Exportações chinesas de frango somaram US$ 2,6 bilhões no ano passado, quase o dobro do nível de 2020, segundo dados alfandegários
China transforma excedente de carne em exportações e disputa mercado com Brasil e Tailândia

A China produz mais proteína animal e laticínios do que consegue consumir e passou a exportar o excedente, o que atrai a atenção de produtores e reguladores ocidentais, segundo a Reuters. O esforço de Pequim para ampliar a segurança alimentar criou um excesso de oferta de carne e laticínios, e os exportadores chineses de proteína aproveitam essa produção para remodelar os mercados globais de alimentos. A China, que já era a maior fonte mundial de frutos do mar, tornou-se exportadora líquida de frango no ano passado, com US$ 2,6 bilhões em produtos de frango. As exportações de laticínios devem chegar a US$ 600 milhões este ano, o dobro de três anos atrás.
Em Tengzhou, na província de Shandong, a Wintop Food processa 60 milhões de frangos por ano e vende peitos, nuggets, almôndegas e bolinhos para mais de 20 países. As exportações responderam por metade dos lucros da empresa no ano passado e financiam uma expansão de 33 acres. O gerente-geral, Dang Yangyang, de 44 anos, passou os últimos dias acompanhando clientes de Gana, Iraque, Jordânia, Rússia e Senegal. “Os clientes internacionais costumavam desconfiar da qualidade”, disse à Reuters durante visita às instalações em agosto. “Mas quando a carne custa US$ 1.000 a menos por tonelada do que a dos concorrentes brasileiros e tailandeses, eles têm que comprar da China ou sair perdendo.” As aves da Wintop pesam em média 2,5 kg, contra 2,2 kg dos frangos de corte do Brasil, segundo a S&P Global, e são abatidas em menos de 42 dias, em vez de 45. O governo local subsidia a folha de pagamento dos mais de 2.000 funcionários, informou a empresa, sem dar detalhes.
Excedente nasce no mercado interno
Por décadas, proteína na China significou carne de porco, e o país concentra metade da produção mundial de suínos. O consumo per capita de carne suína caiu 13% desde o pico de 2023, segundo dados oficiais e da mídia estatal, enquanto o de frango subiu mais de 50% na década até 2024. Mesmo assim, a produção continuou a crescer, estimulada por subsídios a grandes produtores, que representaram cerca de 13% da receita bruta agrícola entre 2022 e 2024, segundo a OCDE. No ano passado, a China produziu um recorde de 59 milhões de toneladas de carne suína, e a produção de aves aumentou 7%. Os preços da carne suína são os mais afetados pela demanda interna menor.
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Entre os afetados está a criadora Huang Weiying, de 57 anos, da província de Hebei, que chegou a ter mais de 500 porcos. Em agosto, ela alimentava os últimos 10 e, com dívida de cerca de US$ 75 mil, planejava abatê-los até o outono. “Os preços da carne suína estão muito baixos. As pessoas nas cidades simplesmente pararam de comer carne de porco”, disse.
Avanço sobre mercados estabelecidos
Desde 2022, a China dobrou sua participação no mercado de aves processadas da União Europeia, para 10%, e triplicou a do Reino Unido, para mais de 14%, segundo a consultoria Gira. Ezequiel Pires, presidente da Branexx, empresa de comércio de carnes sediada em Lisboa, afirmou que a companhia começou a comprar aves da China em março, depois que clientes africanos buscaram alternativas às importações brasileiras. Segundo ele, o peito e as coxas chineses custam de 10% a 20% menos que os brasileiros.
Na Tailândia, líder do setor, a participação no mercado japonês diminui enquanto a da China avança. “É muito preocupante”, disse Kukrit Arepagorn, gerente da Associação Tailandesa de Exportadores de Processamento de Frangos de Corte, uma entidade do setor. “Os clientes estão usando cada vez mais os preços baixos do frango chinês como ponto de referência para negociação.”
Outras empresas chinesas também miram o exterior: a Yili planeja vender fórmula infantil no Sudeste Asiático no próximo ano, a Feihe lançou a AceKid na Indonésia em abril, e a Sunner, que aposta em frango marinado e refeições prontas, viu as vendas externas subirem 42%, para US$ 135 milhões, no ano passado.
Reação na Europa
Em julho, a Comissão Europeia abriu investigação antidumping sobre as importações de pato laqueado da China, depois que produtores locais alegaram que subsídios chineses geravam concorrência desleal. No mês passado, impôs direitos entre 41% e 67% sobre a proteína de ervilha chinesa. O frango escapou até agora, mas as autoridades europeias monitoram o mercado, disse um porta-voz da Comissão à Reuters. A Comissão informou ainda que os alimentos importados devem seguir os mesmos padrões de saúde e segurança dos produtos locais e que o bloco planeja reforçar a rotulagem de produtos de origem europeia, começando pelos avícolas em 2027.
Analistas afirmam que a China ainda carrega associações negativas de escândalos de segurança alimentar. Segundo Gordon Butland, da G&S Agriconsultants, o desafio dos exportadores é construir “confiança duradoura na segurança, rastreabilidade e consistência de seus produtos”.
Os ministérios da Agricultura e do Comércio da China não responderam às perguntas da Reuters sobre o crescimento das exportações de proteína. “Estamos exportando para todos os países que conseguimos”, disse Dang, da Wintop. “Se você tem uma vantagem de preço significativa, muitos clientes procuram ativamente por você.”
Fonte: Reuters
























