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Seria melhor já ir acostumando a um câmbio de 3,20?

Por Marcos Fava Neves, professor titular da Faculdade de Administração da USP, campus de Ribeirão Preto

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Seria melhor já ir acostumando a um câmbio de 3,20?

Começando com as notícias econômicas, tanto no Brasil como no exterior, temos números piores.  O Boletim Focus do Banco Central subiu a projeção de inflação de 2018 em 0,1%, agora em 4,44% e a do ano que vem manteve em 4,22%. O PIB deste ano seria de 1,34% e o do ano que vem 2,49%. Para a taxa de câmbio, o valor seria de R$/US$ 3,75 neste ano e R$/US$ 3,80 para 2019 e finalmente a taxa Selic para estes dois anos seria de 6,50% e 8,00%, respectivamente. A OMC reviu para baixo os fluxos de comércio esperados e o crescimento da economia mundial. Agora temos expansão de 3,9% no comércio global (era de 4,4%) e expansão de 3,1% na economia mundial. Para 2019 a expansão do comércio é estimada em 3,7% e da economia em 2,9%. O principal fator foram restrições aplicadas ao comércio e incertezas crescentes que causam mais desconfiança a adiamento de investimentos.

Saiu a primeira estimativa da CONAB para a safra 2018/19. Para os grãos espera-se algo entre  233,6 e 238,5 milhões de toneladas (2,5 a 4,7% a mais que esta safra), gerando um adicional entre 5,6 e 10,6 m.t. Em soja vamos colher entre 117 e 119,4 m.t., plantadas em cerca de 36 milhões de hectares. O USDA espera 120,5 m.t. e exportações de 75 m.t. Os americanos devem produzir 127,7 m.t. A China importará em 2018/19 94 m.t., 60% do total a ser importado e o Brasil mais uma vez deve ser beneficiado e com isto as tradings chinesas, tais como a Cofco, devem acelerar investimentos e ganhar espaço.

No milho a Conab estima que produziremos algo no intervalo 89,7 a 91,1 m.t., plantados em 16,7 milhões de hectares, produção que deve ser mais de 10% acima deste ano. O USDA também neste caso está mais otimista, com 94,5 m.t. Pelo USDA nossas exportações em 2018/19 serão de 29 m.t., 7 milhões maiores. Finalmente, no melhor cenário, a área plantada no Brasil pode chegar a 63,1 milhões de hectares, crescimento de 2,3%. Vai bem o plantio da safra de soja, o clima tem ajudado e estamos com cerca de 15 a 20% a mais que o mesmo período do ano passado. O desafio vem sendo o aumento dos insumos impactando nos custos de produção.

Exportações do agro em setembro chegaram a US$ 8,17 bilhões, deixando um saldo de US$ 7,1 bilhões e representando praticamente 43% do total exportado pelo país. Fortes aumentos em soja, papel e celulose, carne bovina (recorde) e também em bovinos vivos. Tivemos bons aumentos de vendas na China, Turquia, Irã, Índia e Argentina. Entre janeiro e setembro chegamos a US$ 76,66 bilhões, 3,6% a mais que o mesmo período de 2017. Importações estão 1,3% menores, o que faz com que nosso saldo esteja 4,5% maior atingindo US$ 66,12 bilhões. Em reais, provavelmente um recorde o recurso que entrou neste ano no Brasil.  

Entre fatos das empresas, dois destaques que mostram a importância da inovação. Americanos já se beneficiam de soja com edição de genes, que não tem DNA de outras plantas. Esta soja, da empresa Calyxt (Minessota) teve o DNA alterado e a soja terá menos gorduras prejudiciais ao coração. Vale ressaltar que nos EUA alimentos que são editados geneticamente tem rotulagem tradicional, não sendo GMO’s. É um processo mais simples e mais barato. Agricultores devem receber US$ 0,9/bushel a mais, ou seja, parte da transferência do diferencial chegará aos produtores. Mas existem custos maiores de separação e tratamento. É só o começo!

Interessante artigo de Priscila Richetti trás um panorama sobre o mercado de fertilizantes no Brasil. Vale destacar algumas informações: em dez anos a produção o de fertilizantes caiu de 9,81 milhões de toneladas para 8,184 milhões. Mas as vendas pularam de 24,61 milhões para 34,4 milhões de toneladas, quase 40% a mais. O Brasil representa 7% do consumo global, usando muito potássio (38%), cálcio (33%) e nitrogênio (29%). 70% do nosso consumo é importado, praticamente todo o potássio, e altas porcentagens dos demais. Aponta como problemas para o setor a questão da tributação (discrepâncias entre alíquotas de ICMS), isenção de impostos para fertilizantes importados, falta de investimento na produção, entre outros. Sem dúvida uma área que precisamos repensar para aumentar a produção interna onde for possível e buscar alternativas. Inovação aqui será chave.

No final, o mês não foi bom em preços, uma vez que tivemos valorização forte do Real com o avanço do quadro eleitoral e bom clima e consequentes perspectivas de safras pelo mundo. No Brasil entramos na semana decisiva do segundo turno, colhendo resultados surpreendentes de um primeiro turno que mostrou uma nova onda “mais conservadora” no Brasil. Se não houver grande surpresa nesta semana, Jair Bolsonaro deve ser eleito (minha previsão é de 62,5% dos votos úteis) e torço para que não siga esta palavra “conservadora” e seja arrojado com sua equipe para propor as reformas e o crescimento que precisamos ter. A ele será dada uma chance enorme de entrar para a história.

Lembrem-se que o título do meu artigo do mês passado foi “será que o câmbio vem para 3,70 ou 5,50?” E disse que viria para 3,70. Acertei em cima. Se Jair tiver governabilidade e estas mudanças forem implementadas, o agro deve se preparar para um câmbio de 3 a 3,20 no final de 2019. O desafio de margem será grande devido ao aumento de custos de produção.  

 

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