo 04/05, tanto em produtividade como em cotação, porém, o produtor ainda não consegue pagar as dívidas e tão pouco reinvestir na propriedade”.
Insumos abocanham 70% do custo
De acordo com diretor executivo da Aprosoja, Marcelo Duarte, atualmente 70% dos custos variáveis para produção de um hectare de soja no Estado são “abocanhados” pelo item insumos. Deste total, 50% são gastos com aquisição de fertilizantes, 20% com defensivos e 5% destinados à aquisição de sementes. Ou seja, de um custos estimado em US$ 909, ou cerca de R$ 1,5 mil, setenta por cento dele (mais de R$ 1 mil) é destinado à compra de insumos.
Os 30% restantes são consumidos com operações com máquinas, mão-de-obra, transporte dentro da propriedade para secagem e armazenagem dos grãos, beneficiamento e pagamento de impostos.
PREOCUPAÇÃO
Duarte explica que tradicionalmente, após o encerramento da colheita de soja, Mato Grosso inicia o processo de aquisição dos insumos que serão utilizados no novo ciclo. Os trabalhos no campo são retomados em setembro no Estado, com o cultivo de variedades precoces de soja. Ele conta que até o momento, cerca de 50% dos produtores já compraram os fertilizantes, volume de movimentação muito próximo ao realizado no ano passado, mas muito acima do observado em 2006, quando até julho daquele ano, quase nada havido sido adquirido, ou seja, ás vésperas do reinício dos trabalhos. Mas as compras ainda não foram entregues aos sojicultores. “A curva de elevação de preços desses insumos está em ascensão e tememos por prospectar duas situações: a entrega não está sendo feita por dificuldades de produção, ou, para segurar o produto e forçar novas altas ao produtor”, alerta o diretor.





















