Governo americano utiliza o sistema de pagamento digital e pautas ambientais para justificar taxas de até 37,5%
Pix é o principal alvo de novo tarifaço dos EUA

O sistema de pagamentos digital brasileiro, o Pix, emergiu como o ponto central da nova ofensiva comercial dos Estados Unidos contra o Brasil. Segundo avaliação de Marcelo Fernandes de Oliveira, professor do Departamento de Ciências Políticas e Economia da Unesp e especialista em relações internacionais, a atual investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) usa justificativas ambientais e trabalhistas como pano de fundo, mas foca no controle do ecossistema financeiro pelas gigantes de tecnologia norte-americanas.
A investigação foi aberta com base na Seção 301 da legislação comercial dos EUA, um dispositivo que permite sanções unilaterais contra práticas consideradas desleais. O anúncio da decisão final é aguardado para o dia 15 de julho e pode impor uma taxação combinada de até 37,5% sobre as exportações brasileiras (sendo 25% por supostas barreiras no comércio digital/Pix e 12,5% alegando insuficiência no combate ao trabalho forçado).
Ao contrário do “tarifaço” anterior promovido pelo governo de Donald Trump, o processo atual segue um rito legal rigoroso construído ao longo dos últimos meses, o que torna uma eventual reversão jurídica muito mais complexa.
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Pressão das Big Techs e o xadrez dos Brics
Na análise de Fernandes, o avanço meteórico do Pix incomoda diretamente companhias globais como Meta e Google, que enxergam a ferramenta do Banco Central como uma barreira regulatória aos seus próprios projetos de carteiras e pagamentos digitais em território brasileiro.
Além disso, há um forte componente geopolítico envolvido: “Se houver integração de pagamentos apenas entre os países do Brics, estima-se um deslocamento de cerca de 20% da intermediação do dólar no comércio internacional. Estamos falando de trilhões de dólares. Esse é o jogo em que o Brasil se inseriu”, ressalta o professor da Unesp.
Apesar da forte pressão internacional, o especialista aponta que o governo brasileiro não deve fazer concessões que enfraqueçam o Pix domesticamente, dado o enorme apelo popular da tecnologia, restando como alternativa técnica negociar limites para a futura internacionalização do sistema.
Por que o agronegócio está mais protegido que a indústria?
Embora o pacote tarifário assombre o comércio bilateral, o agronegócio brasileiro demonstra alta capacidade de absorção e blindagem. A demanda global por alimentos atua como um colchão de segurança para o produtor nacional.
A assimetria de dependência entre Brasil e EUA:
Gargalo de inflação americana: No tarifaço anterior, os próprios EUA recuaram em restrições sobre carne, café e suco de laranja ao perceberem que taxar o agro brasileiro gerava inflação imediata e desgaste político junto ao consumidor norte-americano.
Logística cruzada: Os maiores frigoríficos do Brasil possuem plantas industriais instaladas dentro dos EUA, gerando empregos locais e blindando a própria cadeia de suprimentos interna americana.
Flexibilidade do agro: Commodities agrícolas têm liquidez global imediata. Caso o canal americano adote barreiras pesadas, a produção brasileira pode ser redirecionada para mercados parceiros na Ásia e no Oriente Médio.
Por outro lado, o analista alerta que a indústria de transformação — especialmente o setor automotivo e de autopeças de alto valor agregado, que fornece motores flex diretamente para montadoras nos EUA — corre riscos severos de contração. Uma eventual crise na indústria pesada diminuiria a arrecadação interna de impostos do Estado brasileiro, afetando indiretamente o financiamento de políticas públicas rurais, como o Plano Safra.
Fonte: Canal Rural























