Pesquisa brasileira no campo quer entender linguagem dos animais para evitar estresse.
Conversando com os bichos
Um diálogo inusitado está sendo travado por zootecnistas e pesquisadores de faculdades de ciências agrárias e veterinárias de grandes universidades brasileiras com os animais no campo. O desafio é entender a linguagem de porcos, aves, cavalos, bois e ovelhas evitando situações de estresse que, em última análise, afetam desde a reprodução até produtividade e a qualidade da carne a ser comercializada pelos produtores, quando é o caso.
Decifrar o que estão dizendo os animais – por meio de sinais sonoros e comportamentais – é uma tendência cada vez mais forte na criação de rebanhos no mundo inteiro e também no Brasil, como explica o zootecnista Mateus Paranhos, professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), em Jaboticabal (SP), um dos maiores especialistas brasileiros no assunto. Ele garante que bicho também tem distúrbios psicológicos e sofre até de anorexia. “Entender melhor esses fenômenos ajuda o produtor a intervir de forma precoce, evitando que situações de sofrimento e estresse se tornem problemas mais complexos, como agressões, que afetam o comportamento social do grupo”, explica. Segundo ele, a iniciativa também reduz a mortalidade e facilita o trabalho dos criadores.
Um software desenvolvido pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri), da Unicamp, tenta reconhecer os sons emitidos por suínos, bovinos, e aves de corte e poedeiras e, com isso, reduzir o uso de medicamentos, distribuir melhor a alimentação e o tempo de confinamento dos animais. O programa capta a vocalização dos animais, processando, traduzindo, classificando e explicando o que eles estão querendo dizer.
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A professora e pesquisadora Irenilza de Alencar Naas, que coordenou a equipe de trabalho responsável pelo desenvolvimento do software, explica que o programa é instalado na área de convívio dos animais, possibilitando que o produtor capte a emissão de sons que, avaliados pelo computador, reconhecem os sinais dos animais para sensações de medo, fome, frio, estresse, calor e prazer. Hoje, segundo ela, a pesquisa está concentrada na energia envolvida na vocalização. “As espécies procuram viver dentro do gasto mínimo de energia. Só gastam energia em situação de estresse”, justifica. De acordo com ela, as observações mostram que à medida que o animal se manifesta por meio de sons, gasta uma quantidade de energia que tem um equivalente em calorias. “É o que acontece na castração e no abate de suínos sem anestesia. O animal perde peso quando emite sons equivalentes à dor.”
O mesmo ocorre quando um pintinho está com frio, só que nesse caso, segundo a pesquisadora, a perda é dupla já que o animal sofre com a falta de calor e também perde energia vocalizando essa falta. O programa que relaciona a vocalização das sensações do plantel com a perda de energia e, consequentemente, de calorias, deverá estar disponível no mercado dentro de dois ou três anos, calcula Irenilza Naas. “Ainda teremos que ir mais fundo nessa pesquisa”, avisa.





















