Consultoria BCG estima que o setor pode diminuir a liberação de gases em até 1,83 bilhão de toneladas de gás carbônico equivalente de 2023 a 2030
Estudo aborda importância do agro para a redução do volume de emissões

A importância do agronegócio na segurança alimentar da população global, que se espera atingir 8,5 bilhões de pessoas em 2050, é crucial. Além disso, o setor enfrentará o desafio crescente de lidar com a pressão para reduzir as emissões poluentes. Atualmente, o setor agropecuário é o segundo maior emissor de gases de efeito estufa (GEE) no Brasil, sendo responsável por cerca de 25% de todas as emissões, incluindo o dióxido de carbono e outros gases.
O segmento perde apenas para mudanças de uso da terra e floresta, responsáveis por 50% (e que também são, em muitos casos, atribuídas ao desmatamento para a criação de gado e o plantio de lavouras). Ao mesmo tempo, o agro é um setor importante para a economia nacional, responsável por cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado.
Segundo um relatório recente da consultoria BCG, é possível reduzir em até 1,83 bilhão de toneladas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) entre 2023 e 2030 por meio da combinação de três fatores: agricultura sustentável, soluções baseadas na natureza (NBS) e crédito de carbono e bioenergia. O diretor executivo e sócio do BCG, Arthur Ramos, destaca que existe um falso dilema em torno do agronegócio, e é possível seguir uma trajetória de benefícios mútuos. Ramos afirma: “Dá para continuar sendo um setor importante e, ao mesmo tempo, trabalhar em aspectos que possam reduzir o impacto ambiental”.
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Para isso, seriam necessários investimentos de US$ 120 bilhões, boa parte bancada pelo setor financeiro. “Teremos necessidade de US$ 80 bilhões para implementação de melhorias operacionais até o fim da década. Parte disso vem de capital próprio dos produtores e outra, dos bancos. O segmento bancário inclusive já vem assumindo compromissos de reduzir as emissões de gases de efeito estufa de suas carteiras de crédito”, diz Ramos.
O executivo lembra, porém, que, para esse dinheiro ser destravado, é preciso contornar obstáculos, como garantir a legalidade da terra e fazer um rastreamento da atividade produtiva. No caso do primeiro desafio, é sabido que há um problema fundiário e de registro em algumas regiões do país, em especial na Amazônia, alvo constante de desmatamento.
Além disso, a rastreabilidade no campo dependerá não só de os produtores e indústrias adotarem técnicas e tecnologias para analisar suas emissões, mas também para rastrearem sua cadeia de insumos de modo a garantir que os fornecedores sigam práticas sustentáveis.
Ramos é um dos sete autores do relatório “Semeando o futuro: O agronegócio como pilar da transição climática no Brasil”, que detalha 12 temas prioritários dentro dos três propulsores. “Com os incentivos certos, os produtores vão implementar as práticas necessárias”, acredita Lucas Moino, sócio do BCG e coautor do material. O executivo destaca que, entre os “incentivos certos” está a incorporação de certas tecnologias na prática agrícola que, por sua vez, dependerá de financiamento. “Ter fontes de crédito carimbadas ou direcionados a isso, além de um mercado de crédito de carbono e NBSs que ajudem o produtor a seguir boas práticas de preservação”, diz Moino.
No primeiro caso, do crédito, ele cita que há programas específicos para o campo, em especial ao pequeno agricultor, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronamp). “Alguns programas já vêm com uma série de condicionantes ligadas a questões de sustentabilidade para dar acesso a capital subsidiado, como, por exemplo, ter o CAR [Cadastro Ambiental Rural] regularizado. Os médios e os grandes que dependem dos bancos e do mercado de capitais para se financiar”, explica Moino.
Em sua opinião, empresas que queiram captar via emissão de dívida poderão ter vantagens se seguirem práticas de baixo carbono, especialmente para captações no exterior. Ele ressalva que, para o setor financeiro entrar no jogo, é necessário clareza das regras e segurança jurídica.
Mas outros incentivos que podem fazer com que os agropecuaristas pensem algumas vezes antes de desmatar, ainda que possam por lei abrir clareiras até o limite de reserva legal de cada bioma, se referem aos projetos de crédito de carbono e outros relacionados a dar valor à floresta em pé e à preservação da biodiversidade, ou seja, aqueles que pagam para o proprietário da terra não desmatar, como o próprio executivo citou.
Sozinho, o potencial de redução de emissões do mercado de créditos de carbono, regulado e voluntário, adicionado com o de soluções baseadas na natureza, a exemplo de projetos de restauração florestal, atividades de extração de baixo impacto e preservação da biodiversidade, é, de longe, o maior. Enquanto essa alavanca poderá diminuir em 1,8 milhão de tCO2e entre 2023 e 2030, a agricultura sustentável, com suas várias técnicas, conseguiria 200 milhões de tCO2e no período.
Já os projetos de bioenergia, que incluem etanol e biodiesel, o combustível de aviação, o biogás e biometano e a biomassa residual, poderiam contribuir para cortar entre 95 a 130 milhões de toneladas de CO2e entre 2023 e 2030. “Novas avenidas para utilizar captura de carbono ainda podem ser disruptivas lá na frente. Mas já vemos indústrias e transportes usado opções não-fósseis para substituir carvão, óleo e gás”, diz Moino.
Ambos reforçam que as soluções mapeadas pelo estudo já existem e são aplicadas. Entre técnicas já usadas e disseminadas que fazem melhor uso dos recursos naturais, reduzem o impacto, diminuem a necessidade de abrir novos campos e aumentam a produtividade por hectare, citadas no relatório, estão Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF), recuperação de pastagens degradadas e irrigação do solo de forma artificial.





















