Na reunião promovida pela APCS, Luis Rua destacou abertura de mercados, diversificação das exportações e sanidade como fatores estratégicos para a competitividade da carne suína brasileira
Suinocultura brasileira amplia presença global em cenário de fragmentação do comércio

A fragmentação geopolítica, o avanço das barreiras comerciais e as mudanças nas relações entre países estão redesenhando o comércio internacional de alimentos e criando novas oportunidades para a suinocultura brasileira. A avaliação é de Luis Rua, ex-secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e profissional com mais de 20 anos de experiência no agronegócio.
Rua apresentou sua análise nesta quinta-feira (18), durante reunião da Bolsa de Suínos de São Paulo, organizada pela Associação Paulista dos Criadores de Suínos (APCS). Segundo ele, o ambiente internacional passou por uma mudança significativa nos últimos anos, com o retorno de barreiras tarifárias e a combinação de exigências sanitárias, ambientais e de rastreabilidade.
“O mundo hoje é um mundo numa transformação muito rápida”, afirmou. Para o especialista, a imprevisibilidade e a fragmentação das relações internacionais aumentam os riscos comerciais e logísticos, mas também podem favorecer países capazes de garantir regularidade e segurança no fornecimento de alimentos.
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Nesse cenário, Rua apontou características que, em sua avaliação, colocam o Brasil em posição estratégica. Entre elas estão qualidade, escala de produção, sanidade, competitividade, regularidade, capacidade de atender diferentes demandas e avanços em sustentabilidade.
“O Brasil consegue ter todos esses atributos, e isso gera um outro atributo, que é o atributo de oportunidade”, disse.
Exportações avançam
Os números apresentados pelo ex-secretário mostram o crescimento da produção e das exportações brasileiras de carne suína na última década. Segundo os dados citados na palestra, a produção passou de 3,7 milhões de toneladas em 2016 para 5,6 milhões de toneladas em 2025, crescimento de cerca de 60%.
No mesmo período, as exportações passaram de aproximadamente 700 mil toneladas para mais de 1,5 milhão de toneladas, avanço de 128%. Rua destacou que nenhum outro país teria apresentado, segundo sua análise, crescimento proporcional semelhante no período.
A participação brasileira no comércio internacional também aumentou. De acordo com os dados apresentados, o Brasil passou de aproximadamente 8% para 15% a 16% das exportações mundiais de carne suína. Em 2026, a expectativa mencionada pelo especialista é de que as exportações brasileiras voltem a registrar crescimento.
Entre janeiro e agosto deste ano, o Brasil teria exportado 1,057 milhão de toneladas, alta de 9% sobre o mesmo período. Fora os dez principais compradores, o crescimento teria chegado a 28%, indicador apontado por Rua como sinal de maior diversificação dos destinos.
“As nossas exportações ainda são menos de um terço. Ou seja, o nosso principal consumidor é o consumidor brasileiro”, ponderou.
Abertura de mercados exige continuidade
Rua também destacou o trabalho de abertura e ampliação de mercados realizado nos últimos anos. Segundo ele, mais de 30 mercados foram abertos para a carne suína brasileira nos últimos cinco anos. Em 2025 e 2026, período em que esteve no Ministério da Agricultura, foram mais de 15.
Entre os destinos citados estão México, Canadá, Peru, República Dominicana, Malásia, Bahamas, Sri Lanka, Tailândia e El Salvador. Também foram obtidas ampliações de pré-listing para mercados como Filipinas, Chile, Singapura e Geórgia.
Para o ex-secretário, entretanto, a abertura de um mercado não significa início imediato das exportações. O processo envolve requisitos sanitários, habilitação de estabelecimentos, registros de produtos e embalagens, além da busca por compradores e da estruturação logística.
“A exportação não é um processo simples. A gente, às vezes, romantiza a exportação, mas ela não é simples”, afirmou.
A diversificação dos destinos aparece, segundo Rua, como um dos resultados desse processo. As Filipinas, atualmente principal mercado da carne suína brasileira, representam cerca de 25% das exportações, participação inferior à concentração observada anteriormente em mercados como Rússia e China.
Sanidade como passaporte
O avanço internacional, segundo Rua, depende da manutenção das condições sanitárias da cadeia. O especialista reforçou a importância da biossegurança e da biosseguridade diante dos riscos sanitários globais.
“Isso é o passaporte nosso para o mundo”, afirmou ao destacar a relevância da sanidade para a continuidade da expansão internacional.
Ao mesmo tempo, Rua alertou que a ampliação das exportações não significa possibilidade de crescimento ilimitado da produção. Para ele, a expansão deve considerar o comportamento da oferta e da demanda, especialmente porque o mercado brasileiro continua sendo o principal destino da produção nacional.
“Por mais que a gente tenha aumentado as nossas exportações, tenha dobrado nesses últimos cinco anos, as exportações ainda são menos de um terço”, observou.
A avaliação apresentada na reunião é de que a suinocultura brasileira entra em uma nova etapa de internacionalização, marcada não apenas pela conquista de novos destinos, mas pela necessidade de consolidar mercados, diversificar compradores, manter padrões sanitários e adaptar a oferta às diferentes demandas do comércio global.
Da Redação
























