Depois de assistir à decretação da falência da Agrenco, trading que fundou em 1992, o empresário Antônio Iafelice disse ao Valor que foi “roubado” e “injustiçado”.
Falido, Iafelice, da Agenco, diz que foi roubado

“Roubado” e “injustiçado” são as palavras a que o empresário Antônio Iafelice recorre para descrever como se sente em relação aos acontecimentos que determinaram a bancarrota da Agrenco, trading de commodities agrícolas que fundou em 1992 e que, no auge, faturou R$ 3,4 bilhões e movimentou mais de 6 milhões de toneladas de grãos.
Iafelice recebeu o Valor na sede da Agrenco depois de os credores recusarem uma nova – e controversa – proposta de Recuperação Judicial, que pretendia reestruturar o pagamento de uma dívida de quase R$ 1,2 bilhão, após o fracasso dos planos aprovados em 2009 e 2011.
Durante quase duas horas, o empresário discorreu sobre as causas que levariam o juiz da 1ª Vara de Falências de São Paulo a decretar a falência das empresas Agrenco no Brasil. A sentença é o desfecho de um imbróglio iniciado há cinco anos, em 20 de junho de 2008, quando Iafelice, sócios e alguns dos principais executivos da companhia foram presos durante a Operação Influenza da Polícia Federal, sob um leque de acusações que incluia lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e remessa ilegal de dinheiro ao exterior.
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“A Operação Influenza quebrou a Agrenco”, afirma Iafelice. “Os agentes da Polícia Federal vieram aqui, confiscaram todos os arquivos e computadores. Imediatamente, perdemos a condição de trabalhar. Os bancos cortaram o crédito, arrestaram os estoques de grãos e não permitiram que a empresa cumprisse seus contratos.” A paralisação da mesa de operações obrigou a empresa a liquidar cerca de US$ 250 milhões em derivativos na bolsa de Chicago. “Fomos obrigados a ‘abrir’ nosso hedge. Em pouco mais de um mês, perdemos R$ 800 milhões”.
Em 2010, as acusações contra Iafelice foram retiradas depois que a Justiça Federal declarou ilegais as escutas telefônicas usadas como provas pela Política Federal. “Foi uma armação, que até hoje não sei de onde surgiu. Estamos processando a União. Daqui a uns 20 anos a gente vê o que acontece.”
Presos, Iafelice e seus sócios imediatamente renunciaram aos cargos na Agrenco. “Não sabia o que estava acontecendo e não queria prejudicar a companhia. Sequer morava no Brasil. Vim para o casamento de um sobrinho em Cuiabá. Quando desembarquei, a Polícia estava me esperando de metralhadora na mão”. Solto após 15 dias, o empresário retornou à França, país onde residia e no qual começou seus negócios.
Com os sócios afastados, três membros externos do Conselho de Administração – o empresário José Monforte, o ex-presidente do Banco do Brasil, Cassio Casseb e o economista James Wright – foram nomeados copresidentes e assumiram a tarefa de recuperar a Agrenco.
Em setembro de 2008, a Agrenco entrou com um período de recuperação judicial e contratou a Íntegra Associados, do consultor Nelson Bastos, para elaborar e acompanhar a aprovação de um plano de recuperação. Ainda naquele mês, Monforte pediu desligamento do Conselho, e seu posto passou a ser ocupado por Bastos. Pouco tempo depois, Casseb também renunciou ao posto, abrindo caminho para a nomeação de Ruy Schneider e Nils Bjellum – acionista e sócio de Iafelice na Agrenco Holding BV, com sede na Holanda.
Em março de 2009, os credores aprovaram o primeiro plano de recuperação da Agrenco, que previa a venda de ativos e a contratação de uma empresa para concluir e operar as plantas da companhia. A Íntegra, de Bastos, foi então contratada pelos bancos para acompanhar a execução do plano.
Nelson Bastos é o alvo preferencial da metralhadora de Iafelice. O empresário acusa o consultor de trabalhar com o único objetivo de vender as fábricas da companhia, atendendo ao interesse dos bancos credores. “Nelson Bastos e sua turma comandaram a empresa. O interesse deles era liquidar as fábricas, pegar o dinheiro e ir embora”, diz Iafelice.
O fundador da Agrenco acusa Bastos e os bancos de terem vendido uma planta de esmagamento de soja, em Marialva (PR), por um preço inferior ao do mercado. “Se desfizeram da planta por R$ 37 milhões e, dois meses depois, o comprador, muito bom de negócio, revendeu para a Petrobras por R$ 110 milhões”, ironiza. A Agrenco também vendeu seus estoques de soja, por cerca de R$ 50 milhões, e uma participação acionária na norueguesa Denofa, por cerca de R$ 18 milhões.
O objetivo das vendas era levantar recursos para concluir a construção de outras duas unidades de esmagamento e cogeração de energia, em Caarapó (MS) e Alto Araguaia (MT), de modo que a companhia pudesse voltar a operar e gerar caixa.
A planta de Alto Araguaia havia sido inaugurada em março e, segundo Iafelice, operava normalmente, embora demandasse arremates. Conforme ele, os aportes necessários para que as duas fábricas começassem a trabalhar era inferior a R$ 10 milhões. No entanto, cinco anos depois, as indústrias seguem paradas.
“Caarapó hoje está igualzinha a cinco anos atrás. Até hoje a parte da alimentação da caldeira está desmontada no chão. Ainda não sei onde enfiaram mais de R$ 100 milhões, mas não foi no que devia. Nada foi feito”, afirma Iafelice. O empresário diz ainda que, sob o comando de Nelson Bastos, a empresa confessou débitos fiscais sobre operações realizadas em 2007 “que por óbvio não existiam”, acarretando dívidas de aproximadamente R$ 250 milhões.
Bastos sustenta que os valores arrecadados na venda de ativos foram insuficientes para concluir as plantas e fazer frente às ainda elevadas necessidades de caixa da companhia para pagamento de salários, fornecedores e financiamentos. Relatório apresentado pela Íntegra em dezembro de 2009 aponta que, só naquele ano, a Agrenco destinou mais de R$ 22 milhões ao término das fábricas.
O consultor disse ainda que não dava ordens na Agrenco e que todas as medidas tomadas pelo Conselho durante o período foram respaldadas por Nils Bjellum, aliado de Iafelice. Bastos e os demais conselheiros (exceto Bjellum) renunciaram em outubro de 2010, depois que uma assembleia de acionistas, convocada por Iafelice, tentou destituí-los.
Em seguida, o empresário conseguiu aprovar um aumento do conselho e voltou a dar as cartas na empresa. Em agosto 2012, amparado por uma decisão judicial, foi contratado como conselheiro e passou a trabalhar diretamente na elaboração de um novo plano de recuperação – rechaçado pelos bancos.
Iafelice havia tentado retornar à companhia em 2008 e 2009, mas teve seus pedidos negados pelos credores e pela Justiça. “Os credores financeiros argumentaram, através de seus advogados, que a minha volta não era necessária porque a empresa se recuperava bem. Mas como uma empresa parada pode se recuperar bem?”
Segundo o empresário, o destino da Agrenco teria sido outro caso os administradores da época e os credores tivessem cumprido os contratos vigentes. “Tínhamos contrato de 10 anos com a Votorantim para fornecimento de energia, terminais portuários e operações logísticas, que poderiam ser fonte de receita. Mas os credores deixaram tudo se perder”. E prossegue: “Não posso dizer [que agiram de má fé], mas os bancos foram incompetentes, tomaram decisões equivocadas e medidas inúteis, que impediram que a empresa saísse daquela situação”.
O represente de um credor financeiro, que pediu para não se identificar, afirma que os bancos nunca tiveram qualquer ingerência sobre os negócios da Agrenco e que todas as decisões tomadas desde 2008 sempre contaram com a aprovação do representante de Iafelice no conselho de administração. De acordo com ele, a falta de capital de giro e a dificuldade em contratar um operador diante do ambiente ‘hostil’ dentro da companhia inviabilizaram a recuperação da companhia. “É um absurdo dizer que os credores venderam ativos abaixo do valor de mercado. Ninguém rasga dinheiro.”





















