Em entrevista, Clever Pirola Ávila revelou que trabalha com o Governo Brasileiro para evitar o desabastecimento no mercado doméstico, equilibrando as exportações e o consumo interno no Brasil.
Disparada dos insumos retira competitividade e ameaça setor de suínos e aves

A disparada nos preços dos principais insumos (soja e milho) encareceu fortemente a produção de carnes de aves e suínos no Brasil e ameaça derrubar a competitividade do setor neste ano. O presidente do Sindicado das Indústrias da Carne e Derivados de Santa Catarina (SIindicarne), Clever Pirola Ávila, revelou que, em face do forte encarecimento do preço da soja nos mercados nacional e mundial, trabalha com o Governo Brasileiro para evitar o desabastecimento no mercado doméstico, equilibrando as exportações e o consumo interno no Brasil.
Em razão da escassez de insumos, há forte pressão para aumento de preço dos grãos até a próxima safra. Santa Catarina tem mais de 60.000 suinocultores e avicultores produzindo num setor que emprega diretamente 105 mil pessoas e, indiretamente, mais de 220 mil trabalhadores. O setor no País se desenvolveu copiando o modelo de parceria produtor/indústria implantado em Santa Catarina a partir do início dos anos 70.
Como o senhor avalia a crise da suinocultura?
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Clever Pirola Ávila – A crise da suinocultura está caracterizada pelo fechamento de mercados internacionais (Rússia e Argentina), pela excessiva oferta de carne no mercado interno e a elevação dos custos – especialmente, soja e milho – principais insumos nutricionais da produção pecuária. Nesse estágio da crise, o alto custo do milho impacta o resultado final da produção rural. Santa Catarina cultiva 540.000 hectares e produz cerca de 3 milhões de toneladas, mas consome 6 milhões, importando do exterior ou do Mato Grosso e Paraná o volume necessário para suprir o déficit de 3 milhões de toneladas.
Quem sofre mais com essa crise?
Clever – Criadores e indústrias são os mais prejudicados. Mas não há dúvidas que o produtor independente, aquele que não participa do sistema de integração, está em situação dramática porque não tem a cobertura de nenhuma agroindústria.
As medidas do Governo Federal, entre elas a fixação do preço mínimo, mudam a gravidade do quadro?
Clever – No curto prazo minimiza a situação para os produtores, porém não resolve. As causas maiores são dois fatores: barreiras de mercados importadores como Argentina e Rússia e custos astronômicos de matérias-primas, milho e farelo de soja. Infelizmente neste momento a solução passa por uma redução de produção. O apoio do governo se dará pela concessão de subvenção à comercialização de suínos vivos, por meio da realização de leilões de Prêmio de Escoamento do Produto (PEP) ou Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro), no valor de R$ 0,40/kg. A medida tem que passar ainda pelo Conselho Monetário Nacional.
Quais as soluções para a superação desse quadro de dificuldades?
Clever – A curto prazo precisamos canalizar via dispositivos do Governo Federal a disponibilidade dessas matérias-primas em Santa Catarina. A médio e longo prazo precisamos aumentar urgentemente a produção de milho. Precisamos unir todos os elos da cadeia produtiva para propor ao Governo Federal a criação de um vigoroso programa para o aumento da produtividade catarinense e nacional mediante o aporte de tecnologia avançada em termos de sementes, manejo, preparação de solos e tratos culturais. O ponto-chave desse programa deve ser a concessão de benefícios e incentivos que o governo central daria para os produtores ampliarem o uso da tecnologia. Outra estratégia é a transferência para a cultura do milho das áreas atualmente cultivadas com soja (cerca de 400.000 hectares em território barriga-verde). Nesse aspecto serão necessárias garantias de comercialização e liquidez para convencer os plantadores de soja a optarem pelo milho.
Qual o déficit de soja/farelo de soja até o fim do ano?
Clever – Estamos trabalhando através de políticas de segurança alimentar para que não haja déficit.
Tendo em vista que o milho também passou por um longo período de preços elevados, de que forma e com que intensidade a conjugação desses dois insumos em processo de alta repercutirá nos custos totais de produção de carne de frango?
Clever – Se os custos de matéria-prima continuarem subindo teremos impacto no custo total do frango de forma direta, sem dúvida.
Então o consumidor pode esperar um inevitável encarecimento do preço do frango? De quanto?
Clever – É uma grande possibilidade, porém o mercado define os preços não somente pelos custos, mas também pela lei da oferta e procura.
Como a cadeia produtiva da avicultura poderia evitar ou minimizar esse problema?
Clever – Através da gestão de estoques e estratégias de aquisição, com controle das exportações.
Que instrumentos de política agrícola poderiam atenuar esse problema?
Clever – A longo prazo é necessário uma política agrícola, visando não apenas as exportações para o mercado mundial como também uma linha de atuação de incremento da produção nas regiões onde há a conversão de proteína vegetal em proteína animal.
Qual o impacto desses insumos na produção de aves e suínos?
Clever – É muito grande. A saca de soja (60 kg) está rendendo de 55 a 60 reais, o que representa o melhor resultado dos últimos 20 anos. As cotações de milho também estão elevadas, acima dos níveis médios dos últimos anos: em torno de R$ 25,00 a saca, mas já esteve em R$ 30,00. O milho e a soja são os principais componentes da nutrição de aves e suínos e representam 70% do custo de produção. Enquanto os sojicultores comemoram, avicultores, suinocultores e agroindústrias sofrem. Os preços elevados da soja e do milho encarecem verticalmente os custos das cadeias produtivas de aves, suínos e leite, afetando os criadores e as agroindústrias. Santa Catarina é autossuficiente em soja, mas importa todo ano mais de 3 milhões de toneladas de milho, com altíssimo dispêndio em transporte.





















