Agronegócio Global sob pressão: entenda como os conflitos estão elevando custos e impactando as exportações agrícolas da Ucrânia
Agronegócio Global: conflitos elevam custos e ameaçam produção e exportações agrícolas da Ucrânia

A escalada de tensões no Oriente Médio e seus impactos sobre o mercado global de energia começam a afetar diretamente a produção agrícola na Ucrânia, um dos principais fornecedores mundiais de grãos e oleaginosas. Produtores já relatam aumento expressivo nos custos, especialmente com combustíveis e fertilizantes, o que tem levado à redução de áreas cultivadas e ao risco de queda na produção.
O agricultor ucraniano Mykola Maliienko, por exemplo, decidiu reduzir em 100 hectares a área destinada ao milho nesta safra. A medida reflete a necessidade de contenção de despesas diante da disparada dos preços dos insumos, agravada por interrupções no fornecimento global de energia após conflitos envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.
O diesel, essencial para as operações agrícolas, teve forte valorização recente, praticamente dobrando de preço desde o fim de fevereiro. O aumento pressiona o planejamento financeiro dos produtores, especialmente em períodos críticos como plantio e colheita.
Leia também no Agrimídia:
- •Perigosa dependência externa, por Vanir Zanatta
- •Embrapa avança na África com projeto de tecnologia para produção sustentável
- •EUA preparam medidas de apoio ao agro enquanto definem metas de biocombustíveis para 2026/2027
- •Acordo MERCOSUL–União Europeia entra em vigor em maio e amplia acesso a mercados
Agricultura segue estratégica, mas enfrenta desafios estruturais
Mesmo em meio à guerra com a Rússia, a Ucrânia mantém posição relevante no mercado internacional, exportando alimentos para cerca de 150 países. No entanto, esse número ainda é inferior ao período anterior à invasão em larga escala iniciada em 2022, quando o país atendia aproximadamente 190 mercados.
A geografia das exportações também mudou. Houve redução nas vendas para Ásia, Oriente Médio e Oceania, enquanto os embarques para a Europa cresceram. Analistas apontam que a Rússia tem ampliado sua participação em mercados tradicionalmente atendidos pela Ucrânia, especialmente no trigo, beneficiando-se de custos mais baixos de energia e insumos.
Custos crescentes podem reduzir produção e competitividade
A elevação dos preços de fertilizantes, impulsionada pela alta do gás natural — insumo-chave na produção de nitrogenados —, também pressiona o custo de produção agrícola. Estimativas indicam aumento entre 10% e 30% nos custos médios, podendo chegar a patamares ainda mais elevados caso o cenário de instabilidade persista.
Executivos do setor projetam queda na produção agrícola ucraniana entre 5% e 10% nesta temporada, com possibilidade de impactos mais severos dependendo das condições climáticas e da evolução dos custos.
Logística e energia seguem como gargalos para exportação
A guerra com a Rússia continua sendo um fator crítico para o setor. O bloqueio inicial dos portos do Mar Negro, responsáveis por cerca de 90% das exportações agrícolas antes do conflito, forçou o redirecionamento das cargas para rotas alternativas, como portos no rio Danúbio e países do Leste Europeu.
Esse movimento elevou os custos logísticos, reduziu a competitividade e pressionou os preços internos, gerando excedentes no mercado doméstico. Embora a abertura de corredores de exportação tenha ajudado a estabilizar parcialmente a situação em 2023, os volumes ainda permanecem abaixo dos níveis pré-guerra.
Combustível se torna fator crítico para a próxima safra
A destruição de refinarias e a dependência de importações de diesel agravaram ainda mais o cenário energético do país. A demanda por combustível é especialmente elevada durante o plantio e a colheita, o que aumenta a vulnerabilidade dos produtores em momentos de alta de preços.
A dificuldade de armazenamento e o risco de novos ataques a infraestruturas energéticas limitam a capacidade dos agricultores de formar estoques, tornando o abastecimento ainda mais incerto.
Incertezas globais podem impactar oferta de alimentos
O governo ucraniano projeta uma colheita estável, apoiado por condições climáticas favoráveis e medidas de suporte, como a oferta de combustível subsidiado. No entanto, produtores seguem cautelosos diante das incertezas.
A possível redução na produção e nas exportações da Ucrânia pode ter reflexos no mercado global de alimentos, especialmente em commodities como trigo e milho. Em um cenário de oferta mais restrita e custos elevados, a volatilidade tende a permanecer como fator central para o agronegócio internacional nos próximos meses.





















