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A Chapecoense e a integração do oeste – Por Marcos A. Bedin

O invisível véu de tristeza cobre, silenciosamente, os lares, os escritórios, as fábricas e os campos em Chapecó, desde a madrugada do dia 29, quando, sobressaltado, o mundo tomou conhecimento da tragédia com o avião da Associação Chapecoense de Futebol

A Chapecoense e a integração do oeste – Por Marcos A. Bedin

O invisível véu de tristeza cobre, silenciosamente, os lares, os escritórios, as fábricas e os campos em Chapecó, desde a madrugada do dia 29, quando, sobressaltado, o mundo tomou conhecimento da tragédia com o avião da Associação Chapecoense de Futebol. O sonho de disputar a final da Copa Sul-Americana foi cruelmente ceifado, quando a aeronave caiu nas franjas do aeroporto de Medellín, na Colômbia.

O acidente – maior da história dos desportos mundiais – gerou comoção ímpar em todos os continentes pela extensão da tragédia humana que retirou de nosso convívio jogadores, comissão técnica, dirigentes, jornalistas, convidados e tripulantes: 71 vidas interrompidas, centenas de familiares infelicitados, milhares de torcedores abalados e milhões de pessoas comovidas.

A tragédia colheu a Chapecoense na linha ascendente máxima de sua recente história de 43 anos, quando protagonizava um feito inédito para um time catarinense (disputar a Sul-Americana) depois de conquistar o pentacampeonato estadual e assegurar pela terceira vez uma honrosa presença no Campeonato Brasileiro.

 A dimensão desse estrago ainda não está totalmente assimilada. Eles estão presentes em sons e imagens intensamente veiculadas nas mídias digitais e eletrônicas, dando a falsa esperança de que, se ainda é possível vê-los e ouvi-los, talvez ainda seja possível resgatá-los…

A Chapecoense foi muito mais que uma equipe corajosa. Sua trajetória traz, em seu bojo, significados históricos e sociológicos. É possível, por exemplo, asseverar que a conquista do pentacampeonato catarinense de futebol, em 2016, e a permanência na Série A do Campeonato Brasileiro, têm um significado muito mais amplo que a alegria que inoculou na imensa torcida verde-branca. É preciso lembrar que esta vasta região só muito recentemente integrou-se definitivamente na contextura cultural, política e econômica de Santa Catarina.

Distante do centro de poder político e isolada pelos acidentes geográficos, a região foi desbravada, ocupada e colonizada desde a primeira metade do século passado por migrantes italianos e alemães egressos do Rio Grande do Sul que, aqui, construíram um modelo de sociedade humana fundada no trabalho, no amor à terra e no apego às tradições. A natureza das atividades econômicas desenvolvidas – inicialmente o extrativismo, depois a agricultura e a pecuária intensiva e, no ciclo seguinte, a industrialização e a tecnificação geral das ocupações – vinculou fortemente essa região com o Sul e o Sudeste. As raízes com o Rio Grande do Sul sempre foram rijas, vigorosas e inquebrantáveis: há exemplo mais eloquente do que a proliferação e o culto aos CTGs ou a imensa legião de gremistas e colorados existentes em Chapecó?

Até a década de 1970 era escassa a ligação com o litoral e a Capital do Estado e, por conta disso, rarefeito o sentimento de pertencimento à comunidade catarinense. A sensação de abandono era palpável. Os meios de comunicação hegemônicos no oeste eram jornais, emissoras de rádio e televisão gaúchas e paranaenses.

O governo reagiu a essa situação criando a Secretaria do Oeste, organismo que, em sua origem, teve capital político e financeiro para um grande conjunto de obras para a infraestruturação do crescimento oestino. Mas a integração começou a robustecer-se com a criação das redes de comunicação social leste-oeste de televisão, rádio e jornais. Os meios de comunicação da capital e dos demais polos econômicos passaram a pautar temas e fatos do oeste.

Assim, identificam-se três estágios na superação do hiato leste-oeste: a ação governamental, a ação dos meios de comunicação e a ação do esporte. Coube efetivamente ao esporte a definitiva integração porque tornamo-nos todos catarinenses convictos com a conquista dos campeonatos de 1977, 1996, 2007, 2011 e 2016 pela Associação Chapecoense de Futebol. Com a presença na elite do futebol brasileiro, a autoestima dos oestinos subiu à estratosfera e não haveria nada que pudesse esmaecê-la. A não ser um acidente aeronáutico….

A grande retomada ocorreu há oito anos, quando empresários e aficcionados pelo Clube assumiram os rumos da Chapecoense, sanearam as contas, implantaram um regime austero de gestão e iniciaram esse vigoroso período de expansão e crescimento. Essa nova e promissora fase em que vive o Clube tem muito a ver com uma característica do grande oeste catarinense: a prática do cooperativismo. Foi a cooperação que mobilizou a integração de forças, talentos e recursos e colocou em marcha um processo de eficiência gerencial e visão empresarial. Não é a toa que duas importantes cooperativas – a Aurora e a Unimed Chapecó – são apoiadoras de primeira hora.

A fórmula do sucesso da Chape foi garra em campo e gestão eficaz fora de campo. Transparência, simplicidade, ética, determinação, compromisso com o torcedor – tudo isso emoldurado por ideais da cooperação – resumem os valores do Clube.

Não será fácil conviver sem o futebol alegre e vibrante da Chape. E sem os jornalistas que faziam, em Chapecó, a melhor crônica esportiva do País. O desaparecimento físico dessa plêiade abre um buraco negro nos universos do esporte e da comunicação – que jamais será preenchido.

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