Economista destaca cenário positivo para o setor, mas alerta para risco de excesso de oferta e restrições de crédito no campo
Custos de ração baixos e carne bovina cara podem favorecer suinocultura em 2026

Em entrevista exclusiva ao portal Gessulli Agrimídia, o economista Alexandre Mendonça de Barros, um dos principais especialistas em agronegócio do Brasil, avaliou que o cenário para a suinocultura em 2026 tende a ser favorável, principalmente devido à perspectiva de custos mais baixos para alimentação animal e à valorização da carne bovina no mercado.
Segundo o economista, a boa safra brasileira de grãos deve contribuir para manter os preços de milho e farelo de soja em patamares estáveis ou até mais baixos, o que reduz os custos de produção das proteínas animais.
“Estamos vendo uma safra bastante forte no Brasil. Com os preços internacionais estáveis e o real mais valorizado frente ao dólar, isso ajuda a reduzir um pouco mais o custo das matérias-primas para alimentação animal”, explicou.
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Ele ressalta, no entanto, que há sempre riscos climáticos na safrinha, especialmente em regiões como Goiás, Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia, onde o plantio está mais atrasado. Já em estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, a expectativa é de boa produção, especialmente de milho, somada a uma safra considerada excepcional de soja.
Carne bovina mais cara abre espaço para a suína
Outro fator importante destacado por Mendonça de Barros é o cenário internacional da carne bovina. A redução do rebanho nos Estados Unidos e o menor ritmo de abates no Brasil, após anos de volumes elevados, têm pressionado os preços da proteína bovina para cima.
De acordo com estudos mencionados pelo economista, há uma correlação crescente entre os preços da carne bovina e da carne suína no Brasil — algo que não era observado com tanta força há poucos anos.
“Estamos percebendo que quando a carne bovina sobe de preço, a carne suína acompanha. O consumidor está usando a carne suína como substituto quando a bovina fica mais cara”, afirmou.
Ele também atribui parte desse movimento a estratégias de marketing do setor, que vêm aproximando os cortes suínos dos cortes tradicionais da carne bovina.
“A estratégia de trabalhar cortes como picanha suína ou filé mignon suíno está caindo no gosto do brasileiro”, comentou.
Consumo de proteína animal segue aquecido
Outro ponto destacado pelo economista é o forte dinamismo no consumo de proteínas animais no Brasil. Ele cita, por exemplo, o crescimento expressivo na produção de leite no último ano, estimado em cerca de 10%, totalmente absorvido pelo mercado interno.
O consumo de carne suína per capita também avançou, enquanto a carne bovina manteve demanda mesmo com preços mais elevados.
Entre as proteínas, Mendonça de Barros destaca ainda o crescimento acelerado do consumo de ovos no país.
“O Brasil passou a figurar entre os dez países que mais consomem ovos per capita no mundo. Estamos chegando perto de um ovo por pessoa por dia”, destacou.
Segundo ele, mudanças de hábitos alimentares também podem estar influenciando essa tendência, com consumidores reduzindo o consumo de carboidratos e aumentando a ingestão de proteínas, movimento já observado em países como Estados Unidos e na Europa.
Crescimento da produção exige cautela
Apesar do cenário positivo, o economista alerta para o risco de pressão sobre os preços caso a produção de carne suína continue crescendo em ritmo elevado.
Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a produção brasileira de carne suína aumentou mais de 4% no último ano, volume considerado expressivo.
“Se o ritmo de crescimento continuar o mesmo, podemos ter pressão de oferta e queda de preços, como vimos no início deste ano”, disse.
Para ele, o desempenho do setor em 2026 dependerá, em grande parte, da capacidade de equilibrar a expansão produtiva com a absorção do mercado.
“Se a expansão da produção for mais contida, vejo espaço para boas margens novamente. Depois de dois anos excepcionais, 2024 e 2025, 2026 tem tudo para ser um ano razoável para a suinocultura”, avaliou.
Crédito caro segue como desafio
Mendonça de Barros também chamou atenção para as dificuldades de financiamento no campo. Segundo ele, o custo elevado do crédito e a maior cautela das instituições financeiras vêm limitando o acesso dos produtores a recursos.
“Estamos vendo um produtor menos capitalizado, com dificuldade de crédito e custo do dinheiro muito alto. Isso muitas vezes obriga o produtor a vender mais rápido para fazer caixa”, explicou.
Na avaliação do economista, esse fator pode inclusive influenciar a formação de preços no Brasil, especialmente no mercado de grãos.
Conflitos internacionais e logística
O especialista também mencionou possíveis impactos geopolíticos no comércio global de alimentos. Conflitos no Oriente Médio, por exemplo, podem gerar dificuldades logísticas no curto prazo, com atrasos em embarques e aumento no custo de fretes e seguros marítimos.
Além disso, a elevação do preço do petróleo pode encarecer ainda mais o transporte e os fertilizantes, especialmente os nitrogenados.
No entanto, ele avalia que, no médio prazo, os mercados tendem a se reorganizar.
“O mundo precisa se alimentar. Com o tempo, os fluxos comerciais encontram novos caminhos”, concluiu.
Recomendações ao produtor
Diante desse cenário, Mendonça de Barros recomenda atenção especial ao momento da compra de insumos e à estratégia de expansão produtiva.
“Com a entrada da safra, os preços de grãos devem estar muito favoráveis para o suinocultor. É uma boa oportunidade para travar custos. Ao mesmo tempo, é importante cautela na expansão da produção para não pressionar demais a oferta”, orientou.
A avaliação do economista reforça que, apesar dos desafios macroeconômicos e logísticos, a suinocultura brasileira segue inserida em um contexto global de forte demanda por proteína animal.





















