Bem-estar animal, uso racional de antimicrobianos e certificações independentes podem fortalecer a presença das carnes brasileiras nos mercados internacionais
Resistência antimicrobiana: a ameaça global que virou oportunidade para o Brasil, por Leonardo Thielo de La Vega

A resistência aos antimicrobianos é um dos grandes desafios globais de saúde pública e está diretamente relacionada à forma como produzimos alimentos. Antibióticos são ferramentas importantes para tratar doenças e preservar a saúde e o bem-estar dos animais, mas seu uso inadequado ou excessivo aumenta a pressão para o desenvolvimento de bactérias resistentes, com consequências que ultrapassam a produção animal e alcançam a saúde pública. Para o Brasil, um dos maiores produtores e exportadores de proteína animal do mundo, esse tema merece atenção também pela oportunidade de demonstrar a qualidade dos nossos sistemas produtivos.
O Brasil avançou significativamente em bem-estar animal, biosseguridade, saúde e eficiência produtiva nas cadeias de aves, suínos e bovinos. Esses avanços têm relação direta com o uso de medicamentos. Animais mantidos em boas condições de nutrição, ambiente, saúde e manejo estão menos sujeitos a doenças e, consequentemente, necessitam de menos intervenções terapêuticas. Nesse sentido, o bem-estar animal também deve ser entendido como parte da estratégia de enfrentamento à resistência antimicrobiana, porque prevenir doenças é uma das formas mais consistentes de reduzir a necessidade de antibióticos.
Essa relação coloca o Brasil em uma posição interessante. O país já possui políticas e programas voltados ao uso responsável de antimicrobianos e sistemas produtivos que trabalham de forma consistente com prevenção, biosseguridade e uso racional desses medicamentos. Naturalmente há diferenças entre cadeias e modelos de produção, mas existem experiências muito positivas e uma base produtiva capaz de avançar ainda mais nessa direção. Para boa parte da produção brasileira, portanto, o uso racional de antimicrobianos não representa uma mudança radical de modelo, mas o fortalecimento de práticas que já fazem parte da evolução dos nossos sistemas de produção.
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Esse atributo ganha importância diante de compradores como União Europeia, Estados Unidos e grandes mercados da Ásia e do Oriente Médio. A competitividade das carnes brasileiras não precisa ser discutida apenas em termos de preço, volume e capacidade de produção. Saúde animal, bem-estar, biosseguridade e uso responsável de antimicrobianos também podem diferenciar o produto brasileiro. Mas, para que esses padrões de produção sejam reconhecidos como atributos do produto final, é preciso demonstrá-los de forma objetiva e confiável. É nesse ponto que as certificações auditadas por terceiros ganham força, ao atestar as práticas de campo e comunicar com transparência essas características a compradores e consumidores.
O Brasil tem, portanto, a oportunidade de transformar práticas que já existem no campo e na indústria em valor percebido pelo mercado. Em um cenário cada vez mais atento à resistência antimicrobiana, combinar bons sistemas produtivos com mecanismos confiáveis de verificação pode agregar valor e fortalecer a presença da proteína brasileira nos mercados mais restritivos.
Leonardo Thielo de La Vega.
























