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Se não for agora, quando será? – por Ricardo Ernesto Rose

Termina melancolicamente a Conferência sobre Mudanças Climáticas, a COP-18, realizada em Doha, no Qatar.

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Se não for agora, quando será? – por Ricardo Ernesto Rose

Termina melancolicamente a Conferência sobre Mudanças Climáticas, a COP-18, realizada em Doha, no Qatar. O encontro acaba sem que fossem acordados importantes itens entre os países e marca a saída do acordo da Rússia, do Canadá e do Japão. A imagem mais dramática da conferência, que talvez reflita a urgência da situação, foi o desabafo do chefe da delegação das Filipinas, Naderev Saño, que com a voz embargada e em lágrimas discursava para a platéia: “Por favor, chega de desculpas e atrasos. Abram os olhos para a dura realidade que enfrentamos. Se não for agora, quando será? Se não formos nós, quem será?” O pronunciamento do diplomata arrancou aplausos e lágrimas da audiência. Dias antes, as Filipinas haviam sido atingidas por um tufão que causou grandes estragos no país e deixou um rastro de mais de 500 mortos.
Um dos principais motivos do impasse, segundo os especialistas, é quanto ao direito de emitir carbono, ou seja, manter o nível de atividade industrial sem precisar fazer grandes investimentos em redução de emissões. Segundo um estudo recente elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o mundo não poderia emitir mais do que 44 bilhões de toneladas de gás carbônico em 2020, sob pena de aumentar a temperatura média da Terra e assim acelerar o processo das mudanças climáticas. No entanto já em 2012, segundo o mesmo estudo, as emissões mundiais chegam aos 50 bilhões de toneladas.
Nesta discussão, países em desenvolvimento e grandes emissores como a Índia e a China argumentam que não podem limitar seu crescimento à custa da redução de suas emissões – já que grande parte de sua energia é gerada a partir do carvão mineral e petróleo. O Brasil, considerado um grande emissor por causa dos desflorestamentos (os quais, no entanto, foram reduzidos nos últimos cinco anos), refere-se à responsabilidade histórica pelas emissões, já que os países desenvolvidos vêm emitindo gases a muito mais tempo do que os países em desenvolvimento, por terem se industrializado antes. Assim têm mais responsabilidade quanto ao aquecimento global.
Enquanto a questão da equidade em relação ao direito de emitir não se define, permanecem em aberto os outros pontos importantes da discussão. Não está definida, por exemplo, a forma como deverá continuar o acordo. Os países concordaram, no final das discussões, em estendê-lo até 2020, mas ainda não acertaram as condições; o que muda e o que permanece como está. Existe apenas um consenso de que quando vigorar um novo acordo, todos os países terão metas de redução de emissões a cumprir.
Outro item é o fundo criado para financiar ações que ajudem os países pobres a enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, tais como obras de infraestrutura. Estas nações esperam que o fundo receba um aporte de 100 bilhões de dólares ao ano, a partir de 2020. No entanto, já fazem pressão para que as contribuições anuais para este fundo aumentem a partir de agora. A questão da transferência de tecnologia dos países desenvolvidos para os outros é mais um aspecto ainda indefinido, já que os Estados Unidos bloquearam qualquer menção deste assunto nos textos finais das discussões. Assim, mais uma vez, perdeu-se a chance de estabelecer um acordo sobre o qual se possa construir o futuro e planejar ações de redução das emissões de gases de efeito estufa – seja a nível mundial, nacional ou regional.
Os efeitos das mudanças climáticas já se fazem notar: nunca a área de gelo no oceano Ártico esteve tão reduzida, desde que se iniciaram as medições no local em 1979. As consequências do desaparecimento do gelo e do aquecimento das águas do oceano são fenômenos que muito provavelmente ainda trará outras consequências para o clima da Terra, já que os oceanos atuam como um grande sistema de refrigeração do clima.
Outra descoberta, recentemente publicada na revista Scientific American Brasil, traz novos aspectos à discussão sobre o aquecimento global. Até recentemente tudo parecia indicar que os fenômenos resultantes das mudanças climáticas poderiam em parte ser evitados, caso a temperatura média da Terra não subisse mais de 2º C. Isto, segundo a teoria, só seria possível, se as emissões de dióxido de carbono à atmosfera se estabilizassem na faixa dos 450 partes por milhão (ppm). Atualmente, no entanto, estamos emitindo 395 ppm e as perspectivas de uma rápida redução – até em vista do próprio impasse no Protocolo de Kyoto – são remotas. Por outro lado, dados indicam que extensas regiões de permafrost no Alasca, Canadá e Sibéria estão se aquecendo e liberando grandes quantidades de metano. Permafrost são áreas de solo congelado, que contendo matéria orgânica e grandes quantidades de metano, gás 20 vezes mais prejudicial ao aquecimento global do que o dióxido de carbono. O temor é que a liberação de grandes quantidades de metano na atmosfera acabe acelerando o aquecimento global e, por sua vez, aquecendo cada vez mais áreas de permafrost, acelerando a reação em cadeia.
Ainda são imprevisíveis as consequências das mudanças do clima sobre a economia e a política global. Certo é que a continuar neste ritmo, teremos um aumento dos fenômenos climáticos, alguns deles de proporções catastróficas; como os furacões, tufões, ondas de calor, secas, enchentes e vários outros. O impacto destas ocorrências sobre a agricultura, geração de energia, transportes e telecomunicações, poderá ser muito grande, provocando movimentos sociais imprevisíveis. As palavras do diplomata filipino podem ser um aviso ou uma sentença: “Se não for agora, quando será? Se não formos nós, quem será?”

Ricardo Ernesto Rose é jornalista, graduado em filosofia e pós-graduado em gestão ambiental e sociologia. Atua desde 1992 nos setores de meio ambiente e energia, na área de marketing de tecnologias. É diretor de meio ambiente da Câmara Brasil-Alemanha e editor do blog “Da natureza e da cultura” (www.danaturezaedacultura.blogspot.com)

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