Proposta de retenção de matrizes ganha força diante de margens pressionadas e risco de instabilidade na oferta
Setor suinícola defende crédito permanente para evitar desmonte da produção

A pressão sobre as margens da suinocultura brasileira tem reacendido o debate sobre a criação de uma linha permanente de crédito voltada à retenção de matrizes, medida considerada estratégica para evitar oscilações mais profundas na produção. A proposta, liderada pela Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), busca dar previsibilidade ao setor em momentos de alta nos custos de insumos, como milho e farelo de soja.
Em entrevista ao Portal Agrimídia, a gerente de relações governamentais da ABCS, Ana Paula Cenci, afirmou que a característica do ciclo produtivo da suinocultura limita a capacidade de reação rápida às mudanças de mercado. “A suinocultura trabalha com um ciclo produtivo mais longo e menos flexível do que outras cadeias pecuárias. Entre a inseminação da matriz e o abate dos animais oriundos desse ciclo, existe um intervalo aproximado de nove meses, o que dificulta ajustes rápidos diante das oscilações de mercado.”
Segundo ela, em períodos de rentabilidade comprimida, a redução do número de matrizes tem sido uma saída adotada por produtores para aliviar o caixa, mas com efeitos que se estendem no tempo. “Em períodos de margens pressionadas, como o que o setor vem enfrentando em função da volatilidade do milho e do farelo de soja, muitos produtores acabam reduzindo o plantel de matrizes como medida emergencial de caixa. O problema é que essa decisão gera um efeito estrutural sobre a oferta futura de suínos, podendo provocar desequilíbrios importantes nos ciclos seguintes.”
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A proposta de uma linha permanente surge justamente como instrumento para evitar esse movimento. “Por isso, a proposta da ABCS de criação de uma linha permanente de crédito para retenção de matrizes tem caráter estratégico. Ela funciona como um mecanismo de estabilização da produção nacional, permitindo ao produtor atravessar momentos de baixa rentabilidade sem desmontar sua capacidade produtiva”, afirmou Cenci ao Portal Agrimídia.
A preocupação com a redução da base reprodutiva também envolve impactos mais amplos sobre o mercado. “A redução do plantel reprodutivo tende a gerar uma retração futura na produção de leitões e, posteriormente, na disponibilidade de animais para abate. Isso pode provocar volatilidade excessiva no mercado, perda de competitividade internacional e dificuldades para recomposição da produção em curto prazo”, disse.
Além do efeito sobre a oferta, a executiva destacou riscos sociais e econômicos. “Sem instrumentos adequados de crédito, existe risco de concentração produtiva e saída de pequenos e médios produtores da atividade, o que também impacta o desenvolvimento regional e a sustentabilidade social da cadeia.”
Para a ABCS, o desenho da política pública precisa considerar as particularidades da atividade. “Por isso, defendemos uma linha permanente dentro do Plano Safra com juros compatíveis aos programas voltados aos pequenos e médios produtores, além de carência mínima de dois anos. Esse prazo é fundamental porque acompanha o ciclo produtivo da matriz suína e dá condições reais para recuperação financeira do produtor antes do início da amortização.”
Ela também ressaltou a necessidade de melhorar o acesso ao crédito já existente. “Muitas vezes o recurso existe, mas encontra barreiras práticas de contratação, limites defasados ou excesso de burocracia. A atualização dos limites do PRONAMP e do INOVAGRO é essencial justamente para adequar as linhas à realidade atual de custos da atividade.”
No caso do INOVAGRO, a adequação dos limites também dialoga com exigências de mercado. “No caso específico do INOVAGRO, a adequação dos limites é necessária para permitir investimentos ligados a bem-estar animal, modernização tecnológica, ambiência e redução do uso de antimicrobianos — agendas que hoje são exigências de mercado e também compromissos alinhados às práticas de ESG e sustentabilidade da produção.”
Para Cenci, o próximo Plano Safra será decisivo para o setor. “Acreditamos que o Plano Safra 2026/27 precisa olhar para a suinocultura não apenas sob a ótica do custeio, mas como uma política estruturante de estabilidade produtiva, competitividade internacional e segurança alimentar.”























