Estevão Carvalho, gerente executivo de mercado da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), apresentou panorama internacional e nacional da suinocultura durante encontro promovido pela APCS
Exportações são estratégicas para equilibrar mercado interno, diz ABPA em reunião da Bolsa de Suínos de SP

A Bolsa de Suínos de São Paulo, encontro semanal promovido pela Associação Paulista dos Criadores de Suínos (APCS), recebeu nesta quarta-feira (03) uma apresentação sobre as perspectivas de mercado da carne suína no cenário nacional e internacional. Conduzida pelo presidente da APCS, Valdomiro Ferreira Júnior, a reunião teve como convidado Estevão Carvalho, gerente executivo de mercado da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que substituiu o presidente da entidade, com agenda no Rio Grande do Sul no mesmo dia.
Ao abrir sua fala, Carvalho justificou a importância de contextualizar o produtor sobre o cenário externo. “Eu acho que de fato é muito importante para o produtor entender todo esse contexto internacional, já que um terço da carne suína que a gente produz vai para o mercado externo, e como esse contexto internacional acaba aterrissando na realidade do produtor aqui no dia a dia, dos preços, na demanda”, afirmou.
Peste suína africana e tensões geopolíticas moldam o cenário externo
Segundo o executivo, dois fatores externos têm impacto direto sobre o setor: a peste suína africana, que segue afetando rebanhos em diversas regiões do mundo, e as tensões geopolíticas que alteram rapidamente o comércio internacional.
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“A dificuldade que o mundo enfrenta hoje [é a] peste suína africana. O fato de sermos livres é um grande diferencial”, disse Carvalho, acrescentando que o Brasil tem investido em ampliar e diversificar seus mercados compradores “tanto para aumentar nossa presença no mercado internacional como para reduzir risco em épocas de dificuldade”.
Sobre o quadro geopolítico, ele citou o conflito no Oriente Médio e as sucessivas mudanças tarifárias como fatores de instabilidade constante. “O tarifasso e todas as mudanças que acontecem com muita velocidade hoje, fechamento de mercado, abertura de mercado, imposição de tarifas, a gente tem que estar sempre muito atento a isso e ter sempre muita capilaridade, opções de mercados diferentes para a gente vender o nosso produto”, ressaltou.
Brasil é o terceiro maior exportador mundial
Carvalho apresentou um retrato do setor suinícola brasileiro: o país é hoje o quarto maior produtor mundial de carne suína, com 5,6 milhões de toneladas produzidas no ano passado, e o terceiro maior exportador, posição alcançada após ultrapassar o Canadá, com cerca de 15% da fatia do comércio mundial do produto.
Foram abatidas 48 milhões de cabeças em 2025, resultando em 1,5 milhão de toneladas exportadas — cerca de um terço de toda a produção nacional — para praticamente 100 países, sendo 94 destinos ao longo do último ano. “Um quarto, na verdade, um quarto de tudo que a gente produz, a gente exporta, e pretendemos aumentar ainda mais esse volume para que a gente tenha condições de equilibrar o nosso mercado doméstico também”, afirmou.
Ele destacou ainda que o crescimento do setor ao longo das últimas décadas — com histórico de produção desde 1989 — combinou aumento moderado do consumo interno com expansão das exportações em volume e em número de destinos, o que reduziu a dependência de mercados isolados. “Vocês lembram bem aí do passado, como a gente chegou a depender de países como a Rússia, por exemplo”, lembrou, citando o cenário anterior à diversificação atual.
Quanto à concentração geográfica da produção, o executivo observou que o abate em plantas com Serviço de Inspeção Federal (SIF) ainda está concentrado nos três estados do Sul, com participação menor do Centro-Oeste e do Sudeste.
China lidera produção e consumo, mas não é exportadora relevante
Um dos pontos centrais da apresentação foi o papel da China no mercado mundial. De acordo com Carvalho, o país concentra metade de toda a produção suína do planeta, sendo simultaneamente o maior produtor e o maior consumidor de carne suína do mundo — mas não figura como grande exportador.
Ele explicou que, após os surtos de peste suína africana de 2018 e 2019, que provocaram forte queda no plantel chinês, a reconstrução do rebanho foi tão intensa que o país passou a produzir volume superior à capacidade de absorção do próprio mercado interno. “O que provocou a queda grande de preços, uma dificuldade financeira dos produtores de carne suína lá na China e, consequentemente, a gente começa a ver um outro produto chinês sendo exportado, principalmente ali no sudeste asiático, nos países mais próximos”, disse. Ainda assim, segundo ele, esse movimento não configura uma tendência estrutural, “igual é, por exemplo, no caso do peito de frango”.
Já do lado das exportações, os Estados Unidos aparecem como maior player, com 30% do mercado mundial, seguidos pela União Europeia e pelo Brasil, que consolida a terceira posição no ranking global.
Filipinas se tornam o maior comprador do Brasil
Carvalho chamou atenção para a situação sanitária das Filipinas, hoje um dos países mais afetados pela peste suína africana no sudeste asiático, ao lado de dificuldades também enfrentadas pela Europa. Segundo ele, a dificuldade do país asiático em controlar a doença derrubou a produção local e abriu espaço para o Brasil suprir parte dessa demanda.
“O Brasil se tornou o fornecedor que tem condições de repor esse volume não produzido localmente. Por isso as Filipinas cresceram tanto o volume de importação e se tornou o maior cliente do Brasil”, explicou. Para o executivo, especialistas avaliam ser difícil uma reação rápida da produção filipina, o que sustenta a expectativa de manutenção de volumes relevantes de exportação brasileira para o país nos próximos períodos.
Em nível nacional, as Filipinas respondem por cerca de 25% de tudo o que o Brasil exporta de carne suína. Já no estado de São Paulo, essa concentração é ainda mais acentuada: quase 70% dos embarques paulistas tiveram como destino o mercado filipino. Carvalho citou também um crescimento expressivo, neste ano, das importações peruanas de carne suína produzida em São Paulo.
São Paulo ainda exporta menos que Santa Catarina, mas cenário deve mudar
Um dos eixos da apresentação foi a diferença de acesso a mercados entre os estados brasileiros. Embora o Brasil como um todo seja reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como livre de febre aftosa sem vacinação, esse status ainda não foi internalizado por todos os países importadores — o que mantém Santa Catarina em posição de maior acesso relativo a determinados destinos.
“A fotografia que a gente ainda tem hoje ainda é uma fotografia de um estado que tem mais acesso ao mercado do que o restante do país”, reconheceu Carvalho.
Sobre o desempenho recente de São Paulo, o executivo apresentou dados de janeiro a julho comparando 2025 e 2026: queda de 10% no volume exportado e de 40% no valor gerado pelas exportações do estado no período. Ainda assim, ele destacou que as exportações brasileiras como um todo atingiram patamares recordes neste ano, com média de 130 mil toneladas exportadas por mês — volume superior ao registrado nos anos anteriores.
O trabalho de reconhecimento sanitário em outros países
Carvalho detalhou a atuação da ABPA junto a governos estrangeiros para que o status sanitário nacional seja reconhecido de forma ampla, permitindo a habilitação de plantas frigoríficas de outros estados além de Santa Catarina — incluindo Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso.
“Cada país tem sua soberania de internalizar essa decisão como bem entender. Então faz parte aqui do nosso papel ir a cada um desses países e cobrar que esse reconhecimento seja internalizado nos regulamentos”, afirmou, referindo-se ao reconhecimento obtido pelo Brasil junto à OMSA.
Como exemplo recente, ele citou a China, que reconheceu o Brasil inteiro como livre de febre aftosa sem vacinação logo após um evento da ABPA com o Ministério da Agricultura em Pequim. A expectativa agora é destravar também o acesso ao mercado de miúdos suínos chineses, que depende da assinatura de um protocolo específico já em fase final.
Outros mercados também estão no radar da entidade. “Além disso, a gente também tem a possibilidade de melhorar o acesso a outros mercados interessantes que hoje apenas Santa Catarina pode, como por exemplo, Japão e Coreia do Sul”, disse Carvalho, informando que ele e o presidente da ABPA visitarão os dois países nas próximas duas semanas para solicitar formalmente a extensão do reconhecimento a todo o território brasileiro.
O executivo mencionou ainda viagem recente à Oceania — região historicamente fechada às importações de carne suína brasileira — em conjunto com o Ministério da Agricultura, buscando avanços em mercados como Austrália, Nova Zelândia e Papua-Nova Guiné.
Diferenciais competitivos e desafios internos
Para Carvalho, o status sanitário do país e o custo de produção seguem como os principais diferenciais competitivos do Brasil. “Temos o custo do suíno mais baixo do mundo”, afirmou, citando a disponibilidade de grãos como fator estrutural favorável. Segundo ele, mesmo em um momento de custos mais elevados para a Europa — afetada pela peste suína africana na Espanha —, o custo brasileiro está cerca de 25% abaixo do custo europeu de produção.
O executivo relatou ter questionado autoridades australianas, durante viagem recente, sobre os motivos para a manutenção do mercado fechado ao Brasil mesmo diante desse cenário favorável de sanidade e custo.
Apesar do otimismo com a competitividade atual, Carvalho projetou um ano mais desafiador em 2027, com expectativa de alta no preço dos grãos. Entre os principais desafios internos citados, estão a forte dependência do transporte rodoviário, o custo de energia, a complexidade tributária e a dificuldade de mão de obra no setor.
Distorções de preço entre mercados
Questionado sobre as diferenças de preço entre países compradores, Carvalho explicou que mercados mais abertos, com fluxo livre de produtos — como as Filipinas —, tendem a apresentar preços mais estáveis e alinhados à média internacional. Já mercados mais restritivos, que exigem habilitação planta a planta, como é o caso de determinados destinos acessíveis apenas a Santa Catarina, permitem preços médios superiores.
“Santa Catarina exporta com quase mil dólares por tonelada de preço médio superior” em comparação à média nacional, exemplificou. Ele citou também a construção de marca e parcerias de longo prazo com importadores como fatores que permitem agregar um prêmio ao produto. Como exemplo de preferência regional de consumo, mencionou a demanda chinesa por miúdos suínos, com preços internos mais altos do que os praticados no Brasil — o que abre oportunidades pontuais de exportação para mercados intermediários, inclusive na África.
Sobre produtos específicos, Carvalho destacou o caso da barriga suína vendida ao Japão, item de alto valor agregado no mercado japonês, hoje comercializado apenas por frigoríficos de Santa Catarina devido à habilitação restrita. “Você tem uma oferta limitada nesse produto e uma demanda aquecida do mercado japonês, uma demanda ainda por cima qualificada […] ele está disposto a pagar mais por isso”, afirmou.
Caso de habilitação cancelada para o Chile
Rodolfo, representante de um frigorífico de grande porte, relatou um episódio recente em que a habilitação da empresa para exportar ao Chile foi cancelada às vésperas de um embarque já com produto pronto, sob a justificativa de que o estado de São Paulo não estaria habilitado pelo país importador.
Carvalho lamentou o caso. “Essa situação foi uma situação muito, muito triste, que nos incomodou bastante também, porque o produto chegou a ser produzido”, disse. Segundo ele, a ABPA trabalha junto ao Adido Agrícola do Brasil em Santiago para formalizar o reconhecimento do estado de São Paulo como livre de aftosa sem vacinação junto às autoridades chilenas, processo que já está em andamento. O executivo confirmou que o caso relatado foi usado como exemplo concreto junto às autoridades brasileiras para acelerar esse reconhecimento.
Carvalho também comentou as dificuldades enfrentadas junto ao Vietnã, mercado em que São Paulo aguarda avanços há cerca de três anos. “A gente tem uma dificuldade muito grande com o Vietnã […] as autoridades sanitárias do Vietnã são de muito difícil diálogo”, afirmou, informando que a ABPA tem tratado os casos individualmente, com apoio do Adido Agrícola brasileiro no país.
Ao final da apresentação, um participante reforçou a importância do apoio institucional em Brasília e do status sanitário do país como pilares para a manutenção da competitividade externa. Carvalho concordou com a avaliação. “O fato do Brasil ser livre de peste suína africana faz toda a diferença e nos permite continuar buscando novos mercados e continuar colocando volume de carne suína nos mercados internacionais”, concluiu.
Da Redação























