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Brasil busca a sua autossuficiência em trigo

Na última safra, as lavouras se estenderam por 55 mil hectares, com uma produção de cerca de 500 mil toneladas.

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Redação (23/03/2009) – Cerca de 10% das exportações argentinas ao Brasil podem evaporar até meados da próxima década. Diante da incerteza sobre as safras de trigo e sobre a capacidade argentina de exportação do produto, o governo brasileiro decidiu impulsionar a produção no cerrado, tendo a autossuficiência como meta. Na semana que vem, o Ministério da Agricultura vai anunciar um pacote de estímulo ao plantio, que prevê o aumento entre 10% e 15% no preço mínimo do cultivo de trigo da região. Em quatro anos, o governo espera que a colheita de trigo no País alcance sete milhões de toneladas – 70% do consumo nacional.

"O trigo sempre foi usado pelo Brasil como moeda de troca para a indústria vender seus produtos para a Argentina, principalmente os da linha branca", disse Julio Cesar Albrecht, pesquisador da Embrapa Cerrados, sobre um dos pontos sensíveis do comércio bilateral entre Brasil e Argentina. "Agora, em médio e longo prazos, o governo aposta na expansão do trigo no cerrado."

A Embrapa Cerrados trabalha no melhoramento genético de sementes de trigo, para adaptá-las à região, desde os anos 70. Para a safra de 2006, duas novas sementes – BRS 254 e BRS 264 – mostraram-se produtivas. Em 2008, a semente BRS 254 permitiu uma colheita de 7,6 toneladas por hectare, e a BRS 264, de 6,5 toneladas por hectare.

Na última safra, as lavouras da região se estenderam por 55 mil hectares, com uma produção de cerca de 500 mil toneladas. Além da alta produtividade, a produção no cerrado tem a vantagem de ser colhida na entressafra, em agosto, o que permite a venda por melhores preços.

A gritaria da Argentina, que perderá um negócio que rendeu US$ 1,264 bilhão em 2008, já é um custo calculado dessa estratégia. O Itamaraty está ciente de que, na medida em que a produção nacional aumente, terá de conter a reação do país vizinho – provavelmente, com compensações comerciais – para evitar prejuízos na consolidação do Mercosul.

Qualquer cobrança, entretanto, será desproporcional. Na opinião de Silvio Porto, diretor de Logística e Gestão Empresarial da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a Argentina não terá problemas para colocar seu produto em outros mercados, uma vez que é esperada a redução da produção dos EUA nos próximos anos.

A diplomacia já acumula argumentos para apresentar a Buenos Aires. Desde a criação do Mercosul, em 1995, a Argentina conquistou o mercado cativo do Brasil, que passou a importar seu trigo com tarifa zero.

A partir de 2008, essa oferta foi contaminada pelo risco de desabastecimento e induziu o governo a perseguir a substituição de importação do produto. O governo brasileiro recorreu à adoção de uma cota, com tarifa zero, para importar os grãos dos EUA. Neste ano, a ameaça voltou com as retenções de guias de exportação pela aduana argentina e a quebra da safra.

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