Leia o artigo de Ricardo Balthazar, correspondente do Valor em Washington, baseado nos estudos na economista Karen Johnson.
Um novo olhar para origem da crise
Uma das teorias mais disseminadas sobre as origens da crise atual aponta os desequilíbrios existentes entre as principais economias do planeta como um fator decisivo. Países que acumularam saldos comerciais exuberantes, como a China e os grandes produtores de petróleo, usaram suas reservas para financiar o endividamento dos Estados Unidos, alimentando a especulação financeira e os excessos que levaram o mundo à beira do abismo.
O presidente do Federal Reserve, o banco central americano, Ben Bernanke, tem aí uma das suas explicações prediletas para o que aconteceu nos últimos anos. Os economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) também gostam da teoria. Faz tempo que a instituição prega a correção desses desequilíbrios como a melhor maneira de promover o crescimento sustentável da economia global e evitar a ocorrência de novos desastres financeiros.
Mas um exame cuidadoso dos fluxos internacionais de capital e do comportamento dos investidores no período imediatamente anterior à crise sugere que as autoridades estão olhando para o lado errado, como argumenta a economista americana Karen Johnson num estudo que acaba de ser publicado pelo Conselho de Relações Exteriores, um influente grupo de estudos sediado em Nova York.
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Karen dirigiu a divisão de assuntos internacionais do Fed até recentemente e fez uma análise minuciosa dos movimentos de capital no sistema financeiro internacional em 2007, quando as consequências dos excessos cometidos nos anos anteriores começaram a aparecer. Seu estudo conclui que a estabilidade da economia mundial dependerá mais no futuro do monitoramento das transações financeiras internacionais do que de mudanças nas políticas econômicas de países como os EUA e a China.
O déficit nas contas externas dos EUA atingiu US$ 730 bilhões em 2007, e o país absorveu um fluxo líquido de capital externo de valor equivalente para financiá-lo. Mas Karen observa que o fluxo bruto de recursos dirigidos por bancos e investidores estrangeiros para a economia americana naquele ano foi muito superior às necessidades de financiamento do país. Ele atingiu US$ 2,1 trilhões, quase três vezes o valor do déficit dos EUA.
Metade desse dinheiro teve a Europa como origem, nota Karen. Bancos e investidores com sede no Reino Unido despacharam US$ 561 bilhões, mais que o dobro do volume de recursos provenientes da China, que enviou US$ 260 bilhões, pouco mais de um décimo do total de recursos externos captados pelos EUA em 2007. O Japão contribuiu com US$ 66 bilhões e os principais exportadores de petróleo entraram com US$ 52 bilhões.
A maioria das análises sobre a economia mundial se concentra sobre os fluxos líquidos de capital, numa contabilidade que subtrai dos ingressos recebidos por cada país os recursos enviados ao exterior por investidores domésticos. Isso tende a realçar a contribuição de países superavitários, como a China. Mas Karen argumenta que a análise dos fluxos brutos de capital permite identificar com mais exatidão os atores cujo comportamento é mais relevante para a estabilidade do sistema financeiro internacional.
Ela mostra que o fluxo de capital externo para os EUA aumentou num ritmo muito maior que o déficit no balanço de pagamentos do país entre 2003 e 2007. O motivo principal foi o apetite dos investidores estrangeiros pelos rendimentos oferecidos pelos ativos americanos. Dos US$ 2,1 trilhões recebidos pelos EUA em 2007, US$ 1,6 trilhão teve como origem investidores privados que adquiriram principalmente ações e outros papéis emitidos por bancos e empresas americanas.
A China, o Japão e os grandes exportadores de petróleo também apostaram alto em Wall Street em busca de rentabilidade para suas reservas. Mas a análise de Karen sugere que sua contribuição para os excessos cometidos no período anterior à crise foi bem menor que a da Europa. “O papel da China como um fator na alimentação da bolha financeira nos mercados de Nova York parece significativo, mas menor”, diz a economista em seu trabalho.
Ao mesmo tempo, ela mostra que os EUA foram uma fonte de financiamento importante para a Europa nos anos em que a bolha se formou. Em 2007, o fluxo bruto de capital de bancos e investidores americanos para o exterior chegou perto de US$ 1,5 trilhão. A maior parte desses recursos foi absorvida pelos europeus na forma de empréstimos dos bancos americanos.
A recessão tornou menos alarmantes alguns dos desequilíbrios existentes na economia global. O déficit externo dos EUA, que atingiu mais de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2007, deve encolher para 2,8% do PIB neste e no próximo ano, segundo o FMI. Isso reduzirá a dependência que os EUA têm de seus credores internacionais num momento em que eles estão mais retraídos. O superávit comercial da China também vai diminuir neste ano, com a queda de suas exportações.
Nesta semana, autoridades americanas e chinesas se reuniram por dois dias em Washington para discutir as relações entre os dois países. Os EUA voltaram a manifestar preocupação com esses desequilíbrios e cobraram mudanças no modelo econômico chinês. Os americanos querem que a China estimule o consumo doméstico e dependa menos dos seus exportadores e do acúmulo de superávits comerciais para continuar se desenvolvendo.
Para Karen, isso reflete um equívoco fundamental sobre a natureza da crise atual e suas implicações. “É preciso examinar o papel de vários países e instituições nos mercados financeiros, não nos mercados para bens e serviços”, diz ela. “Políticas macroeconômicas desenhadas para reduzir desequilíbrios de conta corrente não vão necessariamente fortalecer a estrutura financeira global.”





















