Terceira geração de empresários rurais de MT rejeita rótulo de ‘filho do dono’ e imprime sua marca.
A nova safra dos gigantes do Cerrado

Eles frequentam as fazendas dos avós e dos pais desde muito cedo. Da infância, guardam reminiscências da dureza do trabalho no campo. E fazem questão de celebrar o mérito dos pioneiros desbravadores dos Cerrados do Centro-Oeste.
Herdeira de alguns dos maiores grupos do agronegócio brasileiro, a terceira geração de empresários rurais de Mato Grosso rejeita o rótulo de “filho do dono” para subir na hierarquia dos negócios e busca reconhecimento pelo esforço próprio. No início da carreira, parte desses jovens sucessores apostou em atividades para além das fronteiras rurais. Mas, ao longo do tempo, as ligações sanguíneas com o campo acabaram prevalecendo.
Antes disso, porém, a nova geração consolidou a mudança no perfil do empresário rural. Formados em boas universidades e pós-graduados em programas de renome, engrossaram os currículos com experiências e estágios no exterior. Sem a pressão de enfrentar as intempéries dos sertões a qualquer custo, tiveram tempo para se preparar e planejar cada passo de suas carreiras.
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Aos 25 anos, Belisa Maggi é um bom exemplo desse novo perfil. Filha de Blairo Maggi e herdeira de um dos maiores conglomerados nacionais do setor, o Grupo André Maggi, ela resolveu botar a mão na massa depois de se formar em Direito, fazer estágio em Londres e cursar dois MBAs – gestão empresarial e agronegócio.
“Sempre quis ser dona do meu negócio, sair do trivial. Fiquei sem chão com o Direito e me apaixonei pelo agro”, relembra. Depois de ter passado por todas as divisões da Amaggi, Belisa decidiu mergulhar em fórmulas agronômicas, manutenção de máquinas e preocupações com a meteorologia. “É um tal de levar pistão para a oficina, cuidar de funcionário, ver preço na bolsa e rezar para chover”, diz.
Hoje, Belisa administra uma área de 1 mil hectares em Campo Verde, a 130 quilômetros da capital Cuiabá. Ali, cultiva o grão que rendeu ao pai o apelido de “rei da soja”. E ainda lembra de como entrou de cabeça no setor. “Pedi 5 hectares ao meu pai, mas ele se negou a comprar”, lembra. “Vendi meu carro, arrendei terra perto de Caldas Novas (GO) e fiz meus experimentos. Fui bem, consegui alta produtividade e meu pai se convenceu de que eu precisava de uma oportunidade. Talvez tenha sido a questão da sucessão na empresa”.
Orgulhoso com a reorientação da carreira da filha, Blairo Maggi comemora: “Ela é muito persistente e merece se dar bem. Dei uma ajuda, mas ela sabe se virar”. E Belisa se apressa em rejeitar novos “empurrões”. “Família é família. Negócios, à parte. Se puder ajudar na empresa, vou ajudar. Hoje, tem muita gente capacitada lá. No futuro, quem sabe”. Por enquanto, Belisa quer ampliar os atuais 500 hectares para até 2 mil na próxima safra. “Onde tiver negócio, estou atrás. Não estou para brincadeira”, diz ela. No futuro, quer produzir óleos essenciais para a indústria cosmética e farmacêutica.
A 150 quilômetros da fazenda de Belisa Maggi, em Rondonópolis, a administradora de empresas Jamile Göellner Zambardino, 30 anos, ajuda a tocar uma área de 30 mil hectares de soja, algodão e milho. Herdeira do Grupo Girassol, fundado pelo pai Gilberto Göellner, estudou na PUC-Rio e emendou um MBA em auditoria e controladoria em Cuiabá.
“Desde criança, sabia que leite não vinha em caixinha”, brinca. Jamile queria cursar hoteleria e turismo. Fez intercâmbio na Austrália e formou-se técnica em turismo. Mas um papo com o avô mudou sua história. “Ele me disse: ‘Vai cuidar do que é teu’. Aquilo foi decisivo e optei por cuidar do que meu pai tem construído desde 1982”.
Dali em diante, assumiu o lado “telúrico”. Passou por todas as áreas do grupo, gerenciou a empresa de genética de milho e agora prepara uma nova coligada na gestão ambiental. “Foi um amadurecimento para mim. Hoje, a empresa está profissionalizada”, afirma Jamile, que tem outros cinco irmãos, dois deles agrônomos como o pai. O Girassol tem nove executivos e fazendas em Dom Aquino, Pedra Preta, Leverger e Torixoréu. “Foi um desafio ser da família. O bônus foi cuidar do que é meu e o ônus, ter poucas regalias. Sempre quis ser uma funcionária, mas tive que provar no dia-a-dia que sou boa profissional. Além de ser filha, estudei, me profissionalizei”.
Trajetória semelhante teve o economista Guilherme Scheffer. O jovem de 27 anos cursava Informática e queria ser programador de sistemas. Mas alguns estágios em outras empresas mudaram seu caminho. “Gosto do que dá dinheiro”, diz. Hoje, é diretor comercial e financeiro do Grupo Scheffer, com sede em Sapezal.
Filho de Eliseu Scheffer, cuja sociedade com o irmão Eraí Maggi Scheffer no Grupo Bom Futuro terminou em 1982, fez estágios em uma corretora de mercados futuros, na bolsa de algodão de Nova York, na associação dos produtores (Ampa) e acabou o périplo com um MBA em agronegócios. Hoje, toca 80 mil hectares e 4 mil cabeças de gado com os irmãos Gilliard e Gislayne. “Meu pai nos deu oportunidades. Decidi pela família porque vi que aqui meu potencial era maior do que sozinho”, afirma.
Em Primavera do Leste, os cinco irmãos da família Brunetta também preparam a transição. O primogênito Gianni Brunetta, de 30 anos, está desde os 13 anos no Grupo Itaquerê, que tem 100 mil hectares e 30 mil bois em sete cidades. Administrou quatro centrais hidrelétricas e 48 caminhões da transportadora do grupo presidido pelo pai, Eloi. “Ao mesmo que sou dono, tenho que me submeter ao consenso de todos os sócios. Com isso, aprendi transparência, confiança e respeito na família. Tem que ter líder, controlar ânimos. Poucos dão tão certo como a gente”, avalia. Gianni prepara, agora, a expansão dos negócios para a construção civil e imobiliária





















