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Pesquisa

Avanços em biodiesel exigem investimentos em biomassas alternativas

De acordo com dados apresentados pelo professor Sérgio Yoshimitsu Motoike, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), o mercado mundial de óleos vegetais tem aumentado 3% ao ano

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Avanços em biodiesel exigem investimentos em biomassas alternativas

A necessidade de diversificação de matérias primas para a produção de combustíveis, a partir de óleos vegetais, mobilizou representantes de  universidades, instituições de pesquisa e associações de produtores, no terceiro dia, 6 de novembro, do VII Congresso da Rede Brasileira de Tecnologia e Inovação de Biodiesel.

Palestrantes, em três paineis sobre o assunto, defenderam novos investimentos na pesquisa de biomassas alternativas e políticas públicas que contribuam para a estruturação de cadeias produtivas a elas relacionadas. O Congresso é uma realização do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O evento prossegue até esta quinta-feira, 7, em Florianópolis (SC).

Uma das teses comuns às discussões e aos  trabalhos apresentados  é a projeção de maior demanda mundial por óleos vegetais, tendo em vista o  aumento da população do planeta e as possíveis novas aplicações dos produtos.

De acordo com dados apresentados pelo professor Sérgio Yoshimitsu Motoike, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), o mercado mundial de óleos vegetais tem aumentado 3% ao ano. Lidera esse mercado a palma de óleo, que responde hoje por cerca de 69 milhões de toneladas, seguida pela soja, com participação aproximada de 57 milhões. 

Ainda segundo Motoike, a atual população do planeta, de 7,7 bilhões de pessoas,  consome 197 milhões de toneladas de óleo vegetal (produção mundial), um consumo per capita de, aproximadamente, 26 quilos de óleo.  Mais dois bilhões de pessoas em 2050 exigiria um acréscimo de 51 milhões de toneladas na produção de óleo vegetal para atender o mesmo padrão de consumo. “O que significa que temos um mercado potencial enorme. Se fossemos contar com a soja para resolver essa demanda projetada, teríamos que plantar outros 125 milhões de hectares. Temos espaço para isso?”, perguntou o professor.

“A macaúba é grande tesouro da biodiversidade brasileira”, disse  Motoike, defendendo a palmeira como alternativa viável para atender à demanda de óleo. “Ela é excepcional para a alimentação e para a produção de biodiesel. E tem papel importantíssimo na área ambiental. Produz uma quantidade de óleo muito parecida com a obtida pela soja, necessitando de muito menos água”.

O professor chamou a atenção para outras vantagens da palmeira. Lembrou que a macaúba tem uma plataforma multi produtos. “Um pouco diferente da palma, que concentra 90% dos seus produtos no óleo, com a macaúba temos outras opções de valor agregado, a exemplo do farelo da torta, comestível e rico em nutrientes.  E ainda há as folhas e a casca que podem gerar energia”.

Experiências de cultivo, tecnologia e a possibilidade de implantar a cultura em pastagens degradadas e em cultivos consorciados  foram outras vantagens apontadas pelo professor.  Ele citou, ainda, o “aumento impressionante”  de publicações no Google Scholar sobre a macaúba – de 300 publicações em 2000 a cinco mil publicações hoje. “Pelo  menos 360 publicações são em revistas de alto impacto, inclusive na área de bioenergia”.

Para Simone Favaro, da Embrapa Agroenergia, cuja palestra foi voltada a oportunidades de políticas públicas associadas à produção de macaúba pela agricultura familiar, a cadeia  produtiva da planta está no seu “nascedouro”. Por isso, segundo ela, precisa de ação conjunta dos setores envolvidos para “transformar o potencial da macaúba em realidade”.

Na sua palestra, Simone Favaro definiu e apresentou tipos de  políticas públicas e falou sobre iniciativas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). “A estruturação de fato da cadeia da macaúba exige passos que devem ser seguidos pela academia, pelo governo e pelo setor privado”, disse a pesquisadora.  

Óleo de palma

Roberto Yokoyama, Diretor da Dendê do Brasil S/A (Denpasa), vê para a palma de óleo, já líder no mercado de óleos vegetais, um “futuro ainda mais promissor”. Segundo ele, a palmácea é especializada em produzir óleo por meio da fotossíntese, com potencial significativo para o biodiesel, apesar de estar direcionada, hoje, somente para o setor alimentício. Yokoyama é também presidente da Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma) e da Câmara Setorial de Palma de Óleo.

Assim como Sérgio Motoike, Yokoyama chamou a atenção para a crescente demanda internacional por óleos vegetais e, em especial, pelo óleo de palma,  o que pode abrir, na opinião dele, oportunidades para o Brasil. No País, 90% da produção está concentrada no nordeste do Pará, com alta produtividade e condições de expansão, segundo o diretor da Denpasa, para quem o Brasil tem condições de chegar a competir com o sudeste asiático. Indonésia e Malásia são atualmente os maiores produtores. 

“Comparada à soja, a palma produz dez vezes mais por unidade de área. E aqui é produzida de forma sustentável, sem causar desmatamento”, afirmou Yokoyama, lembrando o fato de que, no fim da década de 1990 e início dos anos 2000, a Embrapa elaborou o zoneamento  agroecológico para a cultura, orientando que  o plantio se desse apenas em áreas já desflorestadas. “A expansão ocorreu seguindo à risca essas orientações”, ressaltou.

De acordo com dados da Abrapalma, a cultura gera, no Brasil, 20 mil empregos diretos e promove renda, em especial para o agricultor familiar – a palmácea pode ser produzida em pequenas áreas.

Yokoyama lembrou também que a palma de óleo é uma cultura perene e, dependendo da variedade, tem um ciclo de 25 a 35 anos. “Precisa então do quê para chamar os investidores?”, perguntou. “Segurança jurídica e isso significa regularização fundiária, ponto já levantado há mais de dez anos e qe pouco avançou, e um modelo de financiamento de pesquisa que venha a  atender culturas perenes.  Hoje pesquisas são financiadas por um período de três anos e não se consegue renovar, o que faz com que todo um trabalho seja perdido”, concluiu. 

Inovações em engenharia de processos e destinadas a ampliar a eficiência industrial, tecnologias de produção, maior escala de produção de espécies anuais e de microalgas para biodiesel, e produção do biocombustível a partir de matérias primas residuais e de baixa qualidade são temas também tratados no Congresso.

Na manhã desta quinta-feira, 7 de novembro,   os impactos das mudanças climáticas no transporte aéreo e as perspectivas para os combustíveis renováveis para a aviação no Brasil serão discutidos.  A industrialização na cadeia produtiva das oleaginosas e as novas oportunidades para o biodiesel no contexto da bioeconomia também estão na programação. 

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