Especialista alerta que adesão ao Desenrola rural pode trazer alívio imediato, mas demanda estratégia ampla para garantir sustentabilidade
Renegociação de dívidas no campo exige planejamento para evitar riscos ao patrimônio

A adesão a programas de renegociação de dívidas, como as novas fases do Desenrola voltadas ao setor produtivo, tem se apresentado como uma alternativa relevante para produtores rurais reorganizarem suas finanças. A possibilidade de alongar prazos e reequilibrar o fluxo de caixa oferece fôlego em um cenário de pressão sobre custos e endividamento. No entanto, especialistas alertam que a medida, quando adotada de forma isolada, pode ampliar riscos e comprometer a sustentabilidade da atividade no campo.
A avaliação é de André Aidar, sócio e Head de Direito do Agronegócio no Lara Martins Advogados, professor de Direito Comercial e Processual Civil, doutor e mestre em Agronegócio. Segundo ele, a renegociação precisa ser tratada dentro de um contexto mais amplo de gestão financeira e jurídica. “A renegociação de dívidas é uma ferramenta importante para recuperar o fôlego financeiro do produtor rural. O principal cuidado jurídico é evitar que a reorganização do passivo privado comprometa ativos estratégicos da atividade, especialmente a propriedade rural e outros bens utilizados como garantia”, alerta.
Na prática, a busca por crédito ou pela postergação de vencimentos pode levar produtores a ampliar sua exposição patrimonial, especialmente com a constituição de garantias reais. “Muitas vezes, nessa busca, há a constituição de hipotecas, alienações fiduciárias ou outras garantias reais que podem aumentar significativamente a exposição patrimonial em caso de novo inadimplemento”, explica Aidar.
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Passivo fiscal
Outro ponto de atenção está no passivo tributário, frequentemente deixado em segundo plano durante os processos de renegociação. Débitos fiscais e previdenciários seguem sujeitos à cobrança e podem resultar em medidas como bloqueio de contas e penhora de bens, comprometendo os ganhos obtidos com a renegociação financeira. “Débitos tributários e previdenciários continuam sujeitos à cobrança, podendo resultar em execuções fiscais, bloqueios de contas e penhoras. Se esse passivo não for tratado paralelamente, a melhora do fluxo de caixa obtida na renegociação bancária pode ser rapidamente anulada”, adverte o especialista.
Para que a reestruturação seja efetiva, a regularidade documental da propriedade também se torna um fator determinante. A verificação de registros como matrícula do imóvel, georreferenciamento, Cadastro Ambiental Rural (CAR) e licenciamento ambiental é essencial para garantir segurança jurídica e acesso a condições mais competitivas de crédito.
Nesse contexto, o planejamento de longo prazo ganha protagonismo. A renegociação, segundo o especialista, deve ir além da simples postergação de vencimentos e buscar a construção de uma estrutura financeira sustentável. “O objetivo não deve ser apenas postergar vencimentos, mas construir uma estrutura sustentável de pagamento. É preciso preservar a capacidade produtiva e evitar que a propriedade rural, principal instrumento de geração de renda da família, fique sujeita a medidas de constrição judicial no futuro”.
A estratégia, de acordo com Aidar, passa por uma atuação simultânea em diferentes frentes. “O produtor precisa olhar simultaneamente para três frentes: reestruturação das dívidas privadas, regularização do passivo fiscal e proteção estratégica do patrimônio rural. É esse equilíbrio que transforma a renegociação em uma solução duradoura”, conclui.
Fonte: Lara Martins Advogados























