Alexandre Rosa fala sobre a importância da gestão para a suinocultura e qual diferencial ela pode trazer para o suinocultor.
Estratégia, gestão e rentabilidade

O Seminário Internacional Agroceres de Suinocultura tem como mote neste ano Estratégias e Gestão para a Rentabilidade na atividade suinícola. Em foco estão temas como as novas ferramentas de gerenciamento da produção e comercialização de suínos, os fatores-chave que promovem a competitividade global à suinocultura norte-americana e as tendências futuras que vão balizar a produção de suínos.
Em entrevista, Alexandre Furtado da Rosa, diretor Superintendente da Agroceres PIC, fala sobre a importância da gestão para a suinocultura e qual diferencial ela pode trazer para o suinocultor interessado em manter-se competitivo num mercado cada vez mais cheio de desafios.
Suinocultura Industrial – O tema do Seminário Agroceres deste ano é Estratégia e Gestão para a Rentabilidade. Poderia falar sobre a escolha desse mote?
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Alexandre Furtado da Rosa – A escolha do tema está muito ligada à proposta do nosso evento, que é um fórum de debates sobre aspectos de gestão de mercado e de negócios. Nosso seminário não é um evento essencialmente técnico. Procuramos trazer produtores, dirigentes de indústrias, de cooperativas, pessoas que tomam decisões para, durante dois dias, conhecer um pouco sobre as visões da Agroceres PIC. Visões acerca do futuro da suinocultura brasileira e mundial, tendências de mercado, informações de estratégias para administração de seus negócios, novas tecnologias.
Acreditamos que já existem muitos eventos técnicos no Brasil, com enfoque mais científico, e não é nossa intenção concorrer com esse tipo de evento. Nossa ideia é proporcionar um momento de discussão sobre a gestão do negócio e que tipo de diferencial o produtor pode ter para competir dentro de um setor com desafios cada vez maiores. Refiro-me aos desafios de produção, comercialização, mão de obra. Nosso objetivo é que as pessoas saiam de nosso evento com interesse em estudar outros aspectos da gestão. Por isso escolhemos esse tema. Nossa proposta é criar um fórum para discutir tendências, e não propriamente pontos específicos da produção. Para isso existem outros eventos mais capacitados.
SI – E a genética suína, onde se encaixa nesse contexto de gestão, estratégia e rentabilidade?
Alexandre Furtado da Rosa – A genética é um insumo fundamental dentro da cadeia para a obtenção de resultados. Temos uma apresentação específica – e que encerra o evento – intitulada “O Futuro”. Ele fala sobre quais eram os alvos de produtividade que se buscava há dez anos e quais são os que estamos vivenciando hoje. Quer dizer, o que dizíamos há uma década que seria o futuro, e se esse futuro chegou. Será que acertamos? Será que erramos? Também serão abordadas as tendências futuras, o que acontece agora numa granja núcleo. Os resultados gerados nela já nos dão uma ideia do potencial de produtividade para os próximos cinco ou oito anos. Afinal, o que está hoje dentro de uma granja núcleo é o que vai estar no campo dentro de quatro ou cinco anos.
A genética sempre foi, dentro da atividade suinícola, uma puxadora de tendências. Ela trouxe, por exemplo, a necessidade de ajustes na nutrição para atender um animal de conformação muito mais magra, de um crescimento muito mais rápido. Ajustes na questão sanitária, ajustes das instalações e a necessidade de atender a questão sanitária. Hoje um animal tem necessidades diferentes dos animais de 20 anos atrás. O manejo mais intensivo gera desafios sanitários mais complexos. Então, a genética acaba sendo uma catalizadora e até uma precursora. A genética puxa muita coisa.
SI – Em termos do conceito de produtividade, houve uma mudança na suinocultura? Antes se avaliava muito a questão de nascidos/porca/ano e a Agroceres PIC parece vir focando muito na questão do volume de carne produzido por fêmea/ano. O que consiste este novo conceito?
Alexandre Furtado da Rosa – Esse conceito não foi inventado por nós, mas acreditamos firmemente nele. Para se ter uma melhor avaliação de um sistema, de seu nível de eficiência, é preciso olhar o aspecto da lucratividade. Ou seja, o custo de produção por uma unidade vendida. Existe o preço, que não é possível manipular, e você pode trabalhar nos aspectos do custo e da quantidade, da escala de produção. O aspecto “nascidos por fêmea ao ano” é um dos aspectos importantes, mas acreditamos que ele não é o mais importante. Hoje em dia, cada vez mais, se olha a questão de quanto o produtor consegue produzir de carne por unidade instalada. Por que a unidade, uma fêmea, por exemplo, tirando a alimentação, é um custo fixo. Quantidade é importante, mas um animal pode nascer com 1,5 kg, que é o peso ideal, mas pode nascer com 900 gramas. Está provado que o animal que nasce mais leve, mais fraco, representa um custo muito grande para que o produtor possa recuperar. E mesmo que recupere não o faz em sua plenitude. Então, a qualidade desse animal é muito importante. E essa qualidade passa pela condição física e pela capacidade de ganho de peso. Quando se joga para uma métrica de quilos produzidos por ano e não cabeças está se levando em consideração o número de animais, mas também a eficiência de conversão alimentar, de capacidade de crescimento desse animal ou de todos os animais. Isso acaba de alguma forma sendo mais importante do que se ter volume e não ter qualidade.
SI – Na suinocultura sempre se observa os resultados de campo, no entanto, hoje, além de estar atento a esta questão, o produtor parece ter de olhar o mercado como um todo, com focos em questões que não estava muito habituado, como tendências de consumo, gestão, aquisição de insumos etc. É precisamente este o ponto, uma possível mudança de paradigma, que a Agroceres PIC vem tentando enfatizar nas últimas edições do evento?
Alexandre Furtado da Rosa – Sim, cada vez mais o mercado está ditando as regras. Um exemplo claro disso é a grande quantidade de granjas novas independentes de médio porte que apareciam no passado. Simplesmente as pessoas construíam a granja e só depois iam ver como e onde vender. A partir do momento que os custos de produção subiram dramaticamente, e isso aconteceu nos últimos oito anos, especialmente os custos de alimentação, não dá mais para construir uma granja sem saber onde e como você vai comercializar. O mercado dita isso. Primeiro é preciso estudar as oportunidades e os locais de venda, para depois estruturar e dimensionar o quanto se vai produzir. Além disso, é preciso saber qual o tipo de mercado. O produtor vai industrializar, vai vender animal vivo, vai trabalhar com cortes, trabalhar num mercado que tem casas de carnes? O produtor tem que entender tudo isso. Isso sem contar o mercado de grãos, especialmente no caso do milho, que era uma commodity tradicionalmente interna e hoje não é mais. Hoje o Brasil é exportador de milho e a própria relevância do milho no contexto da energia nos EUA mudou muito essa realidade. O milho passou a ser referenciado por bolsas internacionais, como acontece com a soja.
Portanto, o produtor precisa estar ligado nesses aspectos. Outro ponto importante é a mão de obra que está ficando mais cara no Brasil. A necessidade de atualização e capacitação é muito grande. O produtor tem que ter a preocupação de capacitar sua equipe. Enfim, ele tem que estar ligado em muito mais fatores.
Acho também que ele tem que ter cuidado em não se perder nisso. Uma coisa é você ter informação, saber o que está acontecendo no mercado. Outra é fazer bem feito o que ele tem que saber fazer bem feito, que é da porteira para dentro. O produtor tem que ser de fato um especialista em produzir o máximo possível de carne magra de boa qualidade por unidade instalada. Esse é o negócio dele. Ele precisa ter informação, mas não pode perder o foco. Ele em que cada vez ser mais eficiente dentro de seu negócio. Isso vale para qualquer ramo. É preciso estar antenado, atento, mas sem perder o foco naquilo que é seu principal negócio.
SI – A programação do seminário também tem dado ênfase em relação ao mercado internacional, apresentando panoramas e características de países grandes produtores como o da China e Estados Unidos. É importante conhecer os principais players do mercado suinícola? Por quê?
Alexandre Furtado da Rosa – Sim, sem dúvida. Principalmente porque são concorrentes. A ideia de trazer informações sobre a China é porque se trata do maior produtor e consumidor de carne suína. É nosso concorrente e, ao mesmo tempo, um potencial cliente, na medida em que consome muito, tem uma população gigantesca.
Já os EUA são diferentes. Além de ser grande produtor e o maior exportador mundial, o país tem 300 milhões de habitantes e também pode ser um potencial comprador. Nossa intenção é também levar informações ao produtor sobre o que é verdade, mito ou paradigma sobre esses dois países. Por isso trouxemos pessoas que vivenciam essas realidades e que podem nos falar sobre os diferenciais desses players. Há muita curiosidade sobre esse assunto.
Sobre os EUA temos um pouco mais de informação e a proposta é mostrar os diferenciais da suinocultura norte-americana. Eles passaram por uma grande crise nos últimos dois anos e reduziram sua produção em menos de 5%. Hoje os suinocultores norte-americanos produzem com muito mais eficiência em comparação há dez anos. Eles resolveram os problemas relacionados à mão de obra e hoje têm uma mão de obra comprometida. Eles provaram que eficiência e gestão são diferenciais competitivos. A crise chega, mas afeta muito mais uns do que outros. Não fosse assim todo mundo sairia da atividade. Já o destaque da China se justifica pelo fato de que tudo que ocorre por lá acontece numa escala muito grande. Sabemos que eles estão investindo na produção de suínos para, de alguma forma, buscar a autossuficiência. Nossa proposta é trazer informações gerais sobre as grandes tendências da atividade que podem afetar, mesmo que indiretamente, nosso público.





















